O investigador da School of Oriental and African Studies University of London salientou que existe uma interligação entre a desvalorização do kwanza, a política cambial, a inflação e a política monetária, “um problema que não é de hoje”, embora se tenha acentuado.

Fernandes Wanda notou que o kwanza sempre se desvalorizou face ao dólar, exceto entre 2004 e 2008, período em que teve um câmbio favorável graças a um programa de estabilização macroeconómico apoiado nos preços do petróleo que permitiu a constituição de reservas líquidas.

“Se calcularmos de 2017 até agora, o kwanza desvalorizou-se em 249%, o que é brutal, mas era necessário porque o Banco Nacional de Angola (BNS) precisava de defender as suas reservas”, afirmou o académico, realçando que a valorização ancorada nas reservas internacionais líquidas, que por sua vez estavam ancoradas no preço do petróleo, “foi uma estabilidade muito frágil”.

A partir de 2018, o BNA mudou de estratégia, tentando a estabilização macroeconómica através da política monetária, mas continua a precisar de reservas, ou seja, de divisas em moeda forte, porque Angola depende muito das importações e quer facilitar a atração de investimento estrangeiro.

“Os empresários querem investir num país [em] que saibam que podem repatriar dividendos, é uma medida importante para captar investimento direto estrangeiro”, sublinhou o especialista.

As Reservas Internacionais Líquidas (RIL) do país, até final de maio, foram contabilizadas em 10,2 mil milhões de dólares, sendo inferiores ao investimento direto.

“Se olharmos para o ‘stock’ de investimento direto , no final de 2019, rondava os 18,6 mil milhões, o que significa que, se todos os investidores se quisessem retirar, Angola não teria condições de reembolsar esse valor, porque as reservas estão abaixo”, disse Fernandes Wanda, acrescentando que “isto é um mau indicador”.

O BNA defende agora as reservas através da política monetária e ajustou o coeficiente de reservas obrigatórias de moeda nacional de 17 para 22%, um coeficiente que poderia ser reduzido “para dar liquidez ao mercado”, desde que fosse bem monitorizado, advoga o economista angolano.

“Se baixassem para 15% ou 20% iria haver liquidez, mas aumentaria a inflação. A forma de evitar isso e monitorizar o valor que vai ser libertado é canalizá-lo para o crédito ao setor produtivo, que não tem recebido o suficiente”, continuou Fernandes Wanda, prevendo que o nível de desvalorização se vai manter enquanto isso não acontecer, para mais numa altura em que o mundo luta ainda para controlar a pandemia de covid-19.

“Angola depende das importações e a principal fonte de divisas, que permitem as importações, também esta a cair, que é o petróleo. Vai continuar com tendência a baixar se o mundo não conseguir controlar os novos surtos e estabilizar a situação de pandemia, não vai haver consumo”, indicou.

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