Antes de começarem os tempos de antena (gratuitos) das eleições presidenciais no Brasil – tiveram início a 31 de Agosto – e de ficar definido que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (do Partido dos Trabalhadores - PT) não podia candidatar-se, o deputado federal e capitão militar na reforma Jair Bolsonaro (PSL) dava poucos sinais de que conseguiria superar, com o vigor que demonstra hoje, a bolha de eleitores radicais na Internet e, menos ainda, consolidar-se como o candidato capaz de derrotar o PT.

Como foi, então, que o candidato terminou a primeira volta das eleições com 46,62% dos votos válidos, ante os 28,5% do ‘petista’ Fernando Haddad, que substituiu Lula nas urnas?

Para os especialistas ouvidos pela BBC News, os principais trunfos de Bolsonaro passam por uma campanha digital que dissemina um discurso anti-PT, moralista e antissistema, através de dezenas de milhares de grupos na rede social WhatsApp, assim como as investigações de corrupção contra o PT que levaram à ausência de Lula da Silva nas eleições e o declínio acentuado do PSDB em 2018, movimento parecido ao que abalou o PT em 2016, após a destituição de Dilma Rousseff da presidência do Brasil.

Com a entrada em vigor de novas regras eleitorais – o período de campanha eleitoral passou dos 90 para os 45 dias e passou a ser proibido o financiamento por parte de empresas privadas –, o apoio crescente a Bolsonaro registado nas sondagens intensificou o ‘comportamento de manada’, ou seja, reforçou o voto útil em quem já surge à frente. Desta forma, o candidato do Partido Social Brasileiro (PSL) garantiu, logo após o fim da primeira volta, a adesão de parte dos grandes grupos de comunicação social, da elite empresarial e de alguns aliados de rivais seus.

Face aos resultados verificados no último domingo, o favorito para ser ministro da Fazenda – o equivalente à pasta das Finanças –, num eventual futuro governo de Bolsonaro, passa a ser Paulo Guedes, economista que está a ser usado como uma espécie de fiador do candidato junto dos mercados financeiros.

Guerrilha digital

A falta de estrutura partidária, o improviso e as lutas de poder que marcaram a condução da campanha em momentos-chave, especialmente após o grave atentado contra Bolsonaro no mês passado, parecem não ter causado mossa no candidato dentro do mundo digital.

Para os especialistas, o candidato presidencial e a sua equipa acertaram quando decidiram passar os últimos três anos a ampliar e a fortalecer uma comunidade de simpatizantes inicialmente restrita – a maior parte defendia uma intervenção militar que imponha a ordem e uma Operação Lava Jato que seja forte contra os políticos corruptos.

Quem venceu em cada estado do Brasil
créditos: BBC

Bolsonaro soube navegar com agilidade e a baixo custo a onda conservadora que ganhou força após o fim do Governo de Dilma, tendo investido na comunicação nas redes sociais, nomeadamente em grupos WhatsApp que contaram com o contributo de apoiantes do ex-capitão. Estima-se que a produção de conteúdos de campanha, fortalecida por uma rede de apoio espontâneo, tenha alcançado diretamente 30 mil grupos no WhatsApp, pelo menos.

André Miceli, professor e coordenador do mestrado em marketing digital da Fundação Getúlio Vargas, afirma que a importância destes influenciadores, contratados ou voluntários, cresceu de modo acentuado em 2018, face à queda do peso da comunicação direta dos políticos junto do eleitorado, os quais privilegiavam os períodos de tempo de antena (que passou a estender-se por menos dias) e as campanhas nas ruas.

“O cidadão comum acredita nas ideias de um candidato e no seu poder para convencer, e passa a partilhar informações com rapidez e capilaridade via redes sociais”, salienta André Miceli.

Além disso, o mau desempenho nas sondagens do candidato à presidência pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), Henrique Meirelles, mostra, segundo Miceli, que não basta atingir o público-alvo com posts pagos em redes sociais, pois também é preciso que o discurso tenha aderência junto do eleitorado.

'Comportamento de manada'

A estratégia no WhatsApp (rede social usada por 120 milhões de brasileiros), liderada por um dos filhos do antigo militar, o vereador Carlos Bolsonaro (do PSL do Rio de Janeiro), procurou criar uma onda de apoio ao candidato presidencial e, por consequência, atrair o eleitor que tradicionalmente vota em quem está na frente – o referido comportamento de manada.

