Mais de 70% das áreas naturais protegidas do continente africano foram atingidas pela guerra entre 1946 e 2010, desencadeando uma espiral de perdas junto de muitas populações dos grandes mamíferos herbívoros. As conclusões surgem numa investigação publicada na revista científica Nature.

No Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, por exemplo, mais de 90% dos grandes herbívoros – incluindo elefantes, zebras, gnus, búfalos, javalis, hipopótamos e vários antílopes –, morreram na luta de 1964-74 contra o domínio português, assim como na subsequente guerra civil.

Além dos animais mortos por balas ou bombas, a guerra também aumenta a caça furtiva. Basicamente, a lei deixa de ser aplicada, e, à medida que a pobreza aumenta, os animais são mortos para servirem de comida.

Além dos mais, a procura de marfim, peles e outros produtos acaba por disparar, para serem vendidos para comprar mais armas.

Os tempos de guerra também costumam provocar o colapso da autoridade estatal e das instituições de apoio, incluindo as responsáveis ​​pela gestão das áreas naturais protegidas de um país.

Mas há motivo para optimismo, referem Robert Pringle e Joshua Daskin, uma dupla de pesquisadores da Universidade de Princeton.

"Embora as populações de vida selvagem tenham diminuído em áreas de conflito, elas raramente colapsaram até o ponto em que a recuperação se torna impossível", disseram.

Mesmo na Gorongosa, os níveis da vida selvagem recuperaram até cerca de 80% dos níveis anteriores à guerra, graças a um esforço combinado de repovoamento que contou com o apoio das comunidades locais. Muitas delas tiveram de ser convencidas a abandonar a carne obtida através da  caça ilegal.

"O nosso estudo sugere que outros locais de grande conflito também podem, pelo menos em princípio, ser reabilitados".

Os investigadores referem, igualmente, que foram os primeiros a mostrar que a guerra tem um impacto negativo líquido sobre as populações animais, embora não tenham calculado o número de animais mortos.

No entanto, alguns estudos anteriores apontam para efeitos contrários ao que este último indica, dando conta de um potencial efeito positivo da guerra na natureza. De acordo com essas investigações, isso sucede porque as pessoas passam a evitar as zonas de combate, com a mineração e outras indústrias extractivas a diminuir a sua actividade.

Esta nova investigação reuniu dados de 253 grandes populações de herbívoros, representando 36 espécies, em 126 áreas protegidas de 19 países africanos.

Os dados sugerem que a manutenção dos esforços de conservação em tempo de guerra, aliada a uma rápida acção após o cessar-fogo, podem ajudar a salvar populações de animais em risco, concluem os dois especialistas.

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