Advogada brilhante, com uma carreira de 15 anos nos Estados Unidos e gestora de sucesso numa das maiores petrolíferas mundiais, a Chevron, onde chegou a Presidente da Empresa no Brasil, aceitou em 2016 fazer parte do Conselho de Administração da Sonangol, liderado pela Engª Isabel dos Santos, com o objectivo de incutir uma nova cultura na empresa, assente na ética, transparência e meritocracia.

Hoje está perante um novo desafio profissional, na empresa líder de telecomunicações em Angola, a UNITEL, no papel de Directora Geral para os Assuntos Corporativos.

Nesta entrevista a gestora fala das suas origens, a ida para os Estados Unidos, o percurso académico, a sua carreira profissional, a experiência de 18 meses na Sonangol e finalmente o seu papel na UNITEL.

1. Fale-nos de si, das suas origens. Onde nasceu e como foi a sua infância?

Eu nasci na Belavista, no Huambo, mas cresci em Luanda, para onde vim com dois anos. Fui viver na Missão Metodista, nas traseiras do Hotel Trópico e estudei em Luanda até aos 15 anos, dentro daquilo que era o novo sistema do ensino angolano, em que convivi com professores de várias nacionalidades: polacos, romenos e também cubanos. Tive uma infância feliz. Os meus pais e a minha mãe em particular sempre se preocuparam muito com a minha educação, mas não só a escolar. Além das aulas, praticávamos desporto e também tinha aulas de piano e ballet. A nossa infância foi sempre cheia de muita aprendizagem, fora e dentro da escola. Com 15 anos fui para os Estados Unidos sozinha.

Os meus pais encontraram uma família americana metodista, em Syracuse, no estado de Nova Iorque, uma vez que o meu Pai era bispo de uma Igreja Metodista. Vivi três anos nessa cidade e foi lá terminei os estudos secundários. Foi um ajuste tremendo na minha vida, pelas dificuldades do clima, da língua e da mudança do sistema de ensino, que felizmente consegui ultrapassar, sem nunca ter perdido um único ano.

2. Nessa altura já tinha uma ideia do que queria ser profissionalmente?

Na altura queria ser médica. Era o meu sonho e era muito encorajada pelos meus pais. Fui para os Estados Unidos com a ideia de dar continuidade a este sonho. Quando acabei o ensino secundário fui para a North Western University, próxima da cidade de Chicago e aí iniciei os meus estudos universitários. Mas rapidamente, e depois do meu primeiro ano, cheguei à conclusão que Medicina não era aquilo que queria seguir. Acabei por me formar em Ciências Políticas e Estudos Internacionais, porque eu sempre gostei da Política e daquilo que está a acontecer no Mundo. Não sabia que, de facto, era uma área de estudo para lá das áreas clássicas como a Medicina, a Engenharia ou o Direito, na qual nos podíamos formar.

A minha desistência da Medicina e querer seguir uma nova área de conhecimento foi uma grande desilusão para os meus pais e familiares, porque ambicionavam ter uma Médica na família. Em 1992 concluí a minha licenciatura e depois decidi fazer um doutoramento em Direito. Achei que em termos práticos, daquilo que tinha aprendido na Licenciatura, sentia a necessidade de aprofundar temas de Direito, com os quais já tinha contactado na faculdade e então fiz o meu Doutoramento em Direito, na Universidade de Iowa.

Durante os três anos que estive na Universidade de Iowa foi muito interessante, uma vez que a metodologia de ensino era muito prática. Valorizo-a muito porque ensinou-me a pensar, a questionar e a ver as questões de diferentes perspectivas. Além disso, proporcionou-me a realização de estágios que foram também muito importantes.

3. Existiram pessoas que a marcaram nesta fase da sua vida?

Sim, com certeza e daí eu ser uma grande apologista do mentoring. Durante os estágios em que participei, eram-nos sempre atribuídos mentores específicos, mas com o decorrer dos estágios acabávamos por estabelecer empatia com outras áreas e com mentores mais “informais”.

Eu ganhei grande apreciação para poder estar com pessoas que já tinham passado por aquelas experiências ou similares e que nos podiam ajudar nos momentos de desorientação e indecisão. No meu caso, uma das sócias do escritório de advogados onde estagiei teve um grande impacto na minha vida, mas outras pessoas também tiverem muito interesse em que a minha carreira tivesse sucesso e sempre contei com o seu apoio.