“Existe uma relação entre as características dos lugares e o apoio eleitoral dos [seus] habitantes. Quando mais uma pessoa vivencia aquele lugar [em que vive], pertencente a uma rede de informações local, maior é a probabilidade de ela se comportar como o eleitor médio daquele lugar”, explica o investigador Aleksei Zolnerkevic, da Universidade de São Paulo.

Com a proibição do financiamento por parte de empresas privadas e face à baixa influência do tempo de antena na disputa eleitoral, redes sociais como Facebook e, principalmente, o WhatsApp foram o principal meio para a troca de informações sobre as presidenciais.

“Antes da eleição [da primeira volta], 75% das pessoas inqueridas recebiam informações políticas via WhatsApp. Hoje, o número chega a 100%, principalmente por meio de vídeos e memes”, afirma Maurício Moura, da Universidade George Washington, nos Estados Unidos, fundador do projeto IDEIA Big Data, que realiza sondagens via telemóvel. Ainda segundo o instituto brasileiro de sondagens Datafolha, 7 em cada 10 eleitores brasileiros usaram o WhatsApp para se informar sobre os candidatos.

Para Maurício Moura, a inexistência de um algoritmo no WhatsApp, evitando, assim, que se criem bolhas informativas a partir das preferências do utilizador, facilita a troca democrática de informações e opiniões. O problema é que também eleva a credibilidade das notícias falsas, porque “as mensagens vêm do círculo de pessoas mais próximas”.

Além disso, há ainda o perigo de enviesamento, ou seja, a tendência para rejeitar informações de fontes ou de pontos de vista dos quais se discorda. Para André Miceli, o WhatsApp não se mostrou, este ano, tão eficaz na atração do eleitor historicamente volátil – que só decide em vésperas da votação – e na conversão de simpatizantes do campo político oposto.

A utilização de robôs e perfis falsos, sem ligações publicamente reconhecidas às equipas oficiais de campanha, também são importantes instrumentos para influenciar debates e questionar reportagens críticas feitas pelos grandes média, à exceção das que são produzidas por grupos aliados como a TV Record, comandada pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).

Discurso de Bolsonaro tornou-se menos militar e mais moral

Face à torrente de informações que circula pelas redes sociais, o tipo de discurso que se usa é uma peça fundamental quando se quer envolver e convencer os eleitores. Indo ao sabor da onda conservadora, Bolsonaro mudou e adaptou o seu discurso político ao longo dos 27 anos em que esteve na Câmara dos Deputados, tendo conseguido ampliar o seu eleitorado sem desagradar aos mais fiéis.

A estratégia surtiu efeito e, segundo as sondagens, conseguiu atrair nesta eleição presidencial metade dos evangélicos, por exemplo.

Em dezembro passado, a BBC News analisou 1.540 discursos de Bolsonaro proferidos durante os plenários da Câmara. Com o passar do tempo e à medida que aumentava a sua projeção nacional e nos média – de forma espontânea –, os assuntos ligados ao meio militar deram espaço aos de cunho moralista e sobre segurança pública. Foi assim que as acusações de autoritarismo, machismo e racismo ganharam força. Palavras como “direitos humanos”, “PT”, “tortura”, “Cuba”, “esquerda” e “gays” tiveram, por exemplo, um pico no mandato de deputado entre 2011 e 2014.

Jair Bolsonaro
Bolsonaro mudou e adaptou o seu discurso político ao longo dos 27 anos em que esteve na Câmara dos Deputados, tendo ampliado o seu eleitorado sem desagradar aos mais fiéis créditos: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Por sua vez, o grupo de análise de discurso da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro debruçou-se sobre os discursos e performances de Bolsonaro nos últimos dois anos, principalmente o que foi publicado nas redes sociais.

Quatro aspetos se destacam: a repetida difusão de imagens de apoio que recebia em aeroportos do país, a fim de forjar uma aura de mito em seu torno; o tom emocional e direto sobre as suas qualidades (não está a ser investigado por corrupção) e fraquezas (não tem experiência governativa); um descrédito nas instituições, a fim de defender o regresso de um estado de ordem; e as críticas ao sistema partidário, centradas num discurso anti-PT.

“O discurso político, a partir de um diagnóstico dos problemas do país, tem a virtude, e o poder, de articular essas exigências e [ainda] identidades múltiplas e contingentes dos sujeitos num único ‘nós’: o do ‘povo’, ‘cidadãos de bem’, os ‘defensores da família’, dos valores cristãos conservadores”, explica o professor Jorge Romano, coordenador do grupo de pesquisa.

