“As pessoas cegas têm seus outros sentidos aguçados? O que veem em seus sonhos? Pessoas cegas podem trabalhar?”

Essas são algumas das perguntas feitas na internet sobre a vida de pessoas com deficiências visuais. As questões foram compiladas pela série de vídeos do site da BBC Pergunte-me o que quiser, que leva algumas das perguntas mais pesquisadas online para as pessoas mais capacitadas para respondê-las.

A BBC entrevistou três pessoas com variados graus de problemas visuais: Lucy Edwards, que é totalmente cega, Simon Brown e Amir Patel, que têm “severa dificuldade de visão”. Eles responderam as seguintes perguntas:

Pessoas cegas podem trabalhar?

Sim, claro.

Edwards tem seu próprio canal no YouTube, no qual conta sua rotina e ensina maquiagem.

Patel hoje se descreve como consultor em diversidade e acessibilidade, dá palestras, escreve livros e é ativista pelos direitos de pessoas com deficiência.

Brown trabalha em uma organização britânica que atende veteranos de guerra que também tenham sofrido perda de visão.

Cegos ligam para a aparência?

“Sim, sim, sim, sim, sim!”, diz Edwards, que escreveu um guia de beleza, em inglês, para cegos. “Só porque não podemos nos ver no espelho não quer dizer que não queremos estar bonitos e nos sentirmos bem”, diz ela. “Sou doida por maquiagem, isso faz parte de mim. Só porque fiquei cega não quer dizer que perdi contato com quem eu sou.”

Amir Patel
'Eu adoro fazer compras, então conto com os vendedores e as pessoas nas lojas para descreverem as roupas para mim', diz Amir Patel créditos: BBC

Também é a opinião de Patel. “Sim, sem dúvida. Eu adoro fazer compras, então conto com os vendedores e as pessoas nas lojas para descreverem as roupas para mim”, diz ele. “Eu tenho muito orgulho da minha aparência.”

Você sempre foi cego?

Brown perdeu a visão em 2006, no Iraque, como combatente pelo Exército britânico. Brown foi baleado na cabeça por um franco-atirador, e a bala rompeu os nervos óticos do seu olho esquerdo. O olho direito também foi afetado.

Edwards perdeu a visão ainda na infância. Durante um check-up, quando tinha oito anos, o médico a encaminhou direto ao hospital, dizendo que “havia algo errado no fundo dos seus olhos”. Aos 11, ela perdeu a visão do olho esquerdo e aos 17, a do direito. Hoje vê apenas um pouquinho de luz.

Para Patel, tudo mudou aos 33 anos, repentinamente, por conta de uma hemorragia nos vasos sanguíneos dos olhos. “Acordei com dor no olho e 36 horas depois, estava cego”, ele contou em entrevistas prévias.

Lucy Edwards é cega desde a infância
Lucy Edwards é cega desde a infância créditos: BBC

As pessoas cegas têm seus outros sentidos aguçados?

“Entendo por que as pessoas acham que temos ouvidos supersônicos, mas não, quem me dera!”, brinca Edwards.

“Nenhum sentido pode melhorar, você só aprende a ficar mais alerta aos outros que ainda tem”, diz Brown.

“Aprendi a ficar mais atento à minha audição, presto mais atenção ao que preciso escutar. O mesmo vale para o toque”, diz Patel.

O que as pessoas cegas ‘veem’ em seus sonhos?

“Eu, pessoalmente, não vejo nada, só tenho pensamentos quando sonho”, diz Edwards.

Já Patel tem “sonhos muito vívidos”. “Perdi a visão do nada, acordei sem ver. Jantei com a minha mulher, fui dormir e, quando acordei, estava cego. Então me apeguei a essa memória. Vejo minha mulher e eu jantando com frequência.”

Simon Brown
Simon Brown perdeu a vista ao levar um tiro de sniper na cabeça enquanto servia o Exército britânico no Iraque créditos: BBC

Todas as pessoas cegas têm cães-guias? Como os cães sabem para onde ir?

Não todas, dizem eles.

“Se a minha cachorra não conhece um lugar, não vai saber chegar lá. Cães-guias aprendem a fazer caminhos específicos”, diz Patel. “Eles são capazes de driblar obstáculos, como postes, lixeiras, pessoas nas ruas. E eles aguardam direções, como ‘direita’, ‘esquerda’ e ‘atravesse a rua'”, explica ele.

Se vir uma pessoa cega na rua, devo ajudá-la?

“Se vemos alguém na rua passando dificuldade, mesmo que não seja cega, acho que temos obrigação de ver se ela quer ajuda”, diz Brown.

“Às vezes acontece de eu estar atravessando a rua e ser levada pelas pessoas”, diz Edwards.

“Um bom jeito de chamar a atenção da pessoa cega é tocar a parte de cima do seu braço com a parte de cima da mão, assim você não é agressivo com ela. Se apresente e pergunte se precisa de ajuda. E é sempre bom lembrar: não se ofenda se a pessoa disser ‘não'”, diz Brown.

“Nunca se sabe, aqueles dois minutinhos da sua vida podem fazer uma diferença enorme para uma pessoa como eu”, diz Patel.

Que pergunta você gostaria que as pessoas te fizessem?

Para Patel, é “como eu ajudo alguém que não vê?”. “Essa é a pergunta que tornaria a minha vida muito mais fácil”, diz ele.

“Não tenha vergonha de perguntar ‘o que aconteceu?’, ‘como é ser cego?’. Tem tantas coisas que eu responderia tranquilamente se as pessoas perguntassem”, diz Brown.

Para Lucy Edwards, seria legal se as pessoas falassem com ela, além de com seu cão-guia. “Se as pessoas dissessem ‘olá, Lucy, tudo bem?’ isso me deixaria feliz”, diz ela.


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