"Até agora, as companhias aéreas africanas perderam 80 mil milhões de dólares [71 mil milhões de euros] e algumas dessas companhias não vão continuar no pós-COVID-19", afirmou Amani Abou-Zeid.

A comissária da União Africana para as Infraestruturas e Energia falava hoje numa conferência online conjunta do Fórum Mundial e do escritório regional para África da Organização Mundial de Saúde (OMS), dedicada aos efeitos da pandemia no turismo e no setor da aviação em África.

"As nossas companhias aéreas são recentes, já tinham situações económicas difíceis e a sua viabilidade já estava a ser questionada mesmo antes da pandemia", disse, reforçando que "há companhias que não vão sobreviver à COVID-19".

Por outro lado, apontou a responsável, empresas grandes como a Ethiopian Airlines, estão a aproveitar para comprar companhias mais pequenas, o que considerou ser "um passo excelente", na medida em que, sublinhou, a "pandemia parou o projeto da União Africana para a criação de um mercado único de transporte aéreo".

Sobre os impactos da pandemia no turismo em África, Amani Abou-Zeid recordou que o setor representa 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do continente e que, em alguns países, nomeadamente nos estados insulares, este valor atinge os 20%.

Mais de 24 milhões de africanos vivem, direta ou indiretamente, do turismo, sendo que a maioria destes empregos são de mulheres, indicou.

"O impacto é mesmo severo. Estimamos 55 mil milhões de dólares de perdas em três meses, num ano em que deveríamos estar a assistir a um aumento das viagens e do transporte aéreo no continente. O golpe é muito duro", disse.

Amani Abou-Zeid considerou, no entanto, que a pandemia poderá vir a ser uma oportunidade, a médio prazo, para fortalecer "o turismo e o transporte interafricano".

Com a abertura de fronteiras e a retoma das ligações aéreas prevista para os próximos dias, a responsável apelou para uma descida das tarifas aéreas e para a facilitação de vistos de entrada nos paises para promover as viagens dentro do continente.

"É uma oportunidade de encorajar os africanos a conhecerem África e a viajarem dentro do continente. Isto poderá ajudar a amortecer alguns dos impactos no turismo e no transporte aéreo", disse.

Por seu lado, para a retoma das viagens aéreas internacionais, a diretora regional para África da OMS, Matshidiso Moeti, recomenda aos países que avaliem a situação epidemiológica para determinar se a manutenção das restrições compensa os custos económicos da reabertura.

"As viagens aéreas são vitais para a saúde económica dos países, mas à medida que voltamos aos céus, não podemos baixar a guarda. O nosso novo normal ainda requer medidas rigorosas para travar a propagação da COVID-19", disse.

"Estudos preliminares indicam que os casos pré-assintomáticos, assintomáticos e ligeiros têm um papel crucial na propagação do vírus e, por isso, seguir os passageiros durante 14 dias é extremamente importante", acrescentou, considerando essencial a existência de medição de temperatura nos aeroportos.

Matshidiso Moeti admitiu que a abertura das fronteiras possa provocar um aumento de casos, sublinhando a necessidade de os países implementarem sistemas "rápidos e funcionais" de localização, testagem e isolamento dos infetados.

Sobre a situação da pandemia no continente, a responsável da OMS disse que a curva pandémica continua a subir, com aumento de casos e mortes, adiantando ser impossível, neste momento, prever quando é que o continente atingirá o pico da pandemia.

Matshidiso Moeti adiantou que a testagem no continente continua ainda muito centrada nas zonas urbanas e visando quase exclusivamente os doentes que registam sintomas, admitindo que o número de infetados possa ser bastante maior do que o que as estatísticas mostram.

Na região africana da OMS, 36 países fecharam as fronteiras a viagens internacionais, oito suspenderam voos de países com elevada transmissão COVID-19 e outros impuseram restrições parciais.

Até à data, os Camarões, a Guiné Equatorial, a Tanzânia e a Zâmbia retomaram os voos comerciais, esperando-se que a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), com 15 países, incluindo a Guiné-Bissau e Cabo Verde, abra o seu espaço aéreo a 21 de julho.

Segundo os números mais recentes sobre a pandemia no continente, África regista 10.151 mortos e 404.937 casos de COVID-19.

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