A especialista em economia e autora do livro “A Geografia do Dinheiro” [“The Almighty Dollar”, na versão original], recentemente editado em Portugal, admite que os Estados Unidos vão passar por um período conturbado devido ao impacto da pandemia do novo coronavírus, mas o dólar continuará a ser a moeda “todo-poderosa” nas relações comerciais.

“É a moeda do comércio global, muito porque é nesta moeda que o petróleo é negociado, mas também porque a maioria dos produtos que atravessam fronteiras” estão indicados em dólares, tal como é utilizado nos mercados financeiros, salienta a correspondente da BBC News.

“As coisas estão a mudar a um ritmo extraordinário”, afirmou a especialista em economia e negócios, referindo-se ao impacto do novo coronavírus, que em poucas semanas condicionou ou fechou fronteiras em grande parte do mundo, num esforço para mitigar a propagação.

“Se tivéssemos falado há uma semana, estaríamos a falar de uma situação diferente, se fosse há três meses não estaríamos a falar deste vírus, mas sobre alterações climáticas”, apontou.

“O vírus está a agitar tudo, não só em termos da nossa saúde, mas também da saúde da economia global e da forma como as coisas estão estruturadas. Neste momento, enquanto falamos, a América tem mais casos de coronavírus do que a China teve”, prosseguiu Dharshini David.

Quando a pandemia passar, “o dólar continuará a moeda do comércio”, independentemente do impacto da covid-19 nos Estados Unidos.

Isto porque, “francamente, não há alternativa no momento” à moeda norte-americana, salientou.

Se, por um lado, “o euro está muito instável”, por outro, a moeda da China, devido ao “seu apertado controlo, não irá substituir o dólar”, acrescentou Dharshini David, formada em Economia pela Universidade de Cambridge.

“Acho que o dólar vai continuar ‘todo-poderoso’ por um bom tempo”, rematou.

Mas se o dólar vai permanecer como a moeda das trocas comerciais, a forma de fazer negócios deverá mudar, na sequência da pandemia que assola o mundo.

Atualmente, “a China é a fábrica do mundo, é algo a que nos habituámos, mas isso está a mudar”, afirmou.

Esta mudança começou com as “tensões comerciais entre os Estados Unidos e a China, o que fez com que muitas empresas tenham procurado produzir em mercados mais baratos, como o Vietname, Filipinas, Bangladesh”, só para dar alguns exemplos.

Mas, agora, “com esta crise, temos uma grande interrogação: Por que é que contámos apenas nesta grande fonte de bens [a China] quando deveríamos ter diversificado um pouco”, questionou.

“E em termos de segurança? Deveríamos produzir as nossas próprias máscaras, por exemplo? Acho que essas coisas vão mudar gradualmente nos próximos anos. Não estou a dizer que a globalização e o domínio da China acabou”, mas “vamos assistir a algumas mudanças isso vai acontecer a partir de pessoas individuais e de governos também”, considerou.

A pandemia do novo coronavírus é um “‘alerta’ para fazermos as coisas de forma diferente”, disse, apontando que há poucos meses tudo indicava que seriam as alterações climáticas a mudar os hábitos.

“Não foi isso que nos levou a mudar, mas algo que está fora do nosso controlo, este vírus vem lembrar-nos que provavelmente houve coisas que negligenciámos ao longo do tempo e que agora ameaçam a nossa forma de viver”, prosseguiu.

“Nesse sentido, talvez tenhamos de fazer os negócios de maneira diferente e pensar de forma diferente. Acho que vai mudar os padrões em termos de obter bens”, ou seja, de evitar que a produção dos mesmos seja apenas feita numa geografia.

Para Dharshini David, nem tudo o que resulta do impacto da covid-19 é negativo.

“Uma coisa que não vai mudar e que vai haver mais vontade de fazer, assim que isto passar, é o turismo”, considerou.

“E quando tudo isto acalmar veremos países como Portugal” a voltar a ter turistas, disse a correspondente da BBC News.

Sobre a eventualidade de um Plano Marshall [nome dado ao programa de recuperação europeia após a II Guerra Mundial] ou algo semelhante para a Europa, Dharshini David considerou que “poderá fazer sentido”.

“É preciso ter em mente que algumas das grandes economias europeias estavam à beira de uma recessão” quando a pandemia chegou, apontou.

“Este é definitivamente o maior choque das nossas memórias e quando vemos aquilo que temos pela frente”, um plano do género faz sentido, “a questão é como financiar”, disse.

Questionada se no meio desta crise a Europa poderia assumir um papel mais relevante no mundo, Dharshini David admitiu que “a América vai sair afetada”, pelo que há margem para a União Europeia aumentar a relevância.

Mas o mesmo não acontece com o euro, dado que há Estados da moeda única muito endividados.

Ou seja, em ano de eleições, os Estados Unidos têm um grande desafio e não vão sair incólumes da pandemia, mas “o dólar vai continuar dominante”, sublinhou.

“Vão ser meses interessantes” até às eleições, admitiu.

Relativamente ao processo de transição da saída do Reino Unido da União Europeia, vulgarmente conhecido ‘Brexit’, Dharshini David considera que deverá sofrer um alargamento.

“O período de transição vai ser alargado” e, quem sabe, no final do processo se as relações entre Londres e Bruxelas não acabarão por ser “mais próximas”, comentou a correspondente da BBC News.

“Todos sabemos que temos de cooperar” neste momento atual, concluiu.

ALU // CSJ

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