O clínico lusófono escolheu estes cenários para exercer medicina e em cada país que trabalha o padrão de doenças e de problemas de saúde pública que encontra é “único”.

“Aliado à troca de experiências com profissionais de outros países, isso torna-nos médicos com capacidade de trabalhar em qualquer situação no planeta”, afirmou em entrevista à agência Lusa, a partir do Iémen.

A pandemia de covid-19 e a crise social e económica ameaçam tirar do mapa o Iémen, mas é lá que Jeremias Domingos combate em várias frentes, a convite da Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Além das epidemias, agora tenho também a capacidade de trabalhar em zonas de conflito armado e desastres naturais, uma vez que já enfrentei dois ciclones desde que cheguei ao Iémen, além de situações de conflito ativo com armas pesadas na cidade onde estou baseado [Aden]”, relatou.

O pontapé de saída para este médico de 39 anos começou em 2011, durante uma visita de intercâmbio nos Estados Unidos através do “International Visitors Leadership Program”.

“Fui nomeado para o programa pelo Departamento de Estado do Governo dos Estados Unidos devido ao trabalho que desempenhei durante a investigação e controlo do surto de febre tifoide no distrito de Tsangano, na província moçambicana de Tete, entre 2009 e 2011”, contou.

Na altura, o Centro de Prevenção e Controlo de doenças (CDC), nos Estados Unidos, precisava de consultores epidemiologistas de campo para o combate da poliomielite que estava então muito ativa em África, incluindo Angola.

“Como existiam poucos médicos lusófonos disponíveis, eles convidaram-me para fazer parte do programa com uma missão em Angola. Eu aceitei imediatamente, uma vez que seria a minha primeira experiência num país lusófono fora de Moçambique, e com uma doença na qual nunca tinha tido trabalhado, a não ser em vigilância epidemiológica e campanhas de vacinação”, descreveu.

Na sequência do trabalho desenvolvido em Angola, a OMS convidou o médico a ir trabalhar no combate ao Ébola na Libéria.

Terminado o mestrado em saúde internacional na Holanda, o clínico aceitou este desafio, consciente de que “a única forma de evitar que o surto se alastrasse para os outros países era combatê-lo na linha da frente”.

“O convite da OMS veio mesmo a calhar e nem pensei duas vezes antes de aceitar”.

Jeremias Domingos sabia que a situação na Libéria era caótica, mas apercebeu-se de que era “pior” do que imaginara assim que lá chegou.

“Encontrei cadáveres nas ruas, porque os cemitérios estavam cheios, corpos a serem cremados, população em pânico, e números de casos que parecia impossível de controlar", com mais de 100 cases confirmados por dia, relatou.

“Para a minha surpresa, a OMS da Libéria colocou-me como coordenador de campo, além de epidemiologista. Parecia uma responsabilidade enorme coordenar um condado inteiro numa situação dessas”, recordou.

Questionado sobre o medo que se sente neste tipo de cenários, o médico adianta que o maior é da situação de caos se prolongar por muito tempo, que as pessoas fiquem exaustas e mais mortes ocorram.

“Também receamos contrair a doença, enquanto trabalhadores na linha da frente”, reconheceu.

Nesta batalha contra o Ébola, a maior vitória foi “a declaração do fim do surto" num tempo que considerou curto (dois anos), "sem vacinas e nem medicamentos experimentais na altura e quando muita gente esperava que a doença se tornasse endémica e sem solução”.

O passo seguinte deste clínico foi “a maior crise humanitária do mundo”: O Iémen.

“O Iémen foi também um convite da OMS quando eu me encontrava a trabalhar na direção regional de Saúde em Brazzaville, no Congo. Devido à situação humanitária neste país, aceitei imediatamente”.

Neste país, Jeremias Domingos está a coordenar o programa de emergências da OMS na área controlada pelo Governo legítimo.

“O trabalho tem sido desafiante devido ao conflito armado, que não nos permite aceder a certas áreas sem negociações prévias com ambas as partes. Além disso, há uma grande sobrecarga no sistema de saúde, que é frágil, devido às epidemias, malnutrição, desastres e conflitos”, comentou.

O moçambicano ainda não sabe qual será a sua próxima paragem. Mas está consciente de que passará por “ajudar” e “em qualquer lugar do mundo”.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 339 mil mortos e infetou mais de 5,2 milhões de pessoas em 196 países e territórios.

Mais de dois milhões de doentes foram considerados curados.

SMM // JH

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