Em 26 anos de casamento, Douglas Fedocio e Janine Fedocio, de Juiz de Fora, no interior de Minas Gerais, nunca tinham votado em candidatos diferentes para presidente de República. Até agora.

Nas eleições de 2018, Douglas, que tem 51 anos e é empresário, quer eleger Jair Bolsonaro (PSL). Janine, que tem a mesma idade do marido e é professora de balé, vai votar em Álvaro Dias (PODE).

Mesmo com a divergência, Douglas diz que não discutem por causa das eleições. “Se nós queremos democracia, temos de ter democracia dentro de casa”, afirma.

Os dois são um retrato de como se está a configurar a votação para presidente neste ano. A primeira volta terá praticamente duas eleições: a dos homens e a das mulheres. A diferença é justamente o voto em Bolsonaro.

Entre os homens, o ex-capitão do Exército está disparado no primeiro lugar, com 37% das intenções de voto. Já entre as mulheres, Bolsonaro tem cerca da metade do apoio, 21%, o que o coloca em posição de empate técnico com Fernando Haddad, que tem 22%. Os dados são da última sondagem do Datafolha, divulgada na noite da passada sexta-feira.

Noutras palavras, se dependesse das mulheres, Bolsonaro não estaria isolado no primeiro lugar, mas empatado. É a primeira vez, desde 1994 pelo menos, que a escolha das mulheres e dos homens para presidente pode ser diferente, segundo dados levantados pela BBC News Brasil.

As sondagens são a única forma de medir essa diferença, já que o sigilo do voto não permite saber como de facto votaram os homens e as mulheres.

Em 1994 e 1998, Fernando Henrique Cardoso vencia tanto entre homens como entre mulheres, segundo sondagens da Datafolha da época. O mesmo ocorreu com Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002 e 2006, também segundo o Datafolha, e com Dilma Rousseff, em 2010 e 2014, de acordo com o Ibope. Não estão disponíveis dados separados por género nas sondagens realizadas nas eleições de 1989 – as primeiras após o fim da ditadura militar.

“A diferença do voto feminino e masculino no Bolsonaro é um movimento curioso. A baixa entrada dele entre as mulheres reflete uma visão de que ele vai governar para os homens e que tem uma visão ultrapassada do papel feminino”, diz Andréa Marcondes de Freitas, professora de Ciência Política da Unicamp, em Campinas, no estado São Paulo.

“Uma rejeição tão alta entre as mulheres certamente prejudica o Bolsonaro na segunda volta”, afirma a cientista política. Assim, quanto pior for o desempenho do candidato entre as mulheres, mais este precisa de pontuar entre os homens, para compensar.

Nesta eleição de 2018, essa diferença muitas vezes reflete-se dentro de uma mesma família, como é o caso de Douglas e Janine.


Douglas diz que vai votar no ex-capitão porque quer mudanças. “Sou empresário formado em jornalismo e filho de um ex-assessor do Itamar Franco. Vivo política desde os meus seis anos e vou votar no Bolsonaro porque, no meu ponto de vista, ele é o único que pode mudar o sistema político do momento”, diz.

Janine afirma que não vai votar em Bolsonaro porque não concorda com os seus discursos sobre homossexuais e mulheres.

“Tenho medo do que ele diz sobre o papel da mulher na sociedade, sobre (as mulheres) ganharem menos e contra homossexuais. Eu tenho muitos amigos gays e fico muito revoltada com as coisas que ele diz, sendo ele tão homofóbico”, afirma Janine.

O casal encontrou um equilíbrio para evitar discussões dentro de casa.

“Eu gostaria que ela votasse no Bolsonaro, mas acho que deve haver respeito pela opinião alheia e isso deve começar dentro da nossa própria casa, só assim conseguimos ter o crescimento de uma sociedade politizada”, afirma Douglas.

Por outro lado, Janine conta que os amigos do seu marido, que também vão votar em Bolsonaro, tentam convencê-la a toda a hora a mudar o seu voto.

“Eles (amigos do marido) são atiradores, frequentam o clube de tiro e todos votam no Bolsonaro. Eles insistem tanto para que eu também faça isso que o meu marido precisa de lhes pedir para pararem e respeitarem a minha opinião”, conta.

O casal está em viagem em João Pessoa, no estado da Paraíba, e o empresário não tira a t-shirt com a estampa de Bolsonaro. Ela leva na brincadeira.

Evitando o assunto

A empresária Dyessica Vieira, de 25 anos, e o namorado, que é polícia militar, até já combinaram não conversarem mais sobre o assunto para não discutirem.

Ela aderiu movimento #EleNão, contra Jair Bolsonaro, e pretende votar em João Amoêdo (Novo). Ele deve votar no ex-capitão do Exército.

“Já tivemos discussões feias, de ficarmos horas sem falarmos. Então, decidimos deixar este assunto de lado”, conta.

“Eu detesto qualquer ideia de Bolsonaro”, diz Dyessica. “Incomoda-me. Além de ser extremamente machista e preconceituoso, na minha opinião, ele não tem preparação nenhuma para ser presidente. Estamos numa crise grande. Precisamos de alguém inteligente, preparado. Ele é político há anos e nunca fez nada. Sabe gritar muito, tem muitas frases feitas, mas não tem preparação. Não entende de economia e tudo o que diz são notícias falsas”, diz a empresária.

Ela explica que o namorado diz que “o Brasil está uma desordem e que Bolsonaro o vai pôr em ordem”.

Com as eleições a aproximarem-se e tanta discussão a acontecer, nem sempre o casal consegue manter o que foi combinado. “Em qualquer grupo de amigos, há sempre alguém a discutir política”, conta Dyessica.

“Eu partilho coisa contra, ele a favor… De vez em quando, ele manda um meme, uma piadinha machista, uma provocaçãozinha.”

As discussões não chegam a abalar o relacionamento do casal, de Balneário Camboriu, em Santa Catarina. Os dois pretendem morar juntos no próximo ano.

Mesmo objetivo

Monique Camargo, de 26 anos, e Sérgio Sírio, de 31, não acham que as diferenças sejam um problema na sua relação. O casal diz que na verdade gosta de debater.

“É muito bom (os dois pensarem diferente). Mantém-nos mais atualizados sempre,  mais informados. Acabamos a procurar mais informação para termos o que conversar”, diz Sérgio. “Vamos trocando ideias, estamos sempre abertos a ouvir tudo.”

Os dois estão juntos há 12 anos e sempre conversaram muito sobre tudo, incluindo política. Ambos trabalham como empregados de bar num clube de praia de Florianópolis, em Santa Catarina. Monique também é formada em Biologia.

Sérgio diz gostar de Bolsonaro há muitos anos. “Hoje, o que me leva a votar no Bolsonaro, sem sombra de dúvida, é a transparência e a honestidade. Essa forma irreverente de ele falar, com certeza, com propriedade”, diz Sérgio.

Ele apoia propostas como fim das cotas, redução de maioridade penal para 16 anos e a castração química de violadores. “A vítima vai sofrer para o resto da vida”,  diz. Mas afirma discordar sobre questões como diferença salarial entre homens e mulheres.

Já Monique afirma que é contra “essa disseminação de ódio gratuita (de Bolsonaro). Ele prega a divisão e não a união. Ele não vai levar o Brasil a lado nenhum, muito pelo contrário. Ele tem umas ideias muito antiquadas. Não tem respeito com a vida, não tem respeito com nada, não tem respeito com as mulheres. Não é uma pessoa que quero para me representar.”

“(Bolsonaro) é influente porque é revoltado e há muitas pessoas revoltadas. Ele sente-se insatisfeito, como muitos de nós estamos, mas de uma forma muito radical. Acho que ele é muito extremista”, diz ela, que afirma que não é “feminista nem de esquerda” e que vai votar nulo. “Nenhum candidato deste ano tem condições para salvar o país.”

