O marido de uma mulher australiana que desapareceu misteriosamente há 36 anos, em 1982, foi preso nesta quarta-feira após um podcast com mais de 20 milhões de downloads reacender o interesse pelo caso e levar a polícia a reabrir as investigações.

Lynette Dawson tinha 33 anos, era mãe de duas crianças pequenas e morava em Sidney, na Austrália, quando sumiu sem deixar rastros. As investigações policiais da época sugeriram que ela poderia ter sido morta pelo marido, Chris Dawson, que sempre negou qualquer envolvimento no crime.

Os promotores afirmaram, na época, que não havia provas suficientes para que ele fosse denunciado. Nenhum corpo foi encontrado durante todos esses anos, e Chris Dawson afirmou que a mulher possivelmente deixara a família voluntariamente, talvez para seguir algum grupo religioso.

No entanto, 36 anos depois, o podcast The Teacher’s Pet (Expressão que significa “aluno favorito do professor”), do site de notícias australiano The Australian, gerou interesse mundial pelo caso.

Chris Dawson, hoje com 70 anos, foi preso no estado australiano de Queensland. As autoridades policiais disseram que ele vai ser denunciado por assassinato.

O Podcast

Em 14 episódios – que contabilizavam 18,4 milhões de downloads até o início de setembro –, o podcast narra a história de Lyn Dawson e traz detalhes do caso extraconjugal que Chris teve com uma aluna de 16 anos na época do desaparecimento da mulher, além do depoimento de testemunhas que não haviam sido ouvidas pela polícia.

Chris Dawson
Chris Dawson, hoje com 70 anos, foi preso no estado australiano de Queensland. As autoridades policiais disseram que ele vai denunciado por assassinato créditos: NSW Police

O marido de Lyn, que no passado tinha sido jogador profissional de rúgbi, dava aulas de educação física em 1982. Segundo o podcast, sua amante de 16 anos se mudou para a casa onde ele morava com a mulher pouco depois do desaparecimento.

O autor da série de reportagens em áudio é o jornalista Hedley Thomas, que passou seis meses investigando o caso e entrevistando pessoas envolvidas. Com o sucesso do podcast, suspeitas voltaram a pairar sobre Chris, e a polícia decidiu reabrir o caso.

Os investigadores refizeram buscas na casa onde ele morava com a esposa e, depois, com a namorada de 16 anos, no bairro de Bayview, no subúrbio de Sidney.

“Trata-se de conseguir justiça para Lyn”, disse o detetive Scott Cook.

Os peritos escavaram uma área mais extensa do quintal da casa do que a vasculhada na época do desparecimento e usar tecnologias que não existiam nas décadas de 1980 e 1990. Eles seguiram a suspeita de que Lyn teria sido assassinada do jardim de casa, perto da piscina.

De acordo com Scott Cook, investigações anteriores encontraram “anomalias” no terreno, que foram reavaliadas com equipamentos modernos de identificação de evidências. Mas o corpo de mulher não foi encontrado.

“Nós não vamos desistir das buscas por Lynette Dawson, mas, na nossa opinião, isso (encontrar o corpo) não é crucial para resolver a questão (da autoria do assassinato)”, disse Cook.

Lynette Dawson

O podcast sobre o sumiço de Lyn mostrou falhas na condução das investigações, como o fato de o caso só ter sido considerado como possível assassinato anos depois do desaparecimento da australiana
créditos: SUPPLIED

O dia do sumiço

A versão de Chris Dawson para o sábado, dia 9 de janeiro de 1982, quando Lyn foi vista pela última vez, é a de que sua mulher fora ao shopping pela manhã e tinha combinado de encontrar com ele, as filhas, Shanelle e Sherryn, e a mãe dela, Helena Simms, mais tarde no Northbridge Baths, um centro aquático onde Chris trabalhava aos finais de semana.

Ele afirma que, naquele mesmo dia, recebeu um telefonema de Lyn dizendo que ela precisava de um tempo longe de todos. A família nunca mais teve notícias da mulher.

Dois dias após o desaparecimento, Joanne Curtis, a adolescente de 16 anos que tinha um caso com Chris, se mudou para a casa que ele antes dividia com Lyn e as filhas.

Chris só reportou o desparecimento da esposa à polícia cinco semanas depois. E a polícia só passou a encarar o caso como um possível assassinato oito anos depois, quando obteve informações adicionais de Joanne Curtis, que naquela época já havia se separado de Chris.

O romance dela com o professor de educação física começou mais de um ano antes de Lyn sumir. Mas quando a jovem e Chris passaram a morar juntos, o relacionamento começou a se deteriorar. De acordo com informações do podcast, Joanne disse ter sido transformada em Lyn, ao explicar que a “crueldade e possessão” de Chris passaram a ser direcionados a ela.

Antes de iniciar o relacionamento com Joanne, Chris teria tido relações sexuais com outras alunas, conforme o podcast.

Outras investigações

A primeira investigação sobre o possível homicídio de Lyn não deu em nada, e o caso foi engavetado. Após o lobby de uma amiga da australiana, Sue Strath, uma nova investigação foi iniciada em 1998, terminando com dois inquéritos – um feito em 2001 e o outro, em 2003.

Nos dois, Chris é apontado como suspeito. Mas os promotores acharam que não havia provas suficientes para que fosse denunciado.

Em 2015, a polícia organizou uma força-tarefa para voltar a investigar o caso do sumiço de Lyn. O podcast lançado pelo The Australian traz os detalhes de todas essas investigações e revela falhas na condução do caso, o que acabou provocando um pedido de desculpas por parte das autoridades policiais e novas buscas na casa onde o casal morava.

“Eu descobri novas evidências nessa investigação para o podcast e isso me ajudou a encontrar indícios que passaram despercebidos pela polícia”, disse o autor do podcast em entrevista ao The Australian.

“Algumas testemunhas-chave que nunca tinham falado com a polícia revelaram fatos importantes”, acrescentou Hedley Thomas.

Os textos do parceiro BBC News estão escritos total ou parcialmente em português do Brasil.