O aumento do número de casos registrados e de mortes do novo coronavírus indica que a situação piorando ou, por outro lado, mostra que ela é bem menos letal do que aparenta?

Uma das maiores dificuldades a cada nova epidemia é descobrir rapidamente quão contagiosa e mortífera ela será. Desde o início, em dezembro, do surto do novo coronavírus, que já matou 636 pessoas, os especialistas que calculam estimativas que balizam ações governamentais têm esbarrado em um obstáculo comum a essa altura: a falta de dados confiáveis.

Isso não impede, no entanto, a elaboração de modelos matemáticos que vão sendo atualizados e ajustados a cada leva de informação ou variável que surge.

Qual é a dimensão real do surto?

Há cientistas de dados, por exemplo, que usaram modelos de inteligência artificial para projetar 2,5 bilhões de infectados e 53 milhões de mortos antes de junho de 2020 — sem levar em conta, no entanto, o impacto de medidas de contenção e uma possível queda da taxa de mortalidade.

Ou seja, a estimativa de quão letal uma doença é passa por dois pontos: casos confirmados e mortes de infectados. Assim, hoje, o novo coronavírus mata 2 a cada 100 pessoas que foram submetidas a exames que identificaram a presença do vírus no corpo.

Mas, à medida que o tempo passa, o número de casos tem aumentado muito mais rápido que o número de mortes, o que pode significar no futuro uma taxa de mortalidade bem menor que 2%.

“Numa situação como essa, na qual há tantas variáveis desconhecidas, é quase impossível prever com algum grau de precisão quando o número de casos chegará ao seu auge”, afirmou Robin Thompson, especialista em epidemiologia matemática da Universidade Oxford, no Reino Unido.

Chineses usam material de proteção
A Organização Mundial da Saúde decretou uma situação de emergência de saúde pública de interesse internacional por causa do novo vírus créditos: Getty Images

Neil Ferguson, especialista em saúde pública do Centro para Análise de Doenças Infecciosas do Imperial College, de Londres, afirma que, apesar da escassez de informações e de ruídos causados por subnotificação, é possível estimar hoje que milhares de pessoas estejam sendo infectadas todos os dias na China, epicentro do surto do novo coronavírus. E esse avanço dobra a cada cinco dias.

Segundo ele, os casos registrados até agora, cerca de 31 mil, devem representar menos de 10% do número real de pessoas infectadas, apenas a ponta de uma pirâmide de mais de 300 mil casos.

No fim de janeiro, Ferguson falava em quase 100 mil casos totais, enquanto especialistas da Universidade de Hong Kong apresentavam estimativas mais conservadoras: cerca de 40 mil.

Todas essas estimativas se baseiam em diversos dados disponíveis, como o número de casos e mortes registrados e para quantas pessoas uma pessoa infectada é capaz de transmitir o vírus.

Uma das principais características do novo coronavírus (ou 2019-nCoV) é que ele pode ser transmitido ainda durante o período de incubação (entre 1 e 14 dias), quando a pessoa ainda não apresenta sintomas, como febre e tosse. E nem todo mundo que contrai o vírus fica doente.

Estima-se hoje que cada pessoa infectada possa transmitir o vírus para entre 1 e 3 pessoas. Mas isso significa que número vai crescer nesse mesmo ritmo até contaminar todas as pessoas do mundo?

“Projeções futuras dependem muito da eficácia das medidas de controle. Nós avaliamos que a epidemia dobra de tamanho a cada cinco dias no estágio atual”, diz Ferguson.

De todo modo, nos últimos dois dias tem caído o número de casos divulgados diariamente. Mas especialistas dizem que isso não indica que a doença já tenha passado pelo seu auge e que o avanço do surto ocorre em ciclos.

[caption]Avanço do coronavírus na China. .  .[/caption]

Mike Ryan, da Organização Mundial da Saúde (OMS), afirma que é muito cedo para afirmar que o pior já passou. “Quase 4.000 casos confirmados em um único dia não é algo a ser celebrado e certamente é um grande motivo de preocupação.”

Ferguson estima que o pico de novos casos da doença deve ocorrer em até dois meses na China. Para Zhong Nanshan, especialista da Academia Chinesa de Engenharia, que integra a linha de frente do combate ao surto, o ápice deve ocorrer nos próximos dez dias.

Em outros países dependerá, segundo Ferguson, de quão conectados eles são com a China, ou seja, quantas pessoas chegaram de lá nas últimas semanas.

As análises desse grupo de pesquisadores do Imperial College indicam que o número de casos registados fora da China até agora representa 25% do número real de casos. E o avanço desses números dependerá das medidas adotadas em cada país.

Qual é a utilidade de estimativas imprecisas?

Mike Tildesley, que desenvolve modelos matemáticos sobre disseminação de doenças na Universidade Warwick, no Reino Unido, afirma que um dos mantras de sua disciplina é: “Todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis”.

Para diversas áreas, como formulação de políticas públicas, construção de hospitais e planejamento de companhias aéreas, calcular as variáveis de uma epidemia e aplicar modelos que ofereçam previsões para eventuais intervenções são cruciais para o planejamento estratégico.

As bases de um modelo matemático epidemiológico pode incluir variáveis como o número oficial de pessoas infectados, o período de tempo, a frequência de voos aéreos ou interações entre pessoas, a transmissibilidade do agente infeccioso e o potencial de medidas de contenção, como quarentenas e monitoramento de temperatura em aeroportos.

“Essas são todas as coisas que nós, como autoridades de saúde pública, buscamos urgentemente saber”, explica Joe Bresee, epidemiologista do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.

Segundo Tildesley, da Universidade Warwick, um modelo matemático pode ser potencialmente útil para determinar o que uma agência ou um departamento, por exemplo, buscam fazer.

“Se você está interessado em mitigar os efeitos de uma epidemia realmente enorme, é importante não apenas olhar para o número médio de vezes que ela pode atingir picos, mas também entender qual é o pior cenário possível.”


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Escrito por: Matheus Magenta - Da BBC News Brasil em Londres

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