As empresas portuguesas, que viveram durante os últimos anos apoiadas pelo capital angolano, não manifestam preocupação com a saída de Isabel dos Santos das suas estruturas acionistas. A empresária angolana perdeu a confiança das respetivas administrações depois de, em janeiro último, ter sido constituída arguida por alegada má gestão e desvio de fundos em Angola e, neste mês de fevereiro, terem sido congeladas as suas contas bancárias em Portugal.

Contactada pela DW África, a Efacec Power Solutions recusou-se a adiantar mais informação para além do teor do seu último comunicado, no qual afirmou que "as contas da empresa não foram congeladas, nem em Portugal, nem em qualquer outro país onde a empresa opera", depois da decisão do Ministério Público português de arresto das contas bancárias de Isabel dos Santos, que tinha uma posição acionista maioritária.

Jorge Costa, co-autor do livro "Os Donos Angolanos de Portugal", publicado em 2014 com Francisco Louçã e João Teixeira Lopes, recorda que a compra da Efacec por Isabel dos Santos foi feita com base no capital público angolano e capital de crédito bancário português. "Dos 195 milhões de euros que a Efacec custou, houve 135 milhões que foram financiados pela banca portuguesa. E, portanto, hoje a banca portuguesa é a primeira interessada em assegurar que aqueles créditos não ficam incumpridos e que existem condições de estabilidade na continuidade da Efacec e que os seus créditos possam ser ressarcidos", explica.

Gestão "firme"

De um modo geral, os trabalhadores da Efacec viveram momentos de inquietação após a decisão de retirada de Isabel dos Santos da estrutura acionista da empresa. Mas a gestão mantém-se firme, como nos confirma Fernando Leitão, um dos dois membros coordenadores da Comissão dos Trabalhadores da Efacec Energia, situada no Parque Empresarial da Arroteia, no Distrito do Porto, a norte de Portugal.

"Embora tenha havido essa implicação da saída da engenheira Isabel dos Santos, todo o funcionamento, toda a orgânica da empresa mantém-se; desde os salários que estão assegurados, como o pagamento aos fornecedores, como a gestão com os clientes, a empresa está a laborar normalmente, apesar deste percalço", diz.

Na sequência dos factos, a administração tratou de transmitir a todos uma mensagem de confiança e de serenidade, explica José Manuel Ferreira, coordenador da Comissão dos Trabalhadores: "As próprias estruturas representativas dos trabalhadores também estão atentas a todo este processo e acompanham sistematicamente a evolução do mesmo no sentido de tentarmos perceber que o bom nome da Efacec, a estabilidade, um emprego com futuro possa ser garantido para toda a estrutura".

José Manuel Ferreira garante que, tanto a administração como os trabalhadores estão mais focados na solidez da empresa e a pensar no futuro. A Efacec, acrescenta, terá de mudar de foco e atrair outros investidores.

Na petrolífera Galp, onde Isabel dos Santos tem uma participação indireta através da Amorim Energia, também reina serenidade, após as revelações no âmbito do "Luanda Leaks. Em declarações à DW, fonte da Galp reafirmou que Isabel dos Santos não é acionista direta nem de referência, em consonância com as recentes afirmações do presidente executivo da petrolífera portuguesa, Carlos Gomes da Silva, para quem só a Amorim Energia goza desse estatuto.

De recordar que a empresária angolana possui 40 por cento de capital na Esperanza Holding – controlada em 60 por cento pela petrolífera Sonangol – que, conjuntamente com o grupo Amorim, detém a Amorim Energia, dona de 33,34 por cento da Galp Energia. Embora indiretamente, Isabel dos Santos detém cerca de 15 por cento da Galp Energia.

Responsabilidade do Governo

Jorge Costa lembra que Portugal é o único país da Europa que abriu as portas à penetração de capitais obtidos de forma ilícita e aplicadas em empresas estratégicas, a nível da banca, da energia e das telecomunicações. E avisa que o Governo português tem a responsabilidade de responder pelo futuro das empresas em causa por serem estruturantes do tecido económico, evitando que a instabilidade possa por em causa o seu funcionamento.

Por outro lado, acrescenta, "em Portugal é imperioso garantir que Isabel dos Santos não é autorizada a vender nem o Eurobic, nem a Efacec, nem a NOS, nem a sua quota na Galp, sem que seja restituído aos angolanos o dinheiro que lhes pertence".

Segundo Jorge Costa, o escândalo "Luanda Leaks" veio despertar a atenção pública para a corrupção em Angola e em Portugal, no entanto, lembra, aquilo que agora veio a público é a confirmação de muita informação já conhecida, e que havia sido divulgada, por exemplo, por jornalistas como Rafael Marques e o próprio Bloco de Esquerda.

"Os responsáveis políticos e dos grandes grupos económicos em Portugal sabiam perfeitamente com quem estavam a fazer negócios, a quem estavam a abrir as portas e qual era a prática da elite no poder em Angola ao longo destes anos todos", frisa.

Ou seja, acrescenta o também deputado, à partida, já se sabia que era um risco permitir a entrada em Portugal de investimentos de origem ilegal oriundos de Angola, durante o regime cleptocrático de José Eduardo dos Santos.

por: João Carlos (Lisboa)

 

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