4. Quando decide voltar para Angola?

Depois de ter ido para os Estados Unidos com quinze anos de idade, de me formar, de ter trabalhado sete anos como associada no escritório de advogados e cinco como sócia na área da Propriedade Intelectual, em que pelo caminho também casei e tive três filhos, comecei a sentir saudades de casa.

Queria que os meus filhos conhecessem o meu País e também sentia que já tinha conseguido, de alguma forma, conquistado aquele desafio que era ser contratada, tornar-me sócia e conseguir desenvolver uma carteira de clientes de grande prestígio.

Estava cansada de gerir a carreira e a família sem apoio familiar. Queria que os meus filhos conhecessem o meu País e também sentia que já tinha conseguido, de alguma forma, conquistado aquele desafio que era ser contratada, tornar-me sócia e conseguir desenvolver uma carteira de clientes de grande prestígio. Tinha conseguido fazer isso tudo e então quando pensei voltar para Angola queria trabalhar ao nível dos desafios a que estava habituada e em 2006 era o sector petrolífero onde isto era mais óbvio. Refiro-me à metodologia de trabalho, processos e o tipo de actividades que eu achei que seriam interessantes para mim.

5. Quando se dá a sua entrada no sector petrolífero?

Em 2006 venho para Angola, com uma oferta de trabalho da Chevron, depois de sido entrevistada pela Empresa. Gosto sempre de partilhar o meu processo de recrutamento na Chevron com estudantes ou com pessoas que estão em início de carreira, sobre a necessidade de pensarmos “fora da caixa” quando estamos a falar da procura de emprego. Muitas vezes os jovens enviam o seu cv por e-mail, deixam-no ficar na recepção das empresas ou participam nas feiras de emprego, que são boas formas de procurar emprego, mas nas alturas mais desafiadoras, em que as empresas estão a contratar menos devemos ser mais inovadores.

No meu caso em concreto, quando decidi que queria trabalhar na Chevron enviei o meu cv por e-mail para a caixa de correio que existia para o efeito. Foi uma candidatura espontânea. Como não tive qualquer resposta e ainda estava nos Estados Unidos, resolvi contactar telefonicamente a Chevron, mas não em Angola. Liguei para o telefone geral da sede na Califórnia, em San Ramon, e pedi para falar com alguém responsável por África. A telefonista que me atendeu ficou um pouco admirada pela pergunta, mas passou a chamada para uma área na qual quem me atendeu era uma pessoa que tinha sido recentemente nomeada para uma posição no Gana. Creio que a telefonista lhe reencaminhou a chamada porque sabia que essa pessoa tinha sido nomeada para esse país africano e não sabia a quem mais passar a chamada. Ele disse-me que não tinha nada a ver com Angola, mas que podia enviar-lhe o e-mail com o meu cv e ele daria seguimento.

Sinceramente, eu não acreditei que fosse dar em algo. Mas de facto, quando ele viu o cv achou-o tão interessante e fora do vulgar que tomou a iniciativa de ir ter com o Director do Gabinete Jurídico da Chevron Angola, que por coincidência estava na sede, numa viagem de serviço, e tudo o resto aconteceu a partir daí. Por isso eu digo sempre às pessoas, principalmente quando já identificaram a empresa onde querem trabalhar, e dentro do que é ético e legalmente permitido, que sejam criativos na forma de se apresentarem e esteja prontos para em poucos minutos criarem um impacte e uma proposta de valor, isto é, o que posso acrescentar ou trazer para esta organização.

No meu caso, eu trazia mais de 15 anos de experiência num escritório de advogados americano, no qual tinha trabalhado para várias companhias clientes e que me permitiram conhecer, ao longo do tempo, como as empresas funcionam e em que áreas os serviços jurídicos podem ser úteis. E sabia que em Angola a Chevron não tinha esse tipo de experiência internacional, porque os advogados angolanos tinham estudado cá ou em Portugal e tinham trabalhado em empresas angolanas ou portuguesas e a Chevron é uma empresa norte americana. Assim, o facto de conhecer bem a forma como os americanos pensam e quais são as suas principais preocupações, aliado à situação de ser angolana e ainda pelo meu conhecimento da realidade do País, porque vinha cá com frequência, levou a que entrasse para o sector petrolífero através da Chevron.

Leia a entrevista completa na edição n.º 5 da revista Human Capital.

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