No campo oposto, segundo esta mesma análise aos discursos de Bolsonaro, estão 'eles', em referência a quem é de esquerda. Surge assim “o inimigo que articula o [que existe de] negativo e desprezível na sociedade”, sendo “associado a bandidagem, imoralidade, corrupção e a grupos sociais específicos, como homossexuais, mulheres e ativistas de direitos humanos”.

O consultor político André Torretta ressalva, igualmente, o tom das mensagens da rede de apoiantes do político do PSL. “A grande sacada da campanha dele é ter um material leve e engraçado, de tão maluco que é. O humor é muito mais eficaz e compartilhável na internet. O PT não é leve, não conta piada.”

Apoiantes tradicionais do PT viram a sua confiança abalada

Bolsonaro também beneficia do estado de confusão que assolou as bases de apoio dos dois partidos que dominam a disputa presidencial desde 1994. A polarização eleitoral no país consolidou-se a partir de 2006 com a reeleição do então presidente Lula da Silva, graças ao forte apoio das fatias da sociedade mais pobres e menos escolarizadas, assim como aos eleitores do nordeste do país.

O realinhamento eleitoral durante o período do ‘lulismo’ consolidou, desde então, a base de apoio do partido em torno dessas parcelas da população, as quais costumavam votar em candidatos de direita ou centro-direita. Não obstante, há divergências sobre o peso da ideologia neste comportamento eleitoral.

A oposição política e uma parte do meio académico afirma que existe uma relação entre a nova base de apoio político ao PT e o Bolsa Família, um programa de apoio social destinado a combater a pobreza no Brasil. Para o politólogo brasileiro André Singer, esta ligação só existe junto da classe de indigentes que conseguiu ascender, pelo menos, a uma situação de pobreza – ou seja, os que nada tinham e passaram a ter acesso a alguns viveres básicos, por via da Bolsa Família –, não se aplicando a quem passou a fazer parte da nova classe trabalhadora brasileira.

Na opinião de Singer, Lula da Silva e os seus correligionários erraram ao não consolidar, à época, a perceção junto dessas dezenas de milhões de pessoas de que a ascensão deles se deu mais por causa de políticas públicas, do que por mérito próprio e individual.

Lula
Há uma resistência crescente à estratégia de transferência de votos do ex-presidente Lula da Silva para Fernando Haddad créditos: AFP

Os movimentos de direita que foram para as ruas – ganharam projecção e adesão após as manifestações de junho de 2013 –, defendendo um discurso anticorrupção e a supressão dos direitos das minorias, assim como a contestação pelo PSDB dos resultados eleitorais de 2014 e a destituição de Dilma Rousseff ampliaram e acirraram um sentimento anti-PT, o qual chegou ao zénite nas presidenciais deste ano.

Ao mesmo tempo, há uma resistência crescente à estratégia de transferência de votos do ex-presidente Lula, preso e impedido de concorrer por causa de uma condenação por corrupção, para outro candidato do partido: neste caso Fernando Haddad. Além disso, a recessão económica, que levou ao aumento do desemprego e dos índices de violência, tal como a prisão de diversos dirigentes do PT, abalou a confiança de parte dos eleitores tradicionais do partido.

Por outro lado, a contrarreacção da esquerda à onda conservadora ajudou o PT a reorganizar-se parcialmente, após o impeachment de Dilma e perda de 60% das prefeituras em 2016. Segundo as sondagens, Haddad lidera entre os eleitores que se identificam com o partido, mas tem uma taxa de rejeição junto de todo o eleitorado que ronda os 40%.

Declínio do PSDB

Os especialistas não veem para 2018 um realinhamento significativo do eleitorado, como ocorreu em 2006, um fenómeno eleitoral em que grupos sociais mudam de campo ideológico (ou se consolidam em torno de um deles) a partir de grandes transformações sociais – como recessões, uma ampla ascensão social ou a destituição de um presidente.

Bolsonaro conseguiu adicionar o eleitorado historicamente mais identificado com os tucanos (a ave que serve de símbolo ao PSDB) à força política e à base eleitoral que já tinha no Rio de Janeiro.

Geraldo Alckmin fala repórteres
Geraldo Alckmin (PSDB) deixou de ser a principal figura anti-PT e acabou por ficar espremido entre a polarização que coