“Obrigado por interromper a carreira de um demônio que não pararia nunca de agir.”

Foi assim que um suspeito de ser líder de um grupo de exploração sexual online na Coreia do Sul descreveu seu alívio por ser pego.

Cho Ju-bin, conhecido como “The Doc”, “o doutor”, em inglês, operava salas de bate-papo nas quais chantageava dezenas de jovens, incluindo pelo menos 16 menores, para fazer vídeos sexualmente explícitos de si mesmas, muitas vezes com cenas de estupro e violência.

Ele então vendia esses vídeos pelo Telegram, um serviço de mensagens criptografadas. Os valores variavam de US$ 200 a US$ 1.200.

Mas a história dele não é única. Existem inúmeras salas de bate-papo semelhantes, sugerindo que existem dezenas de milhares de membros pagantes.

De acordo com o jornal coreano Kookmin Ilbo, cada uma das salas apresentava vídeos de três a quatro meninas que foram chantageadas pelos operadores.

Os operadores das salas de chat entravam em contato com as garotas, prometendo trabalhos de modelo ou de acompanhante. Eles então direcionavam as mulheres para uma conta no Telegram para fornecer detalhes pessoais, que eram então usados ​​para chantagear as vítimas.

Cho enfrenta 14 acusações, incluindo estupro, chantagem, coerção e produção e distribuição ilegal de conteúdo sexual. Seu julgamento começou em 11 de junho, três meses depois de ser preso.

Ele admitiu que produziu vídeos de sexo e os distribuiu no Telegram, mas nega ter recorrido à coerção, chantagem e violência, segundo seu advogado.

Mas enquanto o foco está no suposto autor, suas vítimas têm uma luta solitária pela frente. Na Coreia, um país conservador, as dezenas de mulheres e crianças que foram exploradas nos vídeos tentam reconstruir suas vidas.

Uma mulher que as ajuda é Lee Hyorin. Ela contou à BBC sobre seu trabalho na luta contra o crime sexual digital.

Atuando contra a exploração sexual online

“Houve momentos em que senti que se tirasse um descanso, isso seria um pecado; enquanto eu durmo, vídeos de abuso sexual são divulgados e as vítimas sofrem. Então, inicialmente pensei que, mesmo que isso significasse trabalhar a noite toda e o dia inteiro, precisava excluir todos esses vídeos”, diz Hyorin.

Ela lida com as consequências devastadoras dos crimes sexuais digitais desde 2011. Isso significava no início o trabalho de remover o conteúdo, mas logo percebeu que apenas a eliminação das evidências de um crime não era suficiente.

“Quando os vídeos de abuso sexual surgiram como um problema social, não havia sistema para ajudar as vítimas”, disse ela à BBC. “Foi quando nossa organização, o Centro de Resposta à Violência Sexual Cibernética da Coreia, foi lançada. Nosso objetivo não era apenas excluí-los, mas fornecer aconselhamento às vítimas da perspectiva dos direitos das mulheres”.

Hyorin rapidamente percebeu o valor de seu trabalho no tratamento dos danos duradouros causados ​​por esses crimes.

“Muitas vítimas ficam horrorizadas ao ver como sua intimidade é compartilhada, salva e usada para entretenimento ou para ganhar dinheiro”, disse ela.

Ficou claro que o aconselhamento seria a chave da recuperação, e Hyorin trabalha com as vítimas desde então.

‘Você não fez nada de errado’

A maioria das vítimas que chega ao centro começa pedindo desculpas.

“Isso me mata”, diz Hyorin. “Eu tento dizer a elas: ‘você não é responsável por isso e não é sua culpa’.”

Ela acredita que se libertar dessa culpa é a base da recuperação.

“É triste, mas muitas vítimas, na verdade, não têm pessoas que lhes digam o que eu digo.”

Em vez disso, as pessoas as julgam, e é por isso que muitas vítimas sentem tanta culpa e vergonha, diz ela.

É preciso muita coragem para avançar. De fato, Hyorin acredita que as vítimas que chegam à sua organização representam apenas uma parcela muito pequena do total de vítimas.

“Elas costumam passar por uma jornada tão árdua antes de chegar até nós – com a polícia, a mídia e assim por diante. Elas chegam a nós magoadas e exaustas”, disse ela. Muitas vítimas desistem ao longo do caminho.

Ela trabalha com as vítimas para ajudá-las a recuperar o senso de controle sobre suas vidas.

“Nossa definição de recuperação é quando não são mais apenas sujeitos passivos que são consumidos pelo que sofreram, mas quando digerem o incidente como uma das muitas experiências da vida e seguem em frente”, disse ela.

Como funcionavam os chats?

Cho e outros atraíam as vítimas com ofertas de trabalho lucrativo como modelo ou acompanhante.

Todas as meninas que respondiam eram direcionadas para uma conta do Telegram, onde o agressor pegava informações pessoais – nomes, números de telefone e endereços e qualquer material comprometedor que pudesse ser usado para extorquir a vítima.

Eles também solicitavam imagens pornográficas que, segundo eles, eram necessárias para conseguir o emprego. Mais tarde, seriam usadas ​​para chantagear as garotas para filmar e compartilhar vídeos, muitas vezes apresentando atos sexuais extremos.

Cho Ju-bin deixando uma delegacia de polícia
Cho Ju-bin deixando uma delegacia de polícia créditos: Reuters

Cho literalmente chamava as mulheres de “escravas” e às vezes fazia as vítimas se referirem a si mesmas assim.

A sala de Cho no Telegram cobrava dos usuários até US$ 1.245, acredita a polícia coreana. De acordo com a mídia local, havia oito outras salas assim antes da criação da sala de bate-papo de Cho.

Por que isso acontece no Telegram?

O Telegram tem salas de bate-papo criptografadas com base em servidores estrangeiros.

Isso foi importante porque outros sites pornográficos que poderiam ter distribuído esse conteúdo foram fechados pelo governo coreano após o escândalo de câmeras de espionagem no país em 2018, que revelou que imagens ilícitas de inúmeras vítimas foram feitas em banheiros públicos, vestiários, motéis e outros lugares e compartilhadas online.

As salas de chat no Telegram podem ser facilmente removidas e configuradas novamente para evitar o escrutínio da lei.

O pagamento também podia ser feito em bitcoin, permitindo que os usuários tivessem acesso de forma relativamente anônima.

O impacto pessoal

O trabalho de Hyorin tem um custo pessoal.

“Sinto a dor delas quando presto aconselhamento. Tive uma espécie de transtorno de estresse pós-traumático. Num caso, os homens forçaram uma garota a cometer incesto. Foi tão chocante ver como privavam as vítimas de sua dignidade”, diz ela.

O tempo a ajuda a lidar com os piores aspectos de seu trabalho.

“Dois anos atrás, quando me pediram para excluir um conteúdo, fiquei traumatizada com o que vi. Aquilo ficou comigo. Mas estou bem agora. Então, acho que, com o passar do tempo, supero”, ela diz. Além disso, ela mesma também procurou ajuda.

“Nós também precisamos de aconselhamento, pois temos de lidar com muito estresse.”

Pouca ou nenhuma punição

Os crimes sexuais digitais costumam ser muito difíceis de processar.

A mídia coreana informou que um notório agressor conhecido como God God provocou as autoridades, dizendo que se ele jogasse fora o telefone que havia usado – que não era o dele -, poderia se entregar e eles não teriam provas para processá-lo.

Esse homem – cujo nome verdadeiro é Moon Hyung-wook – foi preso em 12 de maio e enfrenta 12 acusações.

Os presos por crimes sexuais digitais são frequentemente dispensados após uma advertência e, quando os processos são bem-sucedidos, eles geralmente terminam com sentenças brandas.

Ilustração de mulher batendo em tela com taco de beisebol
'Dezenas de milhares de mulheres instaram o governo coreano a agir' créditos: Jilla Dastmalchi/BBC

Segundo dados da Suprema Corte, das 7.446 pessoas que foram julgadas por filmagens ilícitas entre 2012 e 2017, apenas 647 (8,7%) receberam prisão ou multa. Isso irrita muito as pessoas na Coreia.

“As mulheres sempre me disseram que sentem que o sistema de Justiça não pune adequadamente os crimes sexuais e não age como um impedimento”, diz a correspondente da BBC na Coreia Laura Bicker. “Dezenas de milhares de mulheres instaram o governo atual a agir.”

Após uma repressão aos crimes sexuais digitais em maio, a Assembleia Nacional revisou as leis que tornavam ilegal assistir, armazenar, comprar e possuir vídeos e fotos capturados de forma não consensual, com punições de até três anos de prisão ou multa de até 30 milhões de wons (US$ 25.000).

Anteriormente, assistir ou possuir imagens filmadas ilegalmente não era passível de punição.

Nos casos dessas salas sob investigação, a polícia coreana diz que até agora 664 suspeitos foram presos, incluindo a maioria dos principais líderes.

Mas alguns juízes continuam tratando os autores de crimes sexuais digitais com clemência.

Ativistas de direitos das mulheres realizaram um protesto diante do tribunal onde Cho está sendo julgado, dizendo que, a menos que ele receba uma sentença mais rigorosa, haverá mais casos de exploração sexual e ainda mais vítimas.

Trabalho sem fim

A motivação de Hyorin para continuar na luta contra o crime sexual digital é clara para ela.

“Acho que poderia dizer que é meu chamado. Prestamos ajuda às vítimas de pornografia de vingança e crimes sexuais digitais até que elas se recuperem”.

Cada vez que excluem um vídeo, estão permitindo que alguém inicie seu processo de recuperação, diz ela. Mas a rotina de derrubar conteúdo ilícito e encerrar operações nunca termina.

“O crime sexual digital pode tirar de alguém sua dignidade humana básica – é por isso que nunca devemos parar de fazer o que fazemos.”


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Ilustrações de Jilla Dastmalchi

Escrito por: Hyung Eun Kim, Julie Yoon e Mark Shea - Serviço Mundial da BBC

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