O Presidente do Zimbabué, Emmerson Mnangagwa, confirmou esta quinta-feira (30.07) que o ministro da Agricultura Perrance Shiri morreu de Covid-19. Trata-se do mais alto funcionário do Governo zimbabuano a morrer pela doença provocada pelo novo coronavírus, que infetou quase 2,3 mil pessoas no país.

Shiri faleceu aos 65 anos na quarta-feira (29.07), mas a família levantou a hipótese de a morte ter ocorrido por outros motivos. Mnangagwa fez a declaração na residência do general reformado, que foi comandante da Força Aérea do país.

"Agora confirma-se que o ministro Shiri morreu de Covid 19. Nós seguiremos as orientações da Organização Mundial de Saúde sobre a forma como o funeral deverá ser realizado amanhã no Acre dos Heróis Nacionais para descansar como nosso herói", disse Mnangagwa.

Shiri está entre as personalidades da União Nacional Africana do Zimbabué – Frente Patriótica (Zanu-PF) que ajudou a depor o presidente Robert Mugabe numa intervenção militar em novembro de 2017.

"Era um verdadeiro patriota, que dedicou a sua vida à libertação, à independência e a serviço do seu país", disse o Presidente em comunicado.

"Celebração" nas redes

Alguns usuários das redes sociais zimbabuanos celebraram a morte de Shiri. E haveria uma razão forte para tanto ressentimento. Na década de 1980, o militar liderou uma unidade especial do Exército zimbabuano cujo efetivo fora treinado na Coreia do Norte.

Segundo organizações de direitos humanos, a chamada 5ª Brigada teria sido responsável direta pelo massacre de 20 mil civis na região oeste do Zimbabué ocidental. Alegadamente, o Governo pretendia reprimir uma insurreição entre 1982 e 1987. O episódio teve como alvo principalmente integrantes da etnia Ndebele.

Segundo análise do Comité dos Advogados para os Direitos Humanos no relatório "Wages of War", publicado em 1986, "este período foi o mais sombrio da (…) história do Zimbabué. Caracterizou-se pelos abusos mais graves dos direitos humanos desde o fim da guerra civil, incluindo de longe o maior número de execuções sumárias de civis".

O texto destaca que a 5ª Brigada foi empregada na região ndebele após uma "série de ataques a autocarros, comboios e depósitos em zonas rurais, que teriam causado a morte de 14 pessoas". Após alguns dias de atividade, relatos de abusos massivos e extrema violência foram compartilhados pelas agências de cooperação internacional.

"Perrence Shiri chamava a si mesmo de 'Jesus Negro' porque ele tinha o poder de decidir se você vieveria ou morreria", escreve um usuário do Twitter.

Em outra mensagem, uma usuária explica a indignação de alguns zimbabuanos com a trajetória do ex-ministro. "Àqueles que estão a dizer que estamos a ser insensíveis, vocês já tiraram um tempo para ouvir estas histórias da Gukuranhundi?".

Gukuranhundi foi uma das ações militares mais controversas da época em que Robert Mugabe foi primeiro-ministro. Em março de 2019, o brigadeiro-general Emile Munemo, outro antigo comandante da 5ª Brigada na época da operação, também faleceu em Harare. Os responsáveis pelo massacre nunca foram responsabilizados pelos alegados crimes.

por: AFP, mp

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