Babetida Sadjo é a atriz guineense que participou na série "Into The Night", a primeira produção belga para a plataforma Netflix. Nasceu em Bafatá, no leste da Guiné-Bissau, onde fez os estudos primários antes de imigrar com a família para o Vietname - quando tinha apenas 12 anos de idade, em 1996.

"Quando chegamos ao Vietname, apenas falava crioulo. Para aprender o francês, na escola francesa, decidi começar a praticar teatro com os alunos de cursos superiores com intuito de praticar a língua fora das aulas. Foi assim que descobri a paixão pelo teatro, na cidade vietnamita de Hanói", disse à DW África a partir de Bruxelas, capital da Bélgica.

Apesar dos primeiros passos no Vietname, foi em Bruxelas que Babetida Sadjo decidiu encarar a sério a sua paixão, quando deixou a sua família em Liège para rumar à capital belga. Em 2003, inscreveu-se no Conservatório Real de Bruxelas, onde se formou em artes dramáticas.

"Nessa altura, tive que trabalhar à noite como assistente no teatro para poder pagar a renda do apartamento, a comida e sustentar os meus estudos. Vim de uma família modesta que não tinha como ajudar a pagar as despesas em Bruxelas. Foi um momento difícil", conta.

Cada vez mais profissional

À DW África, Babetida lembra que depois do curso produziu o seu primeiro espetáculo, com uma peça teatral da sua autoria "Máscaras do Dragão", que a lançou para o mercado belga com vários convites para os grandes palcos. Com mais de 12 anos de carreira profissional, a mãe de dois filhos vive atualmente da sua profissão como atriz. "Vivo do meu trabalho, mas não foi fácil porque é difícil ter sucesso no mundo do cinema", considera.

Com 36 anos, a guineense foi a primeira mulher negra a ganhar o prémio Ansor de melhor atriz coadjuvante no filme "Waste Landa", do realizador belga Pieter Van Hees.

"Foi um grande evento e um prestigiado prémio que ganhei na Bélgica em 2015. Com aquele filme, fizemos apresentações em Toronto, no Canadá, Los Angeles entre várias cidades do mundo", explica Babetida que teve outro sucesso também com o filme "Paradise Suite", que foi selecionado para representar os Países Baixos nos Óscares, nos Estados Unidos da América.

Convite para "Into The Night"

A sua carreira internacional deu mesmo um grande salto quando interpretou um dos dois personagens principais do filme "And Breathe Normally", vencedor do prémio Sundance de melhor filme estrangeiro na Islândia. Com o sucesso, a produção islandesa chegou logo à Netflix.

"Não sei se foi através desse filme que a produção da série 'Into The Night' viu o meu trabalho. Como estavam à procura de alguém com o meu perfil, então ligaram-me via Skype. Duas semanas depois da conversa, recebi a proposta para fazer esse papel de enfermeira na série da Netflix. Gritei, 'Yesss", recorda.

A atriz diz que não foi tão difícil interpretar o papel que faz na série com ainda seis episódios disponíveis na plataforma. "Aprendi a lutar por mim, a ser persistente na vida. Decidi lutar para chegar onde quero. Não esperar que alguém abra as portas, mas ser persistente até conseguir o meu lugar", revela.

A série belga Into "The Nigth" estreou-se a 1 de maio do ano corrente e a atriz já sentiu o impacto do sucesso na sua vida, com mais números de seguidores nas redes sociais e pelas mensagens de apoio que disse estar a receber de várias partes do mundo.

A menina de pés descalços

"Continuo a ser a mesma pessoa. Aquela menina que corria de pés descalços em Bafatá, que passou fome e que tinha apenas a família como a maior riqueza. Foram coisas importantes que aconteceram na minha vida. A fama não pode fazer-me esquecer da minha origem. Estou grata pelo apoio que poderá permitir-me ter a possibilidade de chegar ao mais alto possível", afirma.

Mesmo nos momentos mais difíceis da sua vida na Guiné-Bissau, nunca perdeu a esperança de lutar para mudar a sua vida. "Sempre disse que ninguém vai decidir a minha vida," conta Babetida Sadjo.

Babetida, que já regressou à Guiné-Bissau em 2006 e 2018, já tem a sua curta metragem pronta para ser lançada. Disse à DW que se não fosse a pandemia de Covid-19, o seu filme "Hématomes" estaria já na fase de produção. Agora, tudo ficou adiado para janeiro do próximo ano.

O maior sonho da atriz que já escreveu várias peças de teatro e filmes de curta metragem é ver a Guiné-Bissau a crescer e a olhar para os seus filhos. "O meu pensamento está na Guiné-Bissau. Quero voltar para realizar um grande festival de cinema e ajudar o cinema do meu país a crescer," conclui.

por: Braima Darame

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