(Por Marcela Ganga e Vissolela Cunha)

Maus tratos, solidão, angústia e baixa estima são alguns dos sinais do "calvário" daqueles que, por dezenas de anos, alimentaram o sonho da velhice tranquila.

Os idosos passam por verdadeiro drama, muitos deles sem afecto, apoio e acompanhamento dos familiares, por quem um dia juraram dar a vida.

Este cenário regista-se nos lares de acolhimento, onde, diariamente, dezenas de idosos são "flagrados" com olhares melancólicos, denotando falta de esperança e tendência suicida.

A mesma realidade vive-se nas ruas e no principal núcleo de preservação de valores morais: a família, onde a figura do idoso começa a estar cada vez mais ofuscada.

Os velhos tornaram-se "fardo pesado" para muitas famílias no país, que tudo fazem para se verem livres dos seus antigos "heróis", a qualquer custo.

Apesar de ser um grupo com necessidades especiais, fundamentalmente pelo estado físico e mental debilitado, os velhos continuam relegados para plano inferior.

A situação preocupa a sociedade e o "grito de socorro" dos idosos já é quase generalizado.

Para minimizar o problema, o Governo criou 17 lares de terceira idade, em várias províncias do país, que controlam, até ao momento, mais de 900 idosos.

O Moxico é a província com o maior número de lares de acolhimento (quatro), seguindo-se o Huambo (três), Cuanza Sul (dois) e Luanda, Huíla, Bié, Benguela, Cuando Cubango, Lunda Sul, Namibe e Uíge (com uma instituição cada).

No mesmo sentido, o Executivo fez aprovar a Lei da Pessoa Idosa, que vela pelos velhos desprovidos de atenção familiar, em situação de abandono e isolamento.

Para acudir esse grupo social, o Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher tem realizado um projecto de apoio aos idosos nas comunidades e nos lares, iniciativa que consiste na atribuição de cesta básica.

Outra iniciativa do Governo, em prol dos idosos, é o Jango de Valores, criado para sensibilizar as famílias angolanas sobre a necessidade de proteger os velhos da terceira idade, que celebram, a 30 de Novembro, o Dia Nacional da Pessoa Idosa.

Trata-se de uma efeméride instituída em 2005, por Decreto do Conselho de Ministros, publicado no Diário da República Nº 4, para refletir sobre a realidade dos idosos.

Apesar das medidas, em Angola os idosos continuam a queixar-se de desrespeito.

No lar de acolhimento do Beiral, por exemplo, 103 velhos vivem dias difíceis e denunciam haver ofensas verbais e maus-tratos por parte dos vigilantes.

Segundo os idosos desse centro de acolhimento, "os dias são ainda mais negros para as pessoas com limitações físicas, mentais e oftalmológicas, que necessitam de cuidados especiais, até para urinar e defecar".

De acordo com relatos dos idosos, que falaram à ANGOP no quadro do Dia Nacional da Pessoa Idosa (30 de Novembro), o reduzido número de funcionários condiciona a prestação de serviços, incluindo a lavagem regular das roupas.

Naquele lar, contam, as pessoas da terceira idade "chegam a lavar as próprias roupas".

Velho Jeremias, 72 anos, é um dos que não passa pelo sacrifício de lavar a roupa, mas sublinha, ainda assim, que a vida no Beiral é dura.

Portador de deficiência visual (a doença surgiu, de forma súbita, há 22 anos), o cidadão reside naquele lar há 17 anos, depois de ter sido rejeitado pela esposa, por, alegadamente, não servir "para mais nada", enquanto parceiro.

Com o problema de visão, o idoso ficou sem condições para contribuir nas despesas de casa. Desde então, passou a ser visto como inválido, por quem o devia amar: a esposa.

Entre várias queixas, o idoso, que ainda apresenta bom porte físico e lucidez mental, destaca a má qualidade das refeições. "Muitas vezes, nem o sabor se consegue sentir".

Apela, por isso, ao reforço da fiscalização do Estado à actividade do Beiral, onde vários idosos se queixam de patologias, como hipertensão arterial, depressão, tuberculose e reumatismo.

Os mesmos são assistidos por apenas um enfermeiro. Em caso de agravamento das doenças, são transferidos para hospitais de referência.

Criado em 1953, para albergar trabalhadores aposentados que vinham de Portugal na condição de deportados, o Beiral conta com 36 trabalhadores, que se dedicam de domingo a domingo (24|24h por dia) para atender 103 idosos.

Segundo o director-adjunto do Beiral, Manuel Zau, o centro passa por dificuldades extremas, a começar pelo reduzido número de trabalhadores.

Para o sustento dos idosos, a instituição recebe uma quota do Governo Provincial de Luanda, que oscila, mensalmente, entre dois milhões de kwanzas e 400 mil kwanzas.

A título de exemplo, nos meses de Agosto, Setembro e Outubro deste ano, o valor variou entre os 400 mil e dois milhões de kwanzas, gastos na alimentação e nos serviços de limpeza e asseguramento, feitos por duas empresas de prestação de serviço.

