Aviso – Esta história contém imagens e relatos que podem ser considerados chocantes.

“Eu trabalhei no crematório. Levava pessoas (cadáveres) das câmaras de gás para os fornos”, diz Dario Gabbai.

O ex-prisioneiro do campo de concentração de Auschwitz descreve a tarefa de remover os cadáveres das vítimas judias das câmaras e incinerá-los.

Gabbai, agora com 98 anos, é uma das últimas testemunhas oculares da Solução Final — o plano nazista de eliminar judeus da Europa que culminou no assassinato de seis milhões de judeus.

No 75º aniversário da libertação de Auschwitz-Birkenau, esta é a história dos Sonderkommandos, prisioneiros judeus forçados a ajudar os nazistas no Holocausto.

Mortes em massa

Dario Gabbai
Dario Gabbai fala sobre suas provações em eventos em instituições dedicadas a manter viva a memória do Holocausto créditos: Getty Images

Para acelerar os assassinatos, os nazistas montaram campos de extermínio como Auschwitz-Birkenau e criaram uma unidade especial chamada Sonderkommando.

Consistia em prisioneiros judeus deportados para Auschwitz de 16 países diferentes, cujo trabalho alimentava a máquina assassina.

“É algo que nunca esquecerei. Tive sorte de sobreviver”, diz Gabbai.

Após a liberação de Auschwitz em 27 de janeiro de 1945 pelas forças soviéticas, muitos sobreviventes narraram em livros os horrores por que passaram nas mãos dos nazistas. Mas muito pouco se ouviu dos Sonderkommandos que conseguiram sobreviver.

Missão

Na década de 1980, o professor Gideon Greif, historiador estudioso do Holocausto, baseado em Israel, iniciou a longa tarefa de descobrir o mistério dos Sonderkommandos.

“Um dos meus objetivos era melhorar a imagem deles. Quando iniciei a pesquisa, eles eram considerados colaboradores e assassinos. Mas eles eram vítimas, não algozes”, disse Gideon Greif à BBC.

O proeminente sobrevivente de Auschwitz Primo Levi escreveu em Os Afogados e os Sobreviventes que a criação dos Sonderkommando foi o crime mais satânico do nazismo. Greif concorda.

“Foi uma decisão deliberada dos alemães de empregá-los. Eles também queriam que os judeus compartilhassem a culpa. Essa é uma ideia muito cruel. Eles tentaram embaçar a linha que separa criminosos e vítimas.”

Em 1993, Gideon Greif levou os israelenses que foram Sonderkommandos e seus familiares a Auschwitz-Birkenau e registrou seus testemunhos pessoais lá
Em 1993, Gideon Greif levou os israelenses que foram Sonderkommandos e seus familiares a Auschwitz-Birkenau e registrou seus testemunhos pessoais lá créditos: Gideon Greif

Procurando os mortos

Greif documentou a experiência de 31 Sonderkommandos em seu primeiro livro sobre eles, We Wept Without Tears (Choramos sem lágrimas, em tradução livre).

Os membros de um Sonderkommando eram forçados a ajudar a matar. Os SS (a polícia nazista) matavam de verdade.

Antes de se desfazerem dos cadáveres, eles ainda tinham que localizar implantes de valor, como dentes de ouro, e objetos escondidos.

Existem pouquíssimas imagens de Sonderkommandos em um contexto de trabalho em Auschwitz, mas após a liberação do campo, os soviéticos encenaram várias imagens recriando os horrores pelos quais esses judeus passaram.

Sobreviventes de Auschwitz sendo examinados por médicos soviéticos após a libertação do campo em 27 de janeiro de 1945
Sobreviventes de Auschwitz sendo examinados por médicos soviéticos após a libertação do campo em 27 de janeiro de 1945 créditos: Getty Images
Três homens participam de encenação do processo de cremação; na imagem, é possível ver um aparente corpo e fornos
Depois da libertação de Auschwitz, os soviéticos encenaram o processo de cremação com Sonderkommandos créditos: Getty Images

‘Onde Deus está?’

Gabbai tinha a tarefa específica de cortar e recolher os cabelos das mulheres assassinadas.

Décadas depois, ele revelou como se sentia em uma conversa com o representante de uma organização dos Estados Unidos que se dedica a entrevistar sobreviventes do Holocausto, a USC Shoah Foundation.

“Pensei comigo mesmo: como posso sobreviver? Onde está Deus?”, conta Gabbai.

Um polonês disse para ele “ficar forte”, conselho que Gabbai levou a sério.

“Eu disse para mim mesmo: sou um robô… feche os olhos e faça o que for necessário sem questionar muito”.

Cabelos de vítimas do Holocausto
Cabelo coletado de mulheres assassinadas em exposição no Museu de Auschwitz-Birkenau créditos: Getty Images
Itens de higiene pessoal, retirados de prisioneiros judeus
Não sabendo de seu destino, alguns judeus levaram seus pertences pessoais quando foram transportados para Auschwitz créditos: Getty Images

Punições

Gabbai não podia se dar ao luxo de desobedecer as ordens que recebia — qualquer um que fosse um pouco mais lento no trabalho ou mesmo “incompetente” era brutalmente punido.

Às vezes, os guardas da SS inspecionavam cadáveres a caminho dos incineradores. Se eles vissem um implante de ouro que os Sonderkommandos haviam deixado passar, a pessoa responsável poderia ser jogada viva nas covas abertas.

Outras medidas punitivas incluíram tiros, tortura, espancamento e eram obrigados a ficar nus sobre o cascalho.

Essas punições eram realizadas na presença de outros Sonderkommandos — o objetivo era intimidar todo o grupo.

O trabalho oferecia pouca proteção. Os nazistas costumavam matar os membros do Sonderkommando a cada seis meses e promover novos recrutas.

“Eles estavam em estado de choque constante, pois viam milhares de judeus sendo assassinados todos os dias. Foi um grande desafio permanecer vivo”, diz Greif.

Câmaras de gás

Fotos de alguns dos assassinados em Auschwitz em exibição em Cracóvia, Polônia
Fotos de alguns dos assassinados em Auschwitz em exibição em Cracóvia, Polônia créditos: Getty Images

No entanto, muitos como Gabbai não só sobreviveram, como também puderam testemunhar depois como era o verdadeiro funcionamento da fábrica da morte.

“Eles fechavam as portas. Então a SS jogava o Zyklon B (Ciclone B) de três a quatro aberturas na parte de cima (da câmara). Demorava cerca de quatro a cinco minutos para todos morrerem, exceto as pessoas na frente de onde o gás entrava. Ali era mais rápido.”

O Zyklon B foi entregue nos campos em forma de pastilhas de cristal. Assim que elas eram expostas ao ar, se transformavam em gás venenoso e começavam a matar as pessoas.

‘Misericórdia de uma morte rápida’

Um dos Sonderkommandos documentados por Greif era Ya’akov, irmão de Dario Gabbai.

Ya’akov contou que viu dois primos na câmara de gás. Ele os instruiu a se sentarem perto de onde o gás foi liberado para ter uma morte rápida e indolor. Ele disse a Greif: “Por que eles deveriam sofrer tanto?”

Greif diz que muitos que trabalhavam na unidade de Sonderkommando ficaram traumatizados para sempre.

‘Preservando a dignidade’

“Para servir a uma indústria da morte, eles precisavam ficar abolir a emoção. Isso não significa que eles não eram pessoas boas — ou más. Alguns deles me contaram o que fizeram para ajudar a manter a dignidade das vítimas judaicas”, acrescenta.

Josef Sackar foi o primeiro Sonderkommando que Greif conheceu, em 1986. Sackar era frequentemente destacado para atuar no local ondes as mulheres eram obrigadas a se despir.

“Eu desviava minha cabeça para outra direção para que elas não ficassem muito envergonhados”, disse Sackar.

Shaul Chasan contou que tinha de remover os corpos da câmara de gás e colocá-los nos elevadores que os levariam aos crematórios. Ele contou a Greif como sempre fazia um esforço para garantir que os cadáveres não fossem arrastados sobre a sujeira e detritos no chão das câmaras de gás.

‘Orando pelos mortos’

Uma judia húngara com seus familiares em Auschwitz
Os membros de Sonderkommando não tinham poder para salvar outros prisioneiros de Auschwitz créditos: Getty Images
foto clandestina mostra a cremação de corpos em vala aberta
Outra foto clandestina mostra a cremação de corpos em uma vala aberta créditos: The State Museum Auschwitz-Birkenau
Foto preta e branca mostra fornos de cremação no campo de Birkenau-Auschwitz
Geralmente, quatro a cinco corpos eram cremados juntos nos fornos de cremação em Auschwitz créditos: Getty Images

A maioria dos Sonderkommandos eram judeus ortodoxos. Greif diz que, na maior parte dos dias eles conseguiam orar as três vezes estipuladas no judaísmo.

Surpreendentemente, eles eram podiam orar juntos sempre que fromavam um grupo com o número mínimo de dez pessoas exigido por dogma religioso.

Quando os guardas do acampamento não estavam por perto, os Sonderkommandos até recitavam o Kadish — uma oração tradicionalmente feita em memória dos mortos — durante o processo de cremação.

Poços para queima

Menos de 100 Sonderkommandos, recrutados durante a deportação de judeus húngaros para Auschwitz, conseguiram sobreviver à Segunda Guerra Mundial.

O memorial do Holocausto de Israel, Yad Vashem, descreve como as mortes ocorreram após o início da deportação de judeus húngaros, em maio de 1944: “Em apenas oito semanas, cerca de 424 mil judeus foram deportados para Auschwitz-Birkenau”.

O número de mortes excedeu em muito a capacidade dos crematórios. Mas o oficial alemão encarregado dos crematórios, Otto Moll, era implacável e ordenou que os Sonderkommandos cavassem valas para a queima dos corpos.

Uma foto clandestina, tirada por um Sonderkommando, mostra claramente os corpos sendo incinerados em um poço a céu aberto.

Atos de bravura

Foto em preto e branco mostra centenas de judeus em Auschwitz-Birkenau
Em apenas oito semanas de 1944, cerca de 424 mil judeus foram enviados para Auschwitz-Birkenau créditos: Getty Images

Shlomo Dragon, um Sonderkommando, testemunhou raros atos de desafio aos nazistas e narrou um desses incidentes a Greif.

“Uma mulher se recusou a se despir completamente, e quando um agente da SS, Schillinger, apontou a arma e exigiu que ela retirasse a roupa íntima, ela tirou o sutiã, balançou-o na cara dele e depois bateu no agente, fazendo-o largar a arma. Ela então pegou a arma, mirou e atirou, matando Schillinger”, contou a Greif.

A identidade desta mulher é amplamente atribuída à dançarina polonesa Franceska Mann, que ganhou uma reputação lendária após sua morte.

Outro Sonderkommando viu um grupo de crianças polonesas nuas cantando Shema Yisrael, uma oração judaica, ao entrar na câmara de gás em perfeita disciplina.

Rebelião fracassada

Os Sonderkommandos recebiam comparativamente mais comida e melhores condições de vida do que o resto dos presos, que eram alimentados com uma sopa aquosa. Eles também podiam tirar e usar as roupas das vítimas. Greif minimiza o alcance desses “incentivos”.

Eles também eram alojados separadamente e monitorados o tempo todo. No entanto, eles conseguiram se insurgir, na chamada rebelião dos Sonderkommandos.

“Dois irmãos estavam envolvidos no planejamento da insurreição de 7 de outubro de 1944. Foi uma revolta judaica. Foi uma história de coragem que deveria ser escrita em letras douradas”, diz Greif.

Naquele dia, alguns prisioneiros de Sonderkommando atacaram os guardas da SS usando pedras e atearam fogo a um crematório. Mas a revolta foi rapidamente combatida e 451 Sonderkommandos foram mortos a tiros.

Documentando atrocidades

Outros Sonderkommandos como o grego Marcel Nadjari registraram sua raiva em pedaços de papel para cartas.

“Não estou triste por morrer, mas estou triste por não ser capaz de me vingar como gostaria”, escreveu ele em novembro de 1944.

As cinzas de cada vítima adulta pesavam cerca de 640 gramas, de acordo com suas anotações.

O grego escondeu seu manuscrito de 13 páginas em um frasco térmico, que ele selou com um plástico. Ele então colocou o recipiente em uma bolsa de couro e a enterrou.

Os escritos deixados por Nadjari e outros foram recuperados anos depois e minuciosamente decifrados. Estes são agora conhecidos como os Pergaminhos de Auschwitz e fornecem informações valiosas sobre a escala do crime.

Três imagens mostram escritos de Nadjari
As anotações de Marcel Nadjari foram descobertas apenas em 1980, nove anos após sua morte créditos: IFZ-MUENCHEN.DE

Buscando Justiça

Após a guerra, alguns Sonderkommandos enfrentaram seus antigos guardas nos tribunais.

Henryk Tauber testemunhou contra o comandante da SS Otto Moll.

“Em várias ocasiões, Moll jogou pessoas vivas nas covas em chamas”, recordou Tauber durante o julgamento por um tribunal militar americano.

Moll acabou sendo condenado e enforcado por seu papel em uma “marcha da morte”.

Já próximo da derrota final, a SS começou a evacuar o campo a partir de meados de janeiro de 1945. Perto de 60 mil presos famintos e seminus foram forçados a caminhar pela neve em temperaturas de -20° C para cidades a mais de 50 km de distância.

Aqueles que não conseguiram acompanhar o percurso foram baleados e mortos.

Criminosos nazistas

No entanto, muitos criminosos nunca foram punidos. De um total de cerca de 7 mil funcionários de Auschwitz, aproximadamente 800 enfrentaram a força da lei, de acordo com Auschwitz, uma série de documentários da BBC/PBS.

O complexo de Auschwitz-Birkenau é o local do maior assassinato em massa da história da humanidade — cerca de 1,1 milhão de pessoas foram mortas, das quais mais de 90% eram judeus. Isso é mais do que a perda sofrida pelo Reino Unido e pelos EUA em toda a guerra.

Greif estima que o número de mortos seja superior a 1,3 milhão. E insiste que a busca pela justiça não deve parar.

“Nenhum criminoso nazista alemão merece morrer na cama.”

Ele já foi a muitos tribunais europeus para testemunhar contra suspeitos de crimes nazistas.

“As tentativas da Alemanha de destruir todas as provas de seus crimes levaram a um vácuo documental, que só pode ser preenchido pelas lembranças dos sobreviventes”, diz Greif.

Testemunha solitária

Gideon Greif posa para foto sorrindo
Greif diz que sua maior conquista é mudar a percepção sobre os Sonderkommandos créditos: Gideon Greif

Ele diz que sua maior conquista é mudar a percepção sobre os Sonderkommandos.

“Ninguém se atreverá a chamá-los de colaboradores (do regime nazista) agora”, diz Greif.

A única testemunha sobrevivente dos Sonderkommandos, Gabbai vive em Los Angeles e está com a saúde debilitada demais para falar. Cinco anos atrás, durante um evento para marcar o 70º aniversário da libertação de Auschwitz, ele falou à BBC.

“Eu disse (a mim mesmo) que esta guerra iria terminar um dia e quando terminasse, eu poderia sobreviver e contar as histórias para o mundo”.

Gabbai with Spielberg
Steven Spielberg, diretor do filme 'A lista de Schindler', sobre o Holocausto, posa para foto ao lado de Dario Gabbai créditos: Getty Images

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!

https://www.youtube.com/watch?v=q0ULzaJtuec

https://www.youtube.com/watch?v=wVYYtQcXdyM

https://www.youtube.com/watch?v=Er5Axy0l64s

Escrito por: Swaminathan Natarajan - Serviço mundial da BBC

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.
Os textos do parceiro BBC News estão escritos total ou parcialmente em português do Brasil.