“A Al-Qaida acabou por ser ultrapassada, do ponto de vista ‘jihadista’, pelo Estado Islâmico […] e assumiu durante muito tempo, sobretudo desde a morte de [Usama] bin Laden, um vazio de poder que acabou por congelar a agenda ‘jihadista’ extremista”, disse à Lusa o especialista em direito internacional e ex-analista do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), a propósito do 30.º aniversário da rede terrorista.

“O que é certo é que a Al-Qaida acabou por assumir uma postura mais branda, limitando-se ao campo estritamente militar, e, não digo abandonando, mas pelo menos não dando prioridade a uma agenda ‘jihadista’, antes tornando-se muito próximo de um grupo armado ou de uma milícia tradicional. Mas não perdeu essa componente”, explicou.

Segundo este especialista, observa-se agora, com o filho e sucessor de Bin Laden, Hamza, que a Al-Qaida “está novamente a emergir como uma ameaça global, não só do ponto de vista ‘jihadista’, porque quer recuperar a falange de simpatizantes que teve e quer reorientar a sua estratégia em termos de uma agenda mais global”.

Guerreiro explica que a rede terrorista quer “chegar ao poder, não só nos locais onde está, mas também noutros”, referindo que antes de o Estado Islâmico (EI) aparecer, “a Al-Qaida tinha filiais na Nigéria, Filipinas ou Somália, palcos que acabou por perder para o EI”.

Essa estratégia ganha com os acordos instrumentais que vão sendo realizados em conflitos em que a Al-Qaida pode ajudar a derrotar o principal inimigo, como no Iémen, onde a Arábia Saudita utiliza a Al-Qaida na Península Arábica (AQPA) contra as milícias xiitas apoiadas pelo Irão.

“Isto pode ser uma ameaça, porque a Al-Qaida não perdeu a sua identidade ‘jihadista’”, afirmou, criticando “o oportunismo” e “a forma irresponsável” deste tipo de condução das relações internacionais.

O especialista acha improvável que a “nova” Al-Qaida ressurja semelhante ao que era há dez anos, com grandes ataques terroristas, até porque “foi aprendendo a reconstruir-se face à agenda do EI”, mas isso “não inviabiliza outro tipo de ações, como raptos, sequestros, outro tipo de atentados ou incursões pontuais que possam assemelhar-se a atentados terroristas”.

“Mas não deixa de ser uma ameaça, porque a visão ‘jihadista’, a visão fundamentalista do Islão, está lá”, insistiu, citando, noutro passo, grupos como o Boko Haram, na Nigéria, ou as milícias al-Shabab, na Somália, que, quando têm poder, “implementam leis fundamentalistas que acaba por comprometer e por inviabilizar qualquer tipo de modernização e de abertura face ao exterior”.

“Todos estes grupos tomam decisões de uma forma muito fria, muito objetiva. Eles não aderem de uma forma genuína ao Islão, o que eles pensam é que têm a possibilidade de receber financiamento, treino e apoios que permitem que depois, no terreno, possam continuar a executar a sua agenda de conquista territorial”, explicou.