Oito anos, mais de 100 mil civis mortos, 10 mil elementos das forças de segurança vitimados, 4 792 soldados internacionais caídos e mais de três biliões de dólares depois, o Iraque mudou radicalmente e a região também.

Desde 11 de setembro de 2001, várias figuras da administração Bush traçaram a ligação, em termos mais ou menos directos, entre o Iraque e os atentados terroristas da al-Qaida nos EUA. Mas o próprio Presidente George W. Bush, que incluiu o regime de Saddam Hussein no "eixo do mal" no âmbito da guerra global contra o terrorismo, veio a desmentir a relação: "Não temos provas de que Saddam Hussein tenha estado envolvido nos ataques".

Porém, a 19 de março de 2003 foi lançada a operação contra o Iraque, um processo que alterou a configuração do Médio Oriente, "devido ao começo da 'guerra contra o terrorismo' pelos EUA em 1991 e em 2003, com uma polarização sectária crescente entre sunitas e xiitas e um maior empurrão pela autonomia dos curdos", disse à Lusa o director adjunto de programa do Médio Oriente e Norte de África do International Crisis Group (ICG), Joost Hiltermann.

"Para além disso, o suspeito programa nuclear do Irão aumentou as tensões. Como resultado da 'Primavera Árabe', este ano, contudo, as coisas mudaram ainda mais e estas mudanças não podem ser reduzidas a uma causa apenas como o 11 de Setembro e a invasão do Iraque", afirmou, por escrito, Hiltermann, que na década de 1990 dirigiu o programa de documentos do Iraque da Human Rights Watch.

Até ao final de 2011 está prevista a retirada da totalidade das forças norte-americanas, ao abrigo do acordo assinado com o Governo iraquiano em 2008, a não ser que haja nova decisão no sentido de manter um contingente reduzido no país, o que não é provável, na opinião de Joost Hiltermann.

"Parece que algumas tropas vão ficar como parte do Gabinete para a Cooperação de Segurança da embaixada dos Estados Unidos (mas não mais do que mil no total) e o Iraque terá que, nesse caso, recorrer a operadores privados de segurança em vez de soldados americanos", opinou o responsável da organização não-governamental ICG.

Em outubro de 2007, os EUA atingiram o seu máximo de tropas no terreno no Iraque, com um total de 171 mil soldados no âmbito do chamado 'surge' proposto pelo general David Petraeus, estando agora menos de 50 mil elementos militares norte-americanos naquele país, apesar de junho ter sido o mês mais fatal dos últimos dois anos, segundo dados da página iCasualties.

Para agravar os receios sobre o futuro do Iraque, foram realizados 42 atentados a 15 de agosto, causando, pelo menos, 89 mortos e 315 feridos, segundo o diário New York Times, embora o mês passado tenha sido o primeiro, nas contas da Associated Press, que não registou vítimas norte-americanas desde 2003.

Joost Hiltermann não acredita que a retirada norte-americana cause o desabar o país, mas deixa o alerta: "Se alguns dos profundos problemas políticos do Iraque não forem abordados no próximo ano há uma hipótese de renovação do conflito civil, e as consequências são imprevisíveis".

Segundo uma compilação do 'think tank' Brookings, desde 2003 e até junho deste ano, morreram 115 091 civis iraquianos e, até julho, 10 119 polícias e soldados nacionais daquele país, ao que se acrescem dois milhões de deslocados pela guerra.

Um estudo revelado pela revista The Lancet indica que só os ataques suicidas à bomba mataram no Iraque mais de 12 mil civis e 200 soldados das forças aliadas, entre 2003 e 2010.

De acordo com o Nobel da Economia Joseph Stiglitz, em conjunto com a académica Linda Bilmes, num artigo assinado em setembro de 2010 no Washington Post, os custos totais da guerra no Iraque estão acima dos três biliões de dólares, com grandes repercussões no preço do petróleo, que estava a 25 dólares por barril em março de 2003 e chegou aos 140 dólares em 2008.

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