Assistir à sua série ou filme favorito ou ouvir a sua playlist nunca foi tão fácil. Uma gama virtual praticamente infinita de filmes, músicas e programas de TV pode ser transmitida e vista na Internet quase instantaneamente. É uma forma revolucionária de consumir produtos culturais... e extremamente cómodo. Mas qual o custo de tudo isto para o meio-ambiente em que vivemos?

Na prática, vastas quantidades de energia são necessárias para manter os dados a fluir pela Internet e, para mais, a procura aumenta à medida que a nossa dependência por serviços digitais cresce.

Parte da energia necessária é gerada a partir de fontes limpas e renováveis, mas outra parte é obtida a partir da queima de combustíveis fósseis à base de carbono, o que a maioria dos especialistas no clima afirma ser um factor que contribui para o aumento das temperaturas globais no planeta Terra: o consenso entre os cientistas de todo o mundo, sobre o efeitos das actividades humanas nas alterações climáticas, nomeadamente devido à emissão de dióxido de carbono para a atmosfera, é inequívoco.

Conforme explica Gary Cook, analista em tecnologias da informação (TI) da Greenpeace,  tendo em conta a forma “como potencializamos a nossa infraestrutura digital, tornou-se crucial saber, rapidamente, se conseguiremos conter as mudanças climáticas a tempo”.

Mas, afinal, reduzir o tempo gasto na Internet pode realmente fazer diferença no consumo de energia e no aquecimento global?

Estima-se que o setor das TI – da alimentação de servidores da Internet ao carregamento dos smartphones – tenha a mesma pegada ecológica que as emissões de combustível da indústria da aviação. Aliás, ela deve contribuir para o consumo de até 20% da eletricidade mundial até 2030, segundo Anders Andrae, da Huawei Technologies.

Indo ao cerne da questão, sucede que as contas de transmissão de vídeo por streaming usam a maior fatia do tráfego de Internet do mundo.

Homens em data center
Vastas quantidades de energia são necessárias para manter os dados fluindo na internet e a demanda só aumenta à medida que nossa dependência de serviços digitais cresce créditos: AFP

Assistir a vídeos pela Internet em casa é praticamente o mesmo que ter duas ou três lâmpadas incandescentes ligadas, indicam Chris Preist e Dan Schien, do departamento de ciência da computação da Universidade de Bristol, no Reino Unido. Além da potência usada por estes dispositivos, a energia é ainda consumida pelas redes que distribuem o conteúdo.

Quer dizer, mais demanda por tecnologia também significa que mais energia será necessária para armazenar e compartilhar grandes quantidades de informações. É aqui que entram os grandes data centers (centros de processamento de dados) – geralmente instalados em imensos edifícios que abrigam servidores que armazenam, processam e distribuem o tráfego da Internet. Os servidores em si exigem uma grande quantidade de refrigeração.

A maior parte do tráfego mundial de Internet passa por estes data centers, que hospedam plataformas de streaming como o Facebook, o YouTube e a Netflix. Por exemplo, a primeira tem mais de 2 mil milhões de utilizadores, e a última tem cerca de 140 milhões de assinantes.

Estima-se que estes monstruosos centros de processamento de dados consumam, atualmente, pelo menos 1% da eletricidade mundial, um número que deverá aumentar no futuro. Ao mesmo tempo, também respondem por cerca de 0,3% das emissões globais de dióxido de carbono (CO2).

Música Despacito é o perfeito exemplo do problema que existe

Na visão de Anders Andrae, da Huawei, os data centers que estão sendo construídos em todo o mundo devem ser alimentados através de energia renovável, para minimizar as emissões de CO2

O problema não pode mesmo ser negligenciado, pois, a crer nos dados do projeto Eureca, financiado pela Comissão Europeia, os data centers nos países da UE consumiam 25% mais energia em 2017 em comparação com 2014.

Por exemplo, o líder desta investigação europeia, Rabih Bashroush, calculou que 5 mil milhões de downloads e transmissões sincronizadas da música Despacito, lançada em 2017, consumiram tanta eletricidade quanto os países do Chade, Guiné-Bissau, Somália, Serra Leoa e a República Centro-Africana, juntos, num único ano.

Mas o que pode cada um de nós fazer?

Cada vez que nos sentamos para assistir ou ouvir algo online, a quantidade de energia consumida pode mudar. Tudo depende de uma série de fatores, incluindo a eficiência do dispositivo usado.

A transmissão terrestre de televisão é muito mais eficiente do que as tecnologias atuais de streaming para canais de televisão, que são assistidos por um grande número de pessoas, referem Chris Preist e Dan Schien. Os telemóveis, por sua vez, tendem a ser os mais eficientes em termos de energia – mais do que uma TV ou um notebook.

Mas também depende de como cada um de nós usa o streaming. Um telemóvel que usa wi-fi consome menos energia do que um que está conectado via 3G ou 4G.

Mesmo se não estiver a usar o seu dispositivo, só por ter o wi-fi em casa continua a consumir energia, avisa Preist. “Em casa, muito do consumo de energia vem de todos nós, ao manter os nossos equipamentos conectados 24 horas por dia.”

Alguns data centers podem ser mais eficientes que outros. Mantê-los em locais mais frios, no subsolo, por exemplo, pode reduzir as grandes quantidades de energia necessárias para o seu arrefecimento.

Data center

Downloads e transmissões sincronizadas pela música Despacito consumiram tanta eletricidade quanto Chade, Guiné-Bissau, Somália, Serra Leoa e República Centro-Africana juntos em um único ano
créditos: AFP

Vamos ser optimistas. O último relatório da Agência Internacional de Energia (AIE) sugere que, apesar do aumento da capacidade de trabalho dos data centers, que triplicarão em número até 2020, a quantidade de eletricidade usada aumentará apenas 3%.

Isso deve-se a melhorias contínuas na eficiência dos servidores e na infraestrutura dos data centers, e a uma mudança para centros maiores, porém mais eficientes. Pelo meio, algumas das grandes empresas de tecnologia têm sido elogiadas por serem mais abertas sobre o quão eficientes são.

O Facebook, por exemplo, espera que seu novo data center em Singapura seja alimentado por 100% de energia renovável, algo que a Apple diz que já acontece com todas as suas instalações globais. Muitas outras empresas comprometeram-se a atingir esse objetivo. As empresas também compensam a quantidade de energia não renovável que consomem apoiando projetos de energia renovável.

Em suma, o escrutínio de empresas menos conhecidas e mais pequenas, assim como o seu consumo de energia devem ser uma prioridade, diz Bashroush. “É preciso dar mais atenção às instalações de data centers menores que estão fora do radar, e é aí que está a próxima grande oportunidade de economizar energia, é onde os grandes players não são tão maus, em comparação”, diz.

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