O músico e compositor angolano Paulo Flores comemora hoje o seu quadragésimo aniversário. Para quem começou uma carreira profissional aos 16, quadro décadas de vida levam 24 anos de palcos, discos, concertos, viagens, sonhos, numa trajectória que marcou - e continua a marcar -  a música angolana.

Quarenta anos é o início da meia-idade para o cidadão normal. Para o artista Paulo Flores é o marco entre a perda do pai Cabé (falecido em Maio do ano passado) e a passagem desse legado da música e da angolanidade ao filho, Kiari Flores (o cantor tem quatro filhos: Joshua, Fábio, Kiari Lua, e Keshia Maria).

Depois de alguns espectáculos em França e em Lisboa, Paulo Flores encontra-se em estúdio, em Lisboa, para gravar o seu próximo CD.

Paulo Flores nasceu em Luanda em 1972, filho de Pai Cabé, também conhecido por Tito, homem muito activo na música e na da cultura angolana. Muito jovem, Paulo Flores emigrou para Lisboa onde começou a sua carreira artística como bailarino com uma cantora moçambicana Teresa Mukuyo, que, entretanto, se mudou para o Reino Unido.

Gravou o seu primeiro álbum "Kapuete Kamundanda" em 1988 com apenas 16 anos de idade, que teve grande sucesso em Angola. Paulo Flores destacou-se imediato pelas letras das suas músicas que reflectem o estilo de vida e a cultura angolana, cantadas em português e em kimbundo, no estilo semba, kizomba e tarraxinha.

O cantor sempre se preocupou com a sua terra. Exemplo disso é a abordagem de assuntos políticos, e as dificuldades da vida em Angola, a guerra e a corrupção. Uma das suas músicas entrou na banda sonora do filme francês "La Grande Ourse".

Em Abril de 2007 actuou durante a primeira Trienal de Luanda. A 4 de Julho de 2008, Paulo Flores deu um dos maiores concertos de sempre da história de Angola, no Estádio dos Coqueiros, para 25 mil espectadores.

O cantor atingiu um dos estatutos mais elevados que um artista pode conseguir em Angola, ao lado de nomes como Bonga, Rui Mingas, Waldemar Bastos, etc.

Paulo Flores é embaixador da paz em Luanda, por isso os bilhetes para os seus espectáculos não podem exceder os 5 dólares por pessoa.

"Paulo Flores um desbravador de caminhos e sonoridades"

Na biografia que lhe dedicou o jornalista Gabriel Baguet Júnior, "O Talento da Utopia", lançada em Fevereiro de 2011, este escreve: "Começamos por ver um rapaz nascido no maravilhoso ano de 1972, aos pulos na marginal de Luanda ou a pousar no seu Datsun cor-de-camarão sem ar condicionado, das tardes de domingo, a brincar no parque da ilha aquando das férias em Luanda. Noutras fotos um Paulo em miniatura em brincadeiras de moleque com a prima nas ruas de Lisboa, o olhar cúmplice da mãe. Fotos com o pai Cabé, companheiro de vida e inspirador dos projectos musicais. Da infância passamos de repente para um Paulo Flores que, aos 16 anos, surpreendia meio mundo como “menino-prodígio que revoluciona a nova canção angolana”. Então aí está Paulo Flores ao lado de Bonga em décor anos 80, numa Lisboa nocturna frequentada por tantos outros músicos lusófonos onde foi crescendo numa busca pessoal e em diálogo constante com a sua Angola sempre revisitada."

Ainda, segundo Baguet Júnior, Paulo Flores foi sempre um desbravador de caminhos e sonoridades novas, "porque lhe interessa compreender a música também enquanto fenómeno social e a matriz dos sons, trabalhando para trazê-los aos nossos tempos de forma criativa."

Paulo Flores é um dos responsáveis pela ressurgimento do semba, e é o seu mais jovem intérprete, nos últimos vinte anos. Foi directamente responsável pela sua recriação e popularização, tornando-o um estilo musical que se confunde com a sua voz e o seu nome. Depois dele, o semba passou a ser tocado e dançado nas festas dos mais jovens e a ser aceite mais naturalmente.

Na biografia O Talento da Utopia, Moreira Filho, da Banda Maravilha disse a propósito do cantor: “Paulo Flores não é apenas um músico talentoso, é uma pessoa de alma nobre, comprometido com a música e os músicos”.

Para todos os que com ele têm convivido, o que mais salientam é o seu carácter amigo e fraterno. E todos lhe reconhecem o talento, a sua capacidade de observação de cronista dos tempos modernos, nas “letras com uma forte memória territorial”, como referiu a socióloga Filomena Nascimento.

SAPO

Discografia

- Kapuete, 1988
- Sassasa, 1990
- Coração Farrapo e Cherry, 1991
- Brincadeira Tem Hora, 1993
- Inocente, 1995
- Perto do Fim, 1998
- Recompasso, 2001
- Xé Povo, 2003
- The Best, 2003
- Ao Vivo, 2004
- Ex-combatentes, 2009