A revelação consta de uma pesquisa do Centro de Estudos Jurídicos, Económicos e Sociais (CEJES) da Universidade Agostinho Neto (UAN), que reúne dados preliminares de um questionário online realizado no âmbito do Projecto Efeitos Económicos e Sociais do Confinamento Social em Angola.

A pesquisa registou 1.211 respostas válidas, entre 20 de Abril e 4 de Maio de 2020, período da segunda fase do Estado de Emergência, que vigorou no país de ?27 de Março? a 25 de Maio do corrente ano.

Entre os que responderam ao questionário, 91 por cento afirmaram terem mudado a forma de ocupação do tempo, 87% a actividade laboral e profissional, 81% as práticas de consumo, 80% as relações familiares e sociais, enquanto as transformações no perfil da procura e nos meios de acesso à informação receberam o menor número de ocorrências (65%).

Os inquiridos, 46% mulheres e 56% homens, a faixa etária com 55 ou mais anos foi a menos representada na amostra (11%), maioritariamente constituída por pessoas com idades entre os 25 e 44 anos (59%), sobretudo indivíduos entre os 35 e 44 anos (34%).

A maioria dos entrevistados (71%) declarou ter graduação (licenciatura, 59%) ou pós-graduação (mestrado ou doutorado, 12%), enquanto 24% afirmaram frequentar o ensino superior.

Em relação ao estado civil, 41% são casados, 40% solteiros e 11% em uniões de facto, com a província de Luanda (87%) a dominar o local de residência dos entrevistados.

Grande parte (51%) professa a religião católica, 29% são protestantes e 15% assumiu não ter religião, indica ainda o estudo, da autoria de Carlos Lopes, docente do Instituto Superior Politécnico de Tecnologias e Ciências (ISPTEC), e José Van-Dúnem (UAN).

Benguela, Lunda Norte, Huambo e Huíla representam 8% da amostra e as outras províncias e a diáspora  apenas 5%. Foram recebidas respostas com origem em 16 das 18 províncias angolanas, sendo que 79% dos entrevistados residem na área urbana, 18% na  periurbana e apenas 3% na zona rural.

Sobre as mudanças no modo de ocupação do tempo, declararam ter aumentado o tempo dedicado às actividades domésticas (91%), à comunicação com familiares e amigos (82%), à prestação de apoio aos familiares (60%) e ao lazer/entretenimento (55%).

Mais reduzido foi o percentual dos respondentes que incrementaram o tempo despendido em actividade física/desportiva (33%) e estudantil (37%).

Do total dos inquiridos, 726 afirmaram desempenhar serviços essenciais, enquanto 426 declararam exercer actividades não autorizadas no quadro das interdições decretadas pelo Estado de Emergência, sendo que 53% se encontrava em situação de teletrabalho, 9% em trabalho presencial por turnos e 38% em trabalho convencional.

Setenta e nove por cento  acataram as regras de prevenção e higiene associadas aos actos de consumo e 73% reduziram a frequência das deslocações para aquisição de bens essenciais.

A opção pela compra de maiores quantidades em cada deslocação 55% e a alteração dos locais habituais de abastecimento 54% foram também relatadas por mais de metade das pessoas, registando-se que apenas 50% dos inquiridos declarou ter reduzido as despesas de aquisição de bens e serviços.

Quanto às mudanças nas relações familiares e sociais, a preocupação com a saúde e segurança dos familiares e as redes sociais de pertença emergiu como o dado mais expressivo, com 97% de respostas garantindo o cumprimento das regras de distanciamento, higiene e prevenção.

Noventa e dois por cento reconheceu ter feito uso, com maior frequência e durante mais tempo, das opções proporcionadas pelas novas ferramentas de comunicação e as redes sociais; aproveitado melhor o tempo para conhecer necessidades de familiares e amigos (70%); participado mais nas tarefas domésticas (76%); e usado o tempo para actividades lúdicas com familiares (58%).

No que se refere às mudanças no perfil da procura e meios de acesso à informação, 90% da amostra assumiu ter feito pesquisa específica sobre a Covid-19, enquanto 82% afirmou ter continuado a procurar informação de carácter geral, tendo as redes sociais (88%)  suplantando a Rádio e a TV (85%) como principal meio de acesso à informação.

Finalmente, no que concerne às mudanças no uso dos serviços públicos, 91% dos inquiridos reconheceu ter feito menor uso dos mesmos (licenciamentos, notariado, tribunais, etc.) uma vez que grande parte deles estava a funcionar em regime muito condicionado.

Os que tiveram necessidade de aceder a esses serviços fizeram-no, sobretudo, através das plataformas digitais (77%) que as instituições possuem ou colocaram à disposição dos interessados durante o período de confinamento.

