Em 2003, Max Vicente, da província do Huambo, criou uma empresa voltada para as energias renováveis, a Angola Network. Trazia quase tudo de fora, importava a tecnologia e a matéria-prima. "Estávamo-nos a ver a depender por completo da importação e isso não era solução para a empresa", conta.

Em 2012, optou por ampliar o negócio para a área da agropecuária. Tinha acabado de chegar de São Paulo, no Brasil, onde fez o doutoramento em zootecnia e aprofundou os conhecimentos em apicultura. Agora dedica-se maioritariamente à agropecuária e à produção de mel, com a marca "Maxmel".

"Eu sou docente na Universidade José Eduardo dos Santos e é uma das disciplinas que eu leciono [a apicultura]. Então foi unir o útil ao agradável. Até foi bom termos essa visão, porque depois, no final de 2014, começa a crise económica. Foi uma visão ampliada já daquela altura", lembra.

Todos os anos, as vendas da "Maxmel" aumentam, porque há muita procura de mel ao nível nacional. Mas a capacidade de produção continua "ínfima", cerca de duas toneladas de mel por ano, numa área de 25 hectares.

Queimadas destroem negócio

A empresa tem os mesmos 12 funcionários fixos "de sempre", embora convoque mais pessoas quando faz alguma plantação. O maior embate à produção são mesmo as queimadas, que acontecem no período seco, de maio a setembro.

No ano passado, o terreno da empresa foi alvo de uma queimada das grandes: "Queimou todas as plantações que nós tínhamos, os citrinos principalmente e as colmeias quase todas". Sobraram apenas 25 colmeias modernas e 40 tradicionais.

"Quando sofremos uma queimada, temos um grande prejuízo. Queima a flora. E quando não há flora, não há abelha. E se não há abelha, não há mel. Isso faz com que cada esforço que se faça num determinado ano se perca por causa de uma determinada queimada. E isso é imprevisível", reclama.

Para o especialista em zootecnia, a prática das queimadas não faz sentido porque, ao contrário da crença popular, não fertiliza o solo mas sim desmineraliza. O solo tem depois de ser corrigido com adubações.

Mas há também quem faça queimadas para caçar animais silvestres, adverte: "Põem fogo de um lado e vão para o outro lado esperar os animais que fogem do fogo para os abater. Sem ter consciência de que aquele fogo depois fica fora de controlo e queima milhares de hectares."

O empresário acredita que o Estado tem de intervir: "O Governo precisa de pôr a mão nisso. Criar leis duras e severas para poder desencorajar esta situação porque, se não, é complicado. E isto não é só aqui no Huambo, é em todo o país."

Certificação internacional pendente

Com clientela 100% angolana e três grandes compradores, Max Vicente reconhece que a "Maxmel" ainda não tem capacidade de produção suficiente para exportar. Mesmo que tivesse, como ainda não tem equipamentos semiautomáticos, não consegue aceder à certificação internacional.

À DW África, Ademílton dos Santos Caetano, do Instituto do Desenvolvimento Florestal (IDF), informou que o "Ministério da Agricultura contactou uma empresa francesa para vir [a Angola] certificar o mel, para começarmos a exportar". No entanto, a operação ficou suspensa por causa do surto de Covid-19.

Caetano admite que "não é fácil" fiscalizar e certificar o mel local. Contudo, existem áreas, com maior produção de mel, identificadas: "Como o Huambo, o Moxico, o Kwanza-Sul, as Lundas, onde já temos tudo canalizado que é para fazermos trabalho. A fiscalização é feita pelo próprio IDF."

Maior produtor de mel

Em 1956, o Moxico figurava na lista dos maiores produtores mundiais de mel, segundo o Plano de Desenvolvimento Integrado da província do Moxico (2012-2025). Caetano acredita que o desenvolvimento tecnológico do setor não foi favorável a Angola.

