Nesse dia, um pouco por toda a Angola, milhares de pessoas foram presas, muitas desapareceram, algumas as suas mortes confirmaram-se, de outras não se sabe nada até hoje.

Kanguimbu Ananaz diz que na altura era muito jovem, mas que hoje faz uma reflexão profunda, que considera ser essencial que todos façam.

“Hoje faço uma reflexão profunda. Na altura, ainda muito jovem influenciada já pela política, não é? Mas gostava de dizer que fui torturada, tudo isto, fui indagada, e eu estava inocente, fui julgada pela comissão de inquérito da frente sul, estive com muitas pessoas algumas delas desapareceram. É uma reflexão dos homens. Nós temos que fazer uma reflexão, naquilo que é a irmandade, e aceitar a opinião divergente”.

Um ano na cadeia

“Permaneci na cadeia trezentos e noventa e um dias, o que corresponde a um ano e três dias”, esclareceu a escritora.

“Foi o General Kambulukusso, que me lembra, mandou abrir a cela e perguntou ao senhor o que eu estava a fazer”.

Kanguimbu Ananaz diz ter sido liberta sem qualquer ordem de soltura e foram os próprios agentes da segurança que a levaram para a casa dos seus pais.

Naquela altura, a escritora já fazia parte do movimento estudantil, criada numa família religiosa, filha de pai catequista, ela cresceu nas irmãs Doroteias, e em 1975 com a entrada dos movimentos de libertação de Angola, aos 15 anos já era uma pessoa activa politicamente.

Antes da intentona, lembra-se ter participado num dos encontros presididos pelo Secretário Nacional da JMPLA José Kitumba, no bairro Forte Santa Rita. Kanguimbu diz que apesar destas vicissitudes não baixou a guarda, em Luanda conseguiu formar-se e hoje continua a servir com dignidade a pátria que lhe viu nascer.

“Morreram muitos jovens do sétimo e quarto ano do liceu, é uma realidade, é uma história que ninguém pode apagar e é um passado para transformar o presente”, diz Kanguimbu Ananaz que há 43 anos viu-se envolvida nas convulsões entre Nito Alves e Agostinho Neto.

Maria Manuela Cristina Ananás, nascida no Musseque do Forte Santa Rita, na antiga cidade de Moçâmedes em 1959, é Licenciada em Psicologia, mestre em literatura de Língua Portuguesa, docente Universitária, Investigadora, Membro da União de Escritores Angolanos, igualmente orientadora de jovens e famílias envolvidas na droga em Angola.

Actualmente, no consulado do presidente Angola, João Lourenço nomeada Adida Cultural no Reino de Marrocos, comentarista da Rádio e Televisão de Angola a mais de vinte anos, autora de doze livros escritos e participação em mais de cinquenta antologias, defensora acérrima da cultura do povo Kimbari e autóctones do Namibe sobreviveu o 27 de Maio de 1977.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.