Sérgio conta que o segredo para lidar bem com as opiniões diferentes é ter na cabeça a ideia de que os dois têm o mesmo objetivo.

“Nós compactuamos numa ideia: todos os brasileiros querem um Brasil melhor. Todos os brasileiros sonham em ter um país superdesenvolvido”, explica Sérgio. “O objetivo é comum, é o mesmo. Só o caminho é que é diferente.”

Maior disparidade

A intenção de voto de Bolsonaro entre os homens é 16 pontos maior do que entre as mulheres, segundo o último Datafolha. Além de mostrar que homens e mulheres podem eleger candidatos diferentes pela primeira vez, as sondagens também apontam que a diferença de votação de homens e mulheres num candidato nunca foi tão grande.

Em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva tinha 12 pontos a mais entre os homens – 51% x 39% – segundo o Datafolha realizada nas vésperas da primeira volta. Na disputa pela reeleição, em 2006, a vantagem de Lula entre os homens era de 9 pontos – 45% x 36% – também de acordo com a mesma sondagem.

Em 2010, Dilma tinha 8 pontos a mais no eleitorado masculino – 52% x 44% – mostra o Ibope. Já em 2014, a 'petista' tinha a mesma intenção de voto entre homens e mulheres.

Os dados também indicam que a atual distância entre o voto de homens e mulheres em Bolsonaro pode aumentar. “A quantidade de mulheres indecisas é maior do que a de homens. A rejeição de Bolsonaro entre as mulheres também é maior. Por esse motivo, imaginamos que um maior número das indecisas deve posicionar-se contra Bolsonaro”, afirma a cientista social Marcondes de Freitas.

Ela explica que o tamanho da diferença deve fazer com que mais casais votem de maneira diferente.

“Pensando nas sondagens de hoje, deve haver muitos mais casais divididos do que antes. A diferença é tão grande que é inevitável que parte das mulheres que rejeitam Bolsonaro sejam parceiras de homens que votam nele”, pondera a especialista.

Além disso, diz a cientista social, a disputa está mais aguerrida, porque não é mais apenas uma discussão sobre políticas económicas e sociais. “Quando a disputa é em torno de políticas específicas, no limite é conciliável, consegue-se trazer um campo mínimo de acordo. Mas a discussão hoje praticamente só se dá no campo da moral. Estamos a falar de valores construídos ao longo da vida, não é só uma questão de opinião.”

Para a estudante do Rio de Janeiro Ana Barreto, de 22 anos, a solução para essa diferença de valores foi terminar o namoro. “Claro que não é apenas a diferença política, aconteceram outras coisas. Mas também foi um fator”, diz ela.

Ana conta que pretende votar em Fernando Haddad (PT). “Eu estava em dúvida, mas já que ele está à frente (de Ciro Gomes) e pode impedir a eleição de Bolsonaro, voto nele sem dúvidas.”

O antigo relacionamento começou em abril de 2017 e terminou em junho de 2018. No início, o namorado, de 40 anos, dizia que não tinha simpatia por Bolsonaro.

“Perguntei muitas vezes. Ele dizia que não votava, que não gostava”, conta Ana.

Mas, segundo ela, ele tinha uma conta anónima no Twitter onde partilhava posts a favor do ex-capitão. “Durante o namoro, eu descobri que ele realmente concordava com as ideias dele, acabávamos a discordar muito e aquilo estava a ficar insustentável.”

Questão de família

O empresário Bruno, de Jundiaí, no interior de São Paulo, está a ter problemas em casa, mas diz que o que o incomoda não é a posição da mulher – que vai votar em Marina Silva (Rede) – mas sim a opinião da sogra e dos dois cunhados.

“É tudo petista! Eles não me deixam em paz, e estão a tentar convencer-me”, conta.

No caso dele, as discussões começaram muito antes de 2018. “Em 2014, já era assim. Eles nunca respeitaram as minhas opiniões.”

