Sementes, plantas, bagas, raízes, cascas, ervas. Quem nunca ouviu falar de uma receita mágica para uma dor de barriga? Uma pomada ou um chá para tratar um problema de saúde mais delicado? Em África, o segredo da medicina tradicional continua a passar de geração em geração, após milhares de anos, continuando a resolver os problemas das populações e surpreendendo os cientistas que apostam cada vez mais no seu estudo.

Há cerca de meio século, Rosa, uma cabo-verdiana da ilha de São Nicolau, testemunhou algo que a fez passar a acreditar nos benefícios da medicina natural.

Na época as comunidades viviam mais isoladas, nos vales e no sopé das montanhas.

Havia poucos médicos com que podiam contar. Certo dia, o tio apareceu com uma perna inchada. Deixou de poder andar. Durante semanas, seguiu as indicações do farmacêutico e engoliu todos os comprimidos que este lhe vendeu. Mas a perna não parava de inchar, acabando mesmo por levá-lo à cama.

A solução foi mandar chamar Nhô Zé Eugénio, curandeiro da Fajã, a poucos quilómetros a norte. Homem de fama na terra por ter "muita fé", Nhô Zé Eugénio deslocava-se de mula pela ilha, visitando os pacientes depois de cair a noite. De dia nunca era visto.

Era conhecido por curar olhos inchados e lacrimejantes, com ervas, meia dúzia de rezas e uma esmola de 3 escudos na caixa da igreja da Vila. Homem santo - dizia-se, chegou mesmo a curar mulas e outras alimárias.

Uma vez por semana, às sextas-feiras, descia até à Vila. Nessa noite, observou bem a perna entumescida do paciente, escutou as suas dores e mandou de imediato que lhe fossem buscar um pouco de cana-de-carriço verde, palha-teixeira, alecrim, arruda, contra-erva e enxofre.

Pediu que colocassem tudo numa panela a ferver; trouxeram-lhe uma bacia de água quente e, enquanto untava bem a perna doente com a pasta de ervas, iniciou algumas rezas. Depois, fez-lhe uma ligadura com um pedaço de lençol e saiu pela noite.

No dia seguinte, quando ele regressou, o doente sentia-se muito melhor. Tinha apenas uma impressão húmida na perna, confessou-lhe.  Nhô Zé Eugénio tornou a lavar a perna. Rosa seguia tudo com atenção, mas o curandeiro mandou-a sair do quarto. Minutos depois, ela viu-o sair com o pano da ligadura enrolado na mão. Disse para Rosa, Vai lá atrás da casa, cava um buraco bem fundo e enterra este pano, mas não o abras, entendeste?

Rosa assim fez. Mas, no momento em que colocava o pano na terra abriu-o com a ponta da enxada, e viu dezenas, centenas de larvas amarelas, pequenas, grandes, numa pasta fétida escura.

Apesar de fazer parte da vida de milhões de pessoas, a medicina africana tradicional, especialmente na zona dos trópicos, ainda é mal conhecida e pouco documentada, para além dos próprios curandeiros. Ao contrário das suas congéneres europeia e asiática, existem poucos estudos e análises científicas destas "mesinhas", ervas e plantas com resultados extraordinários na cura de várias doenças humanas.

Muitas são as plantas utilizadas diariamente com efeitos eficazes no tratamento de hepatites, cirroses, infecções bacterianas, infecções renais, pulmonares, etc. Desde a famosa e multifuncional babosa (Aloa Vera: o conquistador Alexandre o Grande conhecia os poderes cicatrizantes da babosa e tinha sempre plantas suficientes para curar os ferimentos dos seus soldados após as batalhas), à figueira-do-inferno, à ameixoeira-africana, munjibe-ndende (nome angolano em kimbandu: diminui os problemas miccionais associados ao edenoma benigno da próstata), passando pelos raminhos verdes da arruda, do alecrim, aliados às forças protectoras, sejam elas dos santos católicos ou de ilustres antepassados tribais.

No último campeonato mundial de futebol, disputado na África do Sul, a imprensa chegou a falar do uso, por parte de alguns jogadores africanos, de uma planta mais potente do que o viagra, como estimulante.

A "bangalala" não é vendida nas farmácias e, segundo especialistas, é muito difícil de ser detectada pelo controlo anti-dopping. De acordo com um estudo realizado em 12 países africanos, mais de 30%
dos atletas utilizam a conhecida planta na África do Sul como "muti", medicina tradicional do país.

Nas últimas décadas, milhões de pessoas em África (especialmente em Angola e Moçambique) deslocaram-se do campo para as cidades, na sequência de guerras civis, trazendo consigo alguns destes segredos da medicina tradicional africana. A juntar a este fenómeno demográfico, estão as dificuldades económicas, que tornam uma visita ao médico num luxo ao alcance de muito poucos.

Nas províncias, as grandes distâncias percorridas para se chegar ao posto de saúde mais próximo tornam a actividade dos curandeiros o único recurso das pessoas quando são atingidas por qualquer doença.

Mas o factor cultural também pesa na escolha do tratamento a seguir quando a doença ataca. Muitas pessoas ainda crêm mais na eficácia de uma medicina já conhecida desde os avós e bisavós, e na maior dos casos com provas de cura transmitidas de geração em geração.

Apesar dos avanços mundiais na Medicina e do número crescente de médicos nos países africanos, o espaço da medicina tradicional nas sociedades não foi abalado, antes pelo contrário.

Na maior parte dos países, em especial na zonas rurais, as pessoas tendem em recorrer em primeiro lugar à medicina tradicional e só depois, quando o problema se agrava, ir a um hospital. As doenças também têm uma componente social.

Finalmente, no plano científico, notícias recentes vêm confirmar o potencial ainda desconhecido das plantas da farmacopeia africana. Investigadores da Universidade Norueguesa de Ciências da Vida revelaram que plantas usadas na medicina tradicional africana podem combater o parasita da malária, bem como os mosquitos que espalham a doença.

Muitos anos depois da cura da perna do tio, pelo curandeiro das ilhas, e apesar dos medicamentos disponíveis nas farmácias, a dona Rosa não hesita ainda em tratar os netos com papeira embebendo uma folha de couve ou de lírio em azeite quente, aplicando depois sobre a zona do pescoço e apertar com um lenço, tal como lhe ensinou um dia o velho Zé Eugénio, curandeiro da Fajã.

Joaquim Arena@

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