Entrevistado pela agência Lusa, em Luanda, o também jornalista e director do semanário económico angolano "Expansão" manifestou-se esperançado em que João Lourenço, que assumirá sábado a liderança do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), durante o VI Congresso Extraordinário do partido, cumpra as promessas feitas ao longo de quase um ano como chefe de Estado.

"Acredito que vai haver mudanças e este quase primeiro ano de mandato [presidencial] de João Lourenço revela isso mesmo. O que se diz é que, por não ter a presidência do MPLA, não poderia ter ido mais longe do que foi. Temos, na maior parte dos casos, promessas, algumas acções feitas, mas que falta a presidência do MPLA", explicou.

Segundo Rosado de Carvalho, igualmente professor universitário, a expectativa da população é a de que, ao ter o poder todo, João Lourenço possa concretizar as mudanças e acabar com as dúvidas sobre quem manda no partido e no país, embora se saiba que, do ponto de vista formal e constitucional, "não há dúvidas nenhumas de que quem manda é o Presidente da República".

"Alguns analistas diziam que o facto de [João Lourenço] não ser presidente do MPLA de alguma maneira lhe retirava algum poder para fazer as mudanças a que se propôs fazer. Espero que, sem a desculpa de não ser presidente do MPLA, que João Lourenço faça e concretize o conjunto de promessas que fez, como o combate à corrupção, a liberalização da economia e a luta contra os interesses instalados. Isso é o que as pessoas esperam", sublinhou.

Para Rosado de Carvalho, há, porém, "o risco" de que nada se concretize.

"É chegar, ocupar a presidência do MPLA e dizer: «bom, temos um 'status quo', há muitos interesses instalados e não podemos fazer tudo ao mesmo tempo, não podemos mudar o que devia ser mudado»", explicou.

"Espero que João Lourenço faça essas coisas [cumprir as promessas]. Não vai ter desculpas para não as fazer. Mas, por outro lado, temo um partido como o MPLA, com muitos interesses instalados e com todos os problemas que também existem na economia, que resultam do próprio MPLA e dos interesses instalados dentro do próprio MPLA", acrescentou o economista.

No seu entender, se João Lourenço cumprir o que prometeu, e já sem a sombra de José Eduardo dos Santos (ex-presidente de Angola e que deixa sábado a liderança do MPLA), Angola terá uma "nova era", porque o novo líder "vai ter o poder dentro do partido, que é aquilo que lhe faltava".

"Mas receio que o imobilismo reinante no seio do MPLA possa, de alguma maneira, retardar aquilo que pode e tem de ser feito em Angola", insistiu.

Sobre o legado de Eduardo dos Santos (38 anos à frente de Angola e 39 do MPLA), o director do semanário "Expansão" referiu existirem as vertentes política, positiva, e económica, negativa.

"José Eduardo dos Santos, como todos os líderes, fez coisas boas e más. (...) Do ponto de vista económico, fez a transição para a economia de mercado e, depois, com as eleições de 1992, também liderou a abertura da economia, com a introdução dos bancos privados em Angola, mobilizando o sistema financeiro", exemplificou.

Em 2002, com a paz, prosseguiu, José Eduardo dos Santos aprofundou a transição para a economia de mercado, mas, "infelizmente", e apesar de as bases estarem em condições e da mudança na legislação, "a prática ficou muito aquém daquilo que estava previsto, do que era recomendável e deixou a economia praticamente à beira da rotura".

"Aquilo que era o objectivo da diversificação da economia não foi feito. Aliás, o próprio José Eduardo dos Santos reconheceu isso, dizendo que se tinha falado muito da diversificação e que se tinha feito pouco. Do ponto de vista económico, as intenções eram boas, os resultados práticos foram muito maus, como revela a atual conjuntura em Angola", acrescentou.

Para Rosado de Carvalho, do ponto de vista político, "é verdade" que Eduardo dos Santos trouxe o pluralismo político, acabando com o monopartidarismo em 1992, embora, "de certa maneira", tenha sido "obrigado a isso pela UNITA (actualmente maior partido da oposição), que liderou a guerra contra o MPLA".

"Até às eleições de 1992, tivemos uma situação de partido único, com uma luta fratricida entre o MPLA e a UNITA, porque verdadeiramente o MPLA não tinha legitimidade. Havia partidos que lutaram pela independência e, depois, ao contrário do que se combinara, não se cumpriram os acordos, não se realizaram eleições e o MPLA implantou o regime de partido único em Angola", explicou.

"A partir das eleições de 1992, o MPLA ganhou legitimidade, pois ganhou as eleições, que não foram aceites pela UNITA, e, a partir daí, começou a ter o apoio da comunidade internacional, até que, em 2002, veio finalmente a paz", acrescentou.

Para Rosado de Carvalho, "parte desse crédito" cabe a José Eduardo dos Santos, não só na paz, mas também no processo de reconciliação nacional, "que não está completo, mas iniciou-o".

"Acho que o legado político de José Eduardo dos Santos, quer a nível do Governo quer do partido, é bem mais positivo do que o legado económico que nos deixa, com uma economia à beira da rotura", concluiu.