“Temos de tomar a seca como uma certeza, não sabemos quando nem onde, mas sabemos que é um fenómeno que vai acontecer”, assinalou o especialista do Instituto de Investigação Veterinária e docente universitário, durante uma palestra sobre a seca no sul de Angola, no âmbito das VIII Jornadas Parlamentares da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), que decorrem até sábado nas províncias da Huíla e do Cunene (sul).

O académico apontou a necessidade de adoptar medidas para responder às diferentes fases da seca (alerta, emergência, recuperação e normalidade), em vez de “sentar à sombra da bananeira” quando começam as chuvas.

Por isso, acrescentou, “a gestão da seca deve assentar na prevenção e mitigação” o que envolve “reconhecer as vulnerabilidades” locais.

O sul de Angola, que concentra a maior parte do efectivo pecuário do país (77% dos bovinos, 69% caprinos e dos 83% ovinos) enfrenta uma crescente variabilidade climática, caracterizada pela diminuição das chuvas e maior frequência de episódios de seca.

Actualmente, a seca afecta mais de um milhão de angolanos, bem como gado, devido à escassez de água e alimentos em seis províncias angolanas - Cunene, Cuando Cubango, Huíla, Namibe, Benguela e Cuanza Sul - que estão sem água e alimentos.

“Se nós quisermos aumentar a resiliência das comunidades, temos de as tornar menos vulneráveis e implementar medidas que podem ser diferentes de região para região, de comunidade para comunidade, porque os ecossistemas apresentam grande variação”, destacou o veterinário.

Adriano Gomes criticou “percepções exteriores” sobre pastores das comunidades locais, nomeadamente “que são atrasados e nada produzem”, o que não é verdade, já que têm a maior capacidade de produção possível consoante os ecossistemas locais.

“Não valorizamos estas pessoas”, lamentou, afirmando que “os camponeses e criadores pastores são vistos como um problema, e não como uma solução”.

O investigador assinalou que a atual seca “nem é muito grave” comparativamente a outras que tiveram lugar anteriormente, sustentando que se deve perceber por que estão mais vulneráveis estas comunidades.

Entre os motivos apontou questões relacionadas com a mobilidade do gado e a falta de acesso dos pastores ao território.

“A transumância é um comportamento económico racional, o pastor tem de ter acesso a um território, nós não podemos fixar o pastor”, referiu, frisando que se as comunidades não tiverem direitos de acessos ficarão “altamente vulneráveis”.

Afirmou ainda que “não há sobre-pastoreio” e sim aproveitamento ecológico das terras que, ao contrário do que dizem alguns empresários e políticos, não estão livres.

“As áreas de reserva e de pousio são vazios aparentes”, explicou.

Insistindo que “o pastoreio é mobilidade”, Adriano Gomes considerou que esta “é a forma mais exequível de exploração para situações de alta variabilidade climática”.

As VIII Jornadas Parlamentares da UNITA decorrem até sábado nas províncias da Huíla e do Cunene, com um programa alargado de palestras e visitas de campo.

Os deputados do principal partido da oposição angolana vieram até ao sul para dar mais visibilidade ao problema da seca que se vive na região e pressionar o Governo a adoptar mais medidas e declarar o estado de emergência.

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