Nos últimos cinco anos, a província, localizada na região Centro, a 735 quilómetros de Luanda, procura ter de volta os fortes índices de produção, virando, agora, as "baterias" para o ananás.

Fruto dos investimentos do Governo, a falta de água, energia eléctrica e de transporte ferroviário estão a deixar de ser problemas crónicos no Bié, fazendo o sector agrícola voltar a "mexer-se".

Desde 2002, o Executivo implementa políticas de curto e médio prazos, para potenciar a produção, transformação, armazenamento e distribuição de cereais e outros produtos.

O fomento agrícola da província assenta em três factores fundamentais: desminagem dos solos, extensão da rede eléctrica e aumento da capacidade de captação e distribuição de água.

Com esses passos, os campos de produção estão em busca de condições favoráveis para "gerar" alimentos à região Sul/Leste, sendo que o Bié procura recuperar o tempo perdido e voltar a ser um dos principais celeiros de produção de milho, soja, trigo e arroz.

Depois da "travessia no deserto", sem infra-estruturas e com uma agricultura familiar, a província quer apostar, gradualmente, na auto-suficiência alimentar e na industrialização.

Além dos cereais, a produção de ananás está entre as principais apostas dos camponeses, principalmente nos municípios de Cunhinga, Chinguar, Camacupa, Catabola e Cuito.

Actualmente, das 100 mil famílias camponesas controladas na província, pouco mais de mil dedicam-se à produção desse produto, num raio de 150 hectares.

Apesar de a produção ser feita em pequena escala, no âmbito do fomento da agricultura familiar, já é possível colher, anualmente, entre 500 kg e três toneladas de ananás.

O pico da colheita do produto, na província, ocorre, com frequência, no mês de Dezembro. A produção média cifra-se entre 1/12 hectares (ha) por cada família camponesa.

À semelhança dos cereais, em vários municípios há camponeses a associar outras culturas ao cultivo do ananás, com realce para os de Cunhinga, em tempos idos considerada forte produtora desse produto.

Entretanto, além do ananás, o município tem histórico na produção laranja, tangerina, limão, banana e morango, com colheitas que rondavam mais de 300 toneladas/ano.

Com a questão do ananás ainda "embrionária", os produtores do Bié não perdem tempo na massificação de outras culturas, tendo como foco, como no passado, os cereais.

Nos campos de produção, já se começa a ver, em quantidades aceitáveis, milho, arroz, feijão, soja, gergelim, além de tubérculos (mandioca, bata rena e bata doce) e hortícolas.

As autoridades locais estimam, para a presente campanha agrícola (2019-2020), uma safra de 800 mil toneladas de produtos diversos, quase o dobro da campanha anterior.

A colheita é feita por mais de 100 mil famílias, assistidas através do projecto Mosap II, no âmbito do Programa de Desenvolvimento Rural (PDR) e de Fomento à Agricultura.

Na campanha agrícola 2018/2019, o Governo, através do Ministério da Agricultura e Florestas, distribuiu, aos camponeses da região, cinco mil toneladas de fertilizantes.

Cinco hectares de ananás

Apesar das dificuldades, os camponeses dizem-se determinados em recuperar a mística, perdida no período de guerra civil, buscando no ananás uma mais-valia para o campo.

O exemplo dessa determinação vem do soba José Cateleco, da Aldeia da Bumba (Cunhinga), que coordena uma área de cinco hectares (ha) de ananás, com uma cooperativa de 15 pessoas.

Conforme a autoridade, o projecto é promissor, embora três ha tenham sido devastados por fogo posto.

Aos 57 anos de idade, o soba diz que aposta na produção de ananás há 32 anos, daí afirmar que tem experiência para recuperar os três hectares devastados oportunamente.

Para tal, teve, recentemente, apoio do Governo local em meios fundamentais para a lavoura. Do governo, recebeu materiais como moto-bomba e charrua, para substituir a produção rudimentar, à base de enxadas, aguardando por outros apoios para alavancar a produção de citrinos.

Em 2019, solicitou sem sucesso, a título de reembolso, um financiamento ao Balcão Único do Empreendedor (BUE), avaliado em 800 mil kwanzas, para aumentar a produção.

A solicitação foi negada porque outros colegas não reembolsaram empréstimos do género ao BUE.

Ainda assim, isso não inibe os camponeses de Bumba, como Domingas Alberto e Regina Tualungue, de 33 e 42 anos de idade, que produzem ananás há quase três anos.

Cada uma delas conta com um hectar (1 ha), sendo que a primeira trabalha com o esposo e outra cuida da terra sozinha.

Ambas clamam por enxadas e fertilizantes, para acelerar a produção de ananás.

