Muito se tem dito sobre Shaka Zulu. Quando se trata de separar factos da ficção, o historiador Maxwell Zakhele Shamase é uma referência, uma vez que está a escrever um livro sobre ele, juntamente com Mthandeni Patrick Mbatha. A DW falou com ele.

DW: Porquê escrever um livro sobre Shaka Zulu?

Maxwell Shamase (MS): Há muito poucos artigos escritos sobre o Rei Shaka da perspetiva africana. E algumas das coisas escritas por não-africanos são factualmente incorretas. Queremos contar a história a partir de uma posição africana.

DW: Como descreveria o Rei Shaka?

MS: Antes do nascimento de Shaka, uma profetisa chamada Sithayi disse que iria "nascer uma criança que traria uma nova ordem e uma nova nação". Ele era um génio militar em África. Era um construtor de nações e não um assassino sedento de sangue. Ele não era um assassino impiedoso.

DW: Quando e onde nasceu Shaka?

MS: Shaka nasceu em julho de 1787 entre o povo eLangeni, de onde a sua mãe era originária.

DW: De onde vem o seu nome?

MS: Shaka Zulu era filho do Príncipe Senzangakhona e da Princesa Nandi da família real Mhlongo, que vivia em eLangeni. O nome Shaka era originário de uma doença chamada "ishaka", que provocava dor, preguiça e inchaço nos corpos das mulheres. Quando a sua mãe, que na altura não era casada, engravidou, as pessoas pensavam que ela estava com ishaka. Foi assim que Shaka recebeu este nome. Ele chamava-se Shaka kaSenzangakhona - Senzangakhona era o seu pai.

DW: Será que o pai de Shaka, Senzangakhona, aceitou a sua paternidade?

MS: Ele tentou negá-la porque tinha medo do pai, o rei Zulu. Senzangakhona era o possível herdeiro do trono e, naquele tempo engravidar uma rapariga antes do casamento era uma vergonha, que podia tirar-lhe o direito à ascensão ao trono. Mas Senzangakhona pagou o dote à família da Princesa Nandi, o que permitiu que esta se mudasse para a casa da família de Senzangakhona.

DW: A união dos dois não foi longa, tendo Senzangakhona expulsado Nandi e Shaka da sua casa. O que aconteceu?

MS: Nandi era arrogante e estava constantemente a dar ordens a todos. Por isso, a relação deles era atribulada. Como não aguentava mais, Senzangakhona expulsou-a juntamente com o filho, Shaka. Posteriormente, Nandi conheceu Ngwati, por quem se apaixonou. Os dois ficaram juntos e tiveram mais uma filha.

DW: Como é que Shaka chegou ao exército de Mthethwa?

MS: Após a morte de Ngwati, Nandi e os seus dois filhos foram levados pelo rei Mthethwa Dingiswayo. Graças à sua inteligência e coragem, não demorou muito até ser recrutado como guerreiro para se juntar ao regimento de Izicwe.

DW: Que impacto teve Shaka Zulu no exército de Mthethwa?

MS: Como comandante, Shaka impediu os guerreiros de usarem sandálias e ordenou-lhes que andassem descalços. Também substituiu o uso de lanças compridas pelas lanças curtas "Iklwa", pensadas para combater o inimigo de perto. Shaka tornou-se tão temido e conhecido noutras tribos e reinos que ganhou o nome de "Nodumehleli", que significa "aquele que quando sentado faz a terra tremer".

DW: Como é que Shaka ascendeu ao trono de Senzangakhona? Foi um ato contestado?

MS: Quando o seu pai Senzangakhona morreu, o rei Dingiswayo ajudou-o a regressar ao seu povo, dando-lhe dois guerreiros para o ajudarem a tomar o poder. Mas Senzangakhona tinha dito ao seu primeiro-ministro, Mudli, que o seu outro filho Sigujana devia ser o seu herdeiro e não Shaka. Por isso, quando chegou, Shaka matou o meio-irmão Sigujana, tendo assumido o poder como rei em 1816. Shaka integrou o povo Mthethwa no seu reino e os clãs que Dingiswayo tinha conquistado sob a sua liderança. Começou a conquistar outros clãs e a governá-los.

DW: Shaka tinha uma visão muito negativa em relação ao casamento. Há quem diga que ele poderia ser homossexual. Porquê?

MS: Esta atitude pode ser explicada com a forma como Shaka viu a sua mãe ser tratada. Ele também sofreu muito por ter sido abandonado pelo pai e ter crescido fora do seu clã. Shaka manteve relações sexuais com várias mulheres e quando elas engravidavam, ele dava as crianças ao seu irmão, Mpande, que era visto como um fraco.

DW: Será que Shaka Zulu matou realmente mulheres que engravidou, como se diz?

MS: Não. Sabemos de um incidente em que comerciantes brancos "ressuscitaram" uma mulher que tinha desmaiado devido à febre alta. Shaka e o seu povo pensavam que ela estava morta e, por isso, viram a sua reanimação como uma ressurreição. Shaka ficou curioso e quis saber se, de facto, os comerciantes conseguiam ressuscitar os mortos. Então, ordenou que uma mulher fosse morta e pediu aos comerciantes que demonstrassem o seu poder para a ressuscitar, o que, claro, não aconteceu. Contaram-nos que, a dada altura, por curiosidade, ele abriu a barriga de uma mulher grávida para ver como o bebé estava a crescer.

DW: Diz-se que Shaka matou cerca de um milhão de pessoas, muitas delas inocentes. Será verdade?

MS: Essa é uma visão ocidental e não é verdade. Lembrem-se: 50 milhões de pessoas morreram na II Guerra Mundial, além de outros milhões que morreram na I Guerra Mundial. Então, quem é pior? Shaka ou os europeus por detrás da I e da II Guerra Mundial? No entanto, a morte, neste caso, deve ser considerada no contexto dessa época. É algo a que as pessoas estavam habituadas. E ele justificava estas mortes. Por exemplo, as pessoas que se provou serem bruxas foram mortas. Nessa altura, os reis sobreviviam eliminando os seus rivais.

DW: Como é que Shaka Zulu morreu?

MS: Shaka foi morto em setembro de 1828, num golpe liderado pela sua tia, que alegou que, depois da morte da sua mãe, Shaka ficou psicótico. Shaka matou muitas pessoas sem pensar duas vezes sob o pretexto da morte da sua mãe. Matou todos os que o perseguiram na sua infância e outros por não mostrarem luto suficiente.

DW: É problemático chamar a Shaka "Napoleão negro" ou "Napoleão africano"?

MS: Ele era um génio militar africano e não um Napoleão negro. Porque não dizer que Napoleão era um Shaka branco? Ele nunca esteve na Europa e nenhum europeu lhe ensinou as coisas que ele fez em termos de guerra. Eram qualidades próprias dele.

DW: Shaka Zulu ainda é relevante hoje em dia?

MS: Ele é o ponto de união por detrás da unidade zulu. O Partido da Liberdade Inkatha, que domina o Kwazulu Natal, identifica-se com o Rei Shaka. Até hoje, os reis zulu e o povo zulu prestam homenagem ao trono do Rei Shaka.

O parecer científico sobre este artigo foi dado pelos historiadores Lily Mafela, Ph.D., professor Doulaye Konaté e professor Christopher Ogbogbo. O projeto "Raízes Africanas" é financiado pela Fundação Gerda Henkel.

por: Thuso Khumalo, rl

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