O ensaio faz uma breve descrição da evolução da Covid-19 no país e do modo como o Governo angolano tem respondido à crise de saúde pública, destacando a proibição de entrada em território nacional de pessoas provenientes dos países mais afectados com a pandemia, num primeiro momento, e o encerramento das fronteiras aéreas, terrestres e marítimas à circulação de pessoas a partir das ?00h00? do dia ?20 de Março?.

O Estado de Emergência que havia sido decretado no país pelo Presidente da República, João Lourenço, que estabelecia restrições de mobilidade e actividades económicas como forma de promover o distanciamento social, destacando-se as medidas com impacto directo sobre as actividades informais, face à extensão desse sector na economia angolana, é enfatizado pelo estudo.

Refere que para compensar a perda de rendimentos associada às medidas e ao contexto de crise, foi acelerada a criação de um Programa de Transferências Monetárias, no âmbito do Programa de Fortalecimento da Proteção Social em Angola, com o plano de beneficiar com 8.500 kwanzas cada uma das 1.608.000 (um milhão e seiscentos e oito mil) famílias identificadas na pesquisa sobre pobreza multidimensional nos municípios, realizada em 2018.

Uma outra iniciativa é a distribuição, em alguns municípios, a conjuntos de famílias, de uma cesta básica constituída por arroz, feijão, açúcar, sal, massa e óleo, para suprir as suas dificuldades alimentares, bem como produtos de higiene, como lixívia (água sanitária) e sabão para que as acções preventivas contra o contágio possam ser realizadas.

O ensaio sublinha a flexibilização das restrições, na segunda quinzena de Maio, e a entrada em vigor da Situação de Calamidade Pública (26 de Maio), após aprovação, em tempo recorde, de uma nova Lei da Protecção Civil, e o subsequente afrouxamento de diversas restrições, que permitiu o início de uma fase de desconfinamento gradual.

Para além de apurar se as pessoas estariam ou não a acatar as restrições de mobilidade e as medidas de prevenção e higiene recomendadas pelas autoridades administrativas e sanitárias, o trabalho procurou perceber também os efeitos, e eventuais mudanças, que o confinamento produziu sobre as mesmas nas cinco dimensões acima referidas.

A propósito, os seus autores questionam: “terão todos os entrevistados lidado com esta nova realidade de igual modo, ou será que variáveis como o sexo, a idade, a escolaridade, a área de residência, entre outras, determinaram diferentes respostas”?

Eles próprios concluem que os resultados revelam que o contexto tem um papel importante, que os efeitos económicos e sociais são assimétricos e que não há uniformidade de opiniões mesmo entre segmentos de respondentes homogêneos.

Relativamente ao cumprimento das restrições de mobilidade e das medidas de prevenção e higiene, os resultados apurados indicam que 86% declarou ter obedecido rigorosamente às restrições de mobilidade determinadas.

Quanto às medidas de higiene e prevenção de contaminação, 91% da amostra assumiu que sempre lava as mãos, 74% mantém recorrente uso do álcool gel, 57% realiza a desinfecção de objectos de uso quotidiano e apenas 47% usa máscaras faciais com frequência.

A partir destes resultados preliminares, os autores do trabalho, que envolveram na pesquisa 10 palestrantes (psicólogos, sociólogos, economistas, juristas, actores relevantes da sociedade civil), prometem uma “exploração mais aprofundada, com o suporte de dados adicionais obtidos através de outros procedimentos de colecta de informação”.

O futuro estudo vai analisar o forte impulso à presença do “digital” no quotidiano, com a aceleração da apropriação “forçada” pelo confinamento da tecnologia e das suas ferramentas, com carácter transversal às diferentes dimensões da vida social (no trabalho, no ensino, na comunicação, no lazer, nas interações pessoais).

As novas percepções do trabalho e seus modos de execução (bem evidentes nas vantagens e desvantagens do teletrabalho), a habitação e as formas do seu usufruto, as formas racionais de arbitragem de ocupação do tempo individual e colectivo serão outros aspectos a aflorar.

Serão também analisadas as reconfigurações das relações familiares e sociais, as expressões afectivas e os modos de convivialidade associados ao imperativo de distanciamento físico e as implicações sobre as relações de género associadas a uma atitude mais cooperativa em relação às actividades domésticas

Incluem-se ainda as tensões entre a maior proximidade resultante de mais tempo partilhado em comum e o isolamento gerado pela crescente omnipresença dos gadgets tecnológicos.

Fará igualmente parte do estudo a revalorização da saúde como variável central da qualidade de vida, potencialmente correlacionada com alguma reformulação de valores e  mentalidades no sentido de uma maior consciência de interdependência e responsabilidade comunitária e de percepções sobre o papel dos actores e das instituições, nomeadamente o do Estado.

A Covid-19 tornou-se abruptamente numa crise sanitária, económica, financeira e social globalizada, sendo o terceiro choque económico, financeiro e social do século XXI, depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos, e da crise financeira global de 2008, segundo o secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), Angel Gurría.

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