Bruno pediu para não ter o sobrenome divulgado para não prejudicar o seu negócio. “Evito dar declarações públicas, porque, da forma que o mundo está chato, há clientes que podem ficar ofendidos, vá-se lá entender. Eu não acho que o Bolsonaro seja homofóbico, é só a forma dele falar”, afirma. “Mas eu vi um movimento de boicote (contra empresários que doaram para campanha de Bolsonaro).”

Ele diz que pretende votar em Bolsonaro pois quer evitar que o PT consiga novamente o poder. E conta que a mulher, que é voluntária numa ONG de resgate de animais, tem simpatia pelo discurso a favor do meio ambiente de Marina.

“Eu digo-lhe: ‘Estás a atirar o teu voto para o lixo. O Bolsonaro é o único que pode impedir que o Brasil se torne numa Venezuela’. Mas nós quase não conversamos sobre política. Então, não discutimos.”

Até agora, as discussões com a família da mulher, que mora noutra cidade, aconteceram mais pelo grupo no Whatsapp e no Facebook.

“Tudo o que eu publico eles comentam. Em alturas de eleições, eu até evito ir almoçar (com a sogra) ao domingo, não quero me 'encham o saco'. Digo que preciso de trabalhar.”

A estudante de Engenharia Civil Thais Cardoso, de 19 anos, também pensa muito diferente da família do namorado, que tem a mesma idade. Ela faz vários posts contra Bolsonaro no Facebook. O namorado – e a maioria dos membros de sua família – são eleitores do ex-capitão do Exército. “As discussões começaram lá”, conta ela, que mora em Iretama, no Paraná.

“Tento não falar muito porque os eleitores do Bolsonaro não conseguem aceitar outra visão… Mas nem me enervo, só me rio dos argumentos deles e levo numa boa, desde que não me ofendam, nem a mim nem à minha família”, afirma a estudante.

O casal está junto há dois anos e esta será a primeira eleição em que participarão. “Uma vez, no início das campanhas, ele disse algo sobre eu ter alguns homossexuais na família e disse que, por isso, eu ia contra o Bolsonaro. Mas expliquei-lhe logo que esse é apenas um dos milhares de motivos para eu não votar nele”, diz ela.

Divergências sobre a vida

Franciele Ieck e Luiz estão juntos há mais de cinco anos e – apesar de sempre terem votado em candidatos diferentes (ela votou em Dilma Rousseff em 2014, ele, em Aécio Neves) – nunca tinham discutido por política.

“Está muito difícil. Discutimos todo dia, feio, de ficarmos sem falar”, conta Franciele, que mora numa cidade no interior do Rio Grande do Sul.

Franciele aderiu ao #EleNão e pretende votar em Ciro Gomes (PDT). O seu namorado defende o voto no ex-capitão do Exército.

“Começamos a discutir no início do ano, quando o pessoal dizia que ele (Bolsonaro) seria presidente”, conta Franciele. “O meu namorado quer convencer-me a votar nele. Já eu digo-lhe: ‘Eu não quero que tu votes no meu partido, no meu candidato, só não votes no Bolsonaro’.”

Franciele e o namorado eram amigos de infância – conhecem-se desde os doze anos de idade. Mas ela diz sentir que só o conheceu verdadeiramente agora, em época de intenso debate político. “Não é só uma questão de candidatos, realmente começámos a divergir sobre como viver a vida”, afirma.

“Ele (Bolsonaro) tem um discurso de ódio. Para mim, já não é uma questão de política, é uma questão ética e moral.”

“Uma das discussões que tivemos foi porque o meu namorado disse que, se um dia tivéssemos um filho gay, ele consertava na base da porrada”, diz ela. “Ele sempre pensou de forma diferente da minha, mas estas eleições fizeram-no ficar mais radical nessas posições”, diz Franciele.

O casal vive uma verdadeira crise e ainda não encontrou um meio termo para essas diferenças.

*Colaborou Felipe Souza, da BBC News Brasil em São Paulo

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Escrito por: Amanda Rossi e Letícia Mori* - Da BBC News Brasil em São Paulo

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