De acordo com os produtores, o cultivo de ananás e outros produtos tem tudo para dar certo, uma vez os campos de cultivo se situam a escassos quilómetros da estrada nacional (EN) 140.

Outro factor favorável é o facto de estarem a 10 quilómetros da Estação do CFB, na sede municipal do Cunhinga, pontos a partir dos quais o produto pode ser escoado com facilidade para fora do Bié.

Conforme as autoridades e os agricultores locais, o ananás produzido localmente pode ser vendido em outras regiões do país, como Huambo, Benguela e Moxico. Todavia, há ainda problemas com o escoamento dos produtos que precisam de ser superados.

"Se determinada produção do campo (quantidade não avançada) é comprada directamente por interessados, à beira da estrada EN140, outra acaba por estragar (15%), por dificuldades de escoamento, admite o director local da Agricultura e Florestas, Marcolino Sandemba.

O responsável afirma que outras vezes, determinados produtos são escoados para a capital provincial (Cuito) ou outras cidades, através dos comboios do CFB.

Reconhece não haver, de momento, um produtor de ananás que plante 20/30 ha, porque a província carece de indústrias transformadoras, pelo que apela aos investidores nacionais e estrangeiros para apostarem no agro-negócio nesta região do país.

Marcolino Sandemba ressalta que vão aparecendo algumas intenções de investidores na área da indústria transformadora, mas a grande esperança é a implementação dos vários projectos do Ministério da Agricultura, como o Programa de Indústria no Meio Rural.

Trata-se de um projecto lançado há um ano, mas que ainda não arrancou, ou seja, não saiu do papel.

Igualmente, conforme a autoridade, espera-se pela conclusão do Pólo Industrial do Cunje, mediante o qual pode-se ter o surgimento de várias indústrias, para atender os diferentes sectores produtivos.

FADA financia projectos

Conquanto, para atingir novos "voos" e aumentar a produção, as autoridades apostam na formação de agentes nas escolas de campo, mormente sobre preparação da terra.

"Se não ocorrer da melhor forma, pode ter ataque de pragas", refere Marconino Sandemba, sublinhado que estão a instruir os produtores, também, sobre as várias formas de controlo de pragas.

Associado a isso, está o facto de o sector contar com novos financiadores, como o Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Agrário (FADA), que prometeu, recentemente, disponibilizar, este ano, AKZ 15 mil milhões de Kwanzas para potenciar a agricultura familiar no país.

Segundo o PCA do FADA, Carlos Fernandes, o montante vai apoiar a agricultura familiar, através da cedência de créditos, para que os beneficiários aumentem os níveis de produção e melhorem a colheita na próxima campanha agrícola (2020/2021).

Considerou a iniciativa do FADA importante, uma vez que um dos maiores objectivos é remover entraves para alavancar a agricultura, acrescentando que o projecto tem igualmente o foco no apoio à produção e comercialização de produtos da agricultura familiar.

As famílias camponesas, segundo o gestor, terão a oportunidade de adquirir tractores, fertilizantes, pesticidas, instrumentos de produção, sementes agrícolas, e melhorar o cultivo.

O financiamento tem também por objectivo o fomento agrícola, no âmbito da diversificação da economia em curso no país, e reduzir as importações.

Na mesma senda, 140 cooperativas de camponeses e 17 associações controladas pela Estação de Desenvolvimento Agrário, no Cunhinga, recebem regularmente, do Governo do Bié, meios de subsistência para o fomento da produção.

De acordo com a directora do EDA no Cunhinga, Arminda dos Santos, os apoios consubstanciam-se na entrega gratuita de alguns inputs agrícolas, como charruas, enxadas, moto-bombas e sementes diversas.

A responsável explica que o município de Cunhinga é potencialmente forte na produção de ananás, mas a fruta é produzida com letargia, porque ainda é feita de forma manual, por camponeses isolados.

Apesar da situação, considera satisfatória a colheita, defendendo mais apoios aos pequenos produtores, de modo a incentivá-los a prosseguir com a prática e posteriormente abastecer os mercados do país.

Explica que, para além do Bié, o produto é vendido às províncias do Huambo e Moxico, através dos Caminhos de Ferro de Benguela (CFB), que tem auxiliado os camponeses no escoamento do produto.

O município, potencialmente agrícola no cultivo do milho, feijão, mandioca, citrinos, hortaliças e outros produtos, controla, até ao momento, 56 escolas de campo.

Com um milhão, 455 mil e 255 habitantes, a província do Bié controla, ao todo, mil e 321 associações de camponeses e perto de 850 escolas de campo, das mil e 360 previstas até 2021.

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