De facto, na perspetiva evolutiva, a liderança é o resultado de um processo evolutivo por seleção natural através do qual, grupos de animais, sejam humanos, mamíferos, aves, peixes ou insetos que conseguem formar uma relação o líder-liderado eficaz, conseguem um melhor desempenho do que os grupos que não o consigam fazer, em torno de um líder.

Em síntese, isto equivale a dizer que grupos com coordenação têm mais probabilidades de obter bons resultados do que grupos sem, ou com má, coordenação.

Podemos ainda definir a liderança como o comportamento de alguém que consegue um diferencial de influência na atividade de um grupo. É por isso que os líderes têm mais influência que os liderados.

Esta capacidade diferencial de influência de alguns indivíduos nos grupos, terá reforçado os mecanismos psicológicos adaptativos que permitiram o reconhecimento e a aceitação das capacidades de comando e ter-se-ão espalhado através das futuras populações, porque a natureza premeia e fixa as estratégias adaptativas que são vencedoras.

Mas se é verdade que qualquer processo de liderança implica influência social para obter objetivos partilhados, não é menos verdade que nesse complexo processo existem dois interesses confluentes: o interesse dos liderados e do líder. A influência do líder exerce-se «de cima para baixo», mas a liderança, porque é voluntária, só é possível e só começa «de baixo para cima», ao eleger e reconhecer alguém como Líder.

Para a maioria de nós, saber se um líder é confiável tornou-se numa questão crítica de modo a evitar os abusos do poder. A forma de os liderados saberem se um líder é confiável, passa por responder, pelo menos, a cinco questões cruciais:

  1. O Líder é consistente? Ou seja, faz o que diz, e diz o que vai fazer?
  2. O Líder é transparente? Ou seja, revela as suas intenções sem ambiguidades nem agendas escondidas?
  3. O Líder escuta para compreender? Ou seja, procura compreender o que se passa, ou limita-se a ouvir para poder responder?
  4. O Líder coloca o interesse do grupo em primeiro lugar? Ou seja, revela capacidade de sacrifício para se bater e servir o grupo ou protege-se a si e serve-se dele?
  5. O Líder confia em si próprio? Isto é, tem consciência e um bom conhecimento das suas capacidades e das suas próprias limitações?

Os líderes confiáveis sabem rodear-se daqueles que o complementam, e não daqueles que lhe dizem que «sim» a tudo, e o fazem destacar-se a partir da fraqueza dos outros.

Portanto, é importante que um líder não seja o tipo de indivíduo que se «deslumbra consigo próprio», mas que tenha humildade suficiente para reconhecer as suas falhas e erros e seja o primeiro a corrigi-los e a pedir desculpa.

Os líderes confiáveis são, no fundo, aqueles que conseguem criar um ambiente em que todos os membros do grupo se sentem num círculo de confiança, porque quando as pessoas se sentem seguras, seja nos empregos, nas suas casas, ou simplesmente porque não se sentem psicologicamente ameaçadas, significa que são lideradas por alguém que consegue enviar um sinal claro de que a sua prioridade é defender e manter o grupo para que este seja coeso e se sinta seguro.

É importante que um líder não seja o tipo de indivíduo que se deslumbra consigo próprio, mas que tenha humildade suficiente para reconhecer as suas falhas e erros e seja o primeiro a corrigi-los e a pedir desculpa.

Olhando para a atualidade, é verdade que o mundo em que vivemos melhorou muito nos últimos anos, em vários indicadores demográficos, económicos, sociais e políticos. Contudo, esses mesmo indicadores escondem ainda profundas injustiças e desigualdades que deviam envergonhar a espécie humana face ao seu potencial e sobretudo as lideranças.

Talvez não saiba, mas, hoje mesmo, cerca de 800 milhões de pessoas acordaram com fome, enquanto 1,8 mil milhões de pessoas irão beber água contaminada e metade das mulheres grávidas nas regiões em desenvolvimento não irão receber cuidados de saúde adequados ao seu estado. E pode parecer incrível, mas ainda hoje quase 1,2 mil milhões de pessoas não têm eletricidade.

Com este exemplo pretendo sublinhar que é também por isso que a liderança é um tema que importa a todos nós e não uma mera curiosidade intelectual, académica ou científica.

Ainda enfrentamos uma grave falha de liderança política global que se traduz não apenas nestes números, mas que, sobretudo, vai no sentido contrário aos valores universais e básicos da humanidade, independentemente das diferenças culturais, uma vez que universalmente consideramos que a vida é melhor que a morte, a saúde é melhor que a doença, a riqueza é melhor que a pobreza, a liberdade é melhor que a opressão e a justiça é melhor que a injustiça.

Assim, e em resposta à pergunta “Ainda precisamos de Líderes?”, a resposta é: sim, precisamos de líderes que sejam confiáveis e competentes, porque grupos competentemente coordenados obtêm melhores resultados do que grupos mal coordenados, ou sem coordenação.

Sim, precisamos de líderes, porque bons líderes podem ser inspiradores e maus líderes podem desmotivar os colaboradores.

Sim, precisamos de bons líderes, porque bons líderes podem salvar vidas e maus líderes podem destruí-las.

Sim, ainda precisamos de líderes, porque os seres humanos gostam e reconhecem que precisam de ser liderados. Simplesmente não gostam é de ser dominados. O resto é...conversa!

Autor: Paulo Finuras, Ph.D., Consultor e Investigador

*Artigo publicado originalmente na edição de Setembro/Outubro 2017 da Human Capital Angola.

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