"O Moxico já produziu muito mel. Nós só temos agora uma grande dificuldade na aquisição de material. O Ministério da Agricultura adquiriu algum material, que não é suficiente, porque nós estamos agora a sair de uma agricultura tradicional para uma agricultura moderna. E estamos em processo de formação de agricultores. A produção reduziu porque a maioria dos produtores não tem material para o processamento do mel ou mesmo a colheita do mel", fundamenta o especialista do IDF.

Caetano reforça a importância do Programa de Lançamento da Apicultura em Angola, que existe desde 2018 e já formou "cerca de 500 apicultores" em "todo o país, não só no Moxico", clarifica.

Max Vicente, da "Maxmel", nunca teve apoios à produção por parte do Estado: "Há programas, sempre houve. Mas há muita burocracia para ter acesso a esses investimentos. E as garantias são absurdas."

O especialista do IDF admite que, para além da escassez de material, o que está a falhar é a escoação de produto: "Nós não temos mercado. O mercado que nós temos é Luanda."

Apesar de ainda não existir capacidade de exportação, o IDF está a fazer esforços para aumentar a produção. "Aqui na província do Huambo criámos cinco polos experimentais para a produção de mel nas colmeias melhoradas. Já temos alguns resultados e estamos a acompanhar a evolução dos enxames", explica.

Dependência excessiva do petróleo

O economista Mário Jales da UNCTAD, um órgão das Nações Unidas especializado em questões de comércio e desenvolvimento, diz que umas das peculiaridades de Angola é "o altíssimo grau de dependência de um único setor", o petróleo.

Só em 2018, "97% a 98% das [receitas de] exportações do país vieram do setor do petróleo. Isso é um grau altíssimo de dependência de apenas um setor. Há outros países que também são dependentes de 'commodities', mas eles exploram dois a sete tipos."

Mário Jales explica que esta dependência "torna [o país] muito vulnerável a flutuações do preço" do combustível. "Os preços sempre variam. Não vamos ter um preço fixo do petróleo. Então, é do interesse reduzir-se essa dependência", analisa. "O ideal é diversificar na direção de setores que sejam sustentáveis."

Formar para capacitar

Diversificar a economia é precisamente o objetivo do programa "Train for Trade II", financiado pela União Europeia (UE) e implementado pela UNCTAD, em parceria com o Governo angolano. O programa engloba o projeto "Revisão Nacional das Exportações Verdes de Angola", que atua no setor do mel.

O intuito é prestar assistência técnica em sessões de formação ao nível das províncias. Dirige-se a apicultores e outros agentes como comerciantes e representantes de instituições públicas, como o Ministério do Comércio, o Ministério da Agricultura e Florestas, o IDF, a Agência de Investimento Privado e Promoção das Exportações (a AIPEX) e a Administração Geral Tributária.

Formação à distância

No mês de julho, está previsto um workshop online da UNCTAD focado na certificação do setor do mel. Desta vez, será dirigido a várias províncias, como a do Moxico, cuja última sessão aconteceu em junho de 2019.

O "webinário" vai contar com o testemunho de apicultores e agências públicas do Brasil, que "passaram - e continuam a passar, de certa forma - por algumas das dificuldades que são enfrentadas também em Angola", descreve o responsável da UNCTAD. "Será um momento de partilha de experiências" com "agentes públicos e privados tanto de Angola como do Brasil."

Como se trata de uma formação online, está a sofrer alguns constrangimentos. Várias regiões angolanas não têm acesso à Internet e a equipamentos tecnológicos. Mas Mário Jales assegura que é importante envolvê-las nesse debate: "Muitos dos produtores de mel são pequenos agricultores de baixos recursos."

A organização está à procura de uma sala onde os participantes possam assistir ao "webinário". Arranjar transporte para os recolher das zonas rurais também está a ser difícil. "Com esta mudança do estado de emergência para estado de calamidade, talvez seja mais fácil conseguir este transporte", desabafa Mário Jales.

O fundador da "Maxmel", Max Vicente, assegura que a situação da Covid-19 no país não teve qualquer impacto na produção de mel. Conta que, durante o segundo decreto do estado de emergência, recebeu um livre-trânsito que lhe permitiu deslocar entre municípios sem constrangimentos.

por:content_author: Marta Cardoso

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