O lar conta com três parceiros fixos que ajudam a assegurar as refeições diárias, com atribuição de sopas ao jantar, uma caixa de ovos semanal e outros serviços.

Outras ajudas são asseguradas por igrejas e pessoas solidárias, que doam mantimentos.

Segundo o director-adjunto do Beiral, nem todas as denúncias feitas pelos idosos têm razão de ser, sublinhando que as supostas ofensas, por parte de alguns funcionários, surgem, "se calhar, pela má conduta dos próprios idosos".

"É normal, porque alguns idosos aqui', em termos de carácter, só Deus. Eu felicito as nossas colegas, porque são verdadeiras heroínas", declara.

O responsável explica que as pessoas dessa franja social têm limitações físicas ou mentais que muitas vezes complicam a actuação dos vigilantes, levando-os ao extremo.

"Para tomarem banho precisam de um trabalhador, que sente aquele cheiro, aquele bafo (...). Esse trabalhador às vezes não tem luvas, máscara que lhe permite tapar o rosto e só ganha 38 ou 40 mil kwanzas no final do mês", declara.

Sem afecto familiar

O calvário dos idosos não é vivido apenas nos lares de acolhimento. Mesmo em casa, junto de familiares, há quem se diga abandonado, sem amor e carinho.

É o caso de velho Manuel, 76 anos, que também se queixa da falta de amor, embora o seu sacrifício seja vivido ao lado de um parente de sangue.

O mesmo lacrimeja ao lembrar da vida que levava há 20 anos, antes de ver os seus bens "usurpados" pelos próprios filhos e de ser acusado de práticas de feitiçaria.

Hoje, o antigo trabalhador da então fábrica de curtume, no município do Cazenga, é viúvo. "Avô Zé", como prefere ser chamado, vive só, numa casa abandonada.

Para o seu sustento, "cata" ferro velho e vende sacos plásticos, no mercado do Asa Branca. Por entre choros, depois de alguns minutos sem soltar uma palavra, "Avô Zé" lamenta "se sou isso que eles falam, Deus saberá dar a melhor resposta".

A mesma história de dor e sacrifício vive o idoso Manuel, 82 anos. Sem muita agilidade para locomover-se, reside no bairro do Malueca (Cazenga), numa casa de um quarto e sala, sem as mínimas condições básicas.

O idoso vive com uma neta e uma filha que aparenta ter entre os 40 e 49 anos. A mesma dedica parte do tempo em casas de venda de bebidas alcoólicas, deixando os cuidados do pai à mercê da filha menor de 15 anos.

Por falta de força nos membros superiores e inferiores, muitas vezes o idoso, pai de seis filhos, faz as necessidades biológicas na sala onde dorme, em recortes de panos envelhecidos, permanecendo muitas vezes com os dejectos por mais de cinco horas.

A limpeza corporal só é feita depois do regresso da filha, situação que deixa o idoso com desgosto da vida. Velho Manuel lamenta a ausência e os cuidados dos restantes filhos, que diz já estarem formados e alguns bem posicionados na sociedade.

Especialistas reprovam conduta

Essas práticas já mereceram o repúdio do sociólogo Marcelino Pintinho, que aponta a família como o melhor lugar para a vivência dos idosos.

Segundo o especialista, alguns filhos (as) demonstram ausência de sentimento de pertença para com o idoso e olham os lares de terceira idade como alternativa, devido à falta de orientação sobre determinadas pautas de comportamentos e normas de conduta.

Entende que as políticas existentes para a protecção dos mais vulneráveis não são exequíveis e não se reflectem na vida de muitos idosos.

Lamenta o facto de grande parte desses somente serem lembrados no Dia Nacional da Pessoa idosa (30 de Novembro) ou em outras datas comemorativas.

Marcelino Pintinho diz ser obrigação do Estado criar lares de acolhimentos e um sistema de atendimento ao domicílio, para ajudar os idosos dependentes.

Defende a criação de unidades hospitalares com serviços específicos para os idosos, com médicos e enfermeiros especializados em geriatria e gerontologia, definir um subsídio para os idosos, sobretudos em condição delicada, sem pensão de reforma.

Às famílias, o especialista recomenda a criação de programas de aproximação dos netos aos avôs, tais como O Meu Avô da Comunidade.

Por sua vez, o psicólogo Nuno Pimpão afirma que o envelhecimento é um processo biológico, psicológico e social que remete a pessoa à dependência.

Lembra que um idoso abandonado pode desenvolver distorções cognitivas que levam à depressão, prejuízo na qualidade de vida e pensamentos suicidas, devido ao desprezo.

É nesse quadro de dificuldades e desafios que os velhos aguardam por mais um 30 de Novembro, Dia que celebram todos os anos, cientes de que a idade não recua, mas com a esperança de que, apesar da velhice, ainda podem ser úteis à Nação.

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