Se antigamente só boas músicas, filmes, videoclipes e histórias de gargalhar marcavam o cenário vivido no interior do famoso “azul e branco”, vulgarmente também denominado “Quadradinho”, “Jinbei” ou “Acaba de me Matar”, nos dias de hoje e a qualquer hora, são cada vez mais frequentes os relatos de cidadãos que vêem a sua vida em perigo e os seus pertences em mãos alheias.

Benfica, Centralidade do Kilamba, Rocha Pinto e Via Expressa são algumas das zonas mais apontadas pelas vítimas. Mas foi num ponto em Talatona que, em exclusivo ao SAPO, estes citadinos descreveram o mau momento que nem o passar dos dias apaga.

“A minha situação aconteceu no Benfica, no dia 5 de Janeiro deste ano, por volta das 18 horas e lembro-me como se fosse hoje. Os assaltantes chegaram com vários tipos de arma branca, entre elas catanas, facas, pedras e até enxadas, lotaram a viatura e obrigaram-nos a dar todas as pastas e telemóveis. Eram muitos, tive tanto medo que eu só queria que aquela situação terminasse pois a única coisa que me passava pela cabeça era com quem ficaria a minha filha caso um deles me tirasse a vida”, relembrou com tristeza a jovem Márcia Quitumba, de 30 anos.

Já Feliciana António, que revelou carregar hoje em dia um grande ódio de todos os assaltantes, pediu um café, baixou a cabeça e descreveu o pavor por que passou.

“Eu apanhei o táxi no Kilamba em direcção ao Benfica mas foi na zona da autoestrada que fomos surpreendidos com o tenebroso anúncio do assalto. Éramos três passageiros, disseram-nos para colaborar e não fazer qualquer barulho ou movimento estranho, levaram-nos para um matagal e tiraram-me a aliança do dedo, roubaram o meu telemóvel e obrigaram os outros dois passageiros a fazerem pagamentos com o cartão multibanco num TPA (Terminal de Pagamento Automático) que já vinha com eles. Só me lembro do grande medo de um potencial estupro, pedi várias vezes ao motorista para não nos abandonar naquele local mas percebi que ele também era da combina. Parecia um verdadeiro filme de terror”, admitiu.

Se há quem ainda pense que casos como este só acontecem ao cair da noite ou mesmo durante a madrugada, o próximo relato, banhado pelo sol ardente das 12 horas, vem provar o contrário.

“Eu vinha do Aeroporto, o táxi ficou completamente lotado com a subida de dois passageiros na conhecida ‘paragem do gindungo’. Foi a partir daí que os meliantes entraram em cena. Um deles ficou no banco da frente e outro no banco de trás, revelaram as armas do tipo AK-47 (cano cortado) e de repente fez-se silêncio. Ninguém falou nada”.

Segundo a nossa entrevistada - que preferiu manter o anonimato - os assaltantes levaram todos os pertences e, sob ameaça de morte, obrigaram os passageiros a abandonarem a viatura na zona da Gamek.

“Cerca de 60 mil kwanzas e dois telemóveis topo de gama foi o que eles levaram ao todo, mas nada foi mais difícil do que lidar com o pânico que deixaram”, continuou a mesma fonte, vítima de assalto num candongueiro em finais de Janeiro, no percurso Aeroporto - Rocha Pinto.

O mais trágico de todos os relatos que o SAPO pôde recolher aconteceu a 4 de Fevereiro de 2018 e revela uma situação de agressão física muito perto de um estupro e um drama que todos os dias a vítima (cujo nome preferimos não revelar) tenta esquecer.

“Foi por volta das 19 horas e 30 minutos, num dia de feriado nacional em que as paragens estavam quase vazias. Ouvi o som ‘Kilamba Kilamba’ e achei que era finalmente o meu motivo de descanso mas afinal foi só princípio de um dos piores momentos da minha vida. Subi no carro e o senhor por várias vezes tentava desenvolver uma conversa comigo. Cautelosa como sou, menti por segurança, até que chegou o momento em que a conversa estava mesmo a ser abusiva. O senhor contrariava tudo o que eu dizia e proferia ofensas sem quaisquer razões, o que me levou a acreditar que este poderia estar sob efeito do álcool”.

A luandense relata, ainda assustada, que o condutor negou-se a parar a viatura e levou-a forçadamente até a uma área antes da entrada do patriota e bateu-a imensas vezes, puxando o cabelo.

“Recebeu o meu telemóvel, 45 mil kwanzas e obrigou-me a baixar as calças até ao joelho em tom de muita agressividade. Por fim, abriu a porta do meu lado e disse: ‘sai do meu carro agora, vou matar-te aí fora!’. Tanto implorei e pedi protecção a Deus que o homem arrancou o carro e foi-se embora”, contou a vítima que revelou ter desistido da intenção de o denunciar devido ao excesso de burocracia e longo tempo de espera na acção da polícia.

Na tentativa de obter uma “leitura psicológica” de um indivíduo submetido a um cenário traumático como este (de assalto, por vezes violento) que constantemente acontece a todos os géneros, o SAPO esteve também à conversa com Jandira Miranda, Psicoterapeuta Comportamental, que destacou:

“Quem passa por uma situação muito traumática (como um assalto) e desenvolve o transtorno de stress pós trauma (realçar que nem todas as pessoas vivenciam as situações com a mesma intensidade) costuma relatar que, ao recordar-se do ocorrido por algum motivo, seja qual for, sente como se estivesse a reviver o momento”, disse.

Ainda durante a conversa, a profissional acrescentou: “As dores e o sofrimento vivenciados voltam à tona como na primeira vez, desencadeando alterações neurofisiológicas e mentais, como por exemplo episódios de pânico com sintomas psicossomáticos (coração acelerado, alteração constante da temperatura corporal, dores de cabeça e intestinais não justificadas por doenças físicas) , distúrbio de sono, sentimentos de impotência e incapacidade em proteger-se do perigo, perda de esperança em relação ao futuro e sensação de vazio”, finalizou.

De relembrar que “Candongueiro” é o nome popular dado aos veículos de transporte de passageiros em Angola. Estes são geralmente vans (hiace) pintadas de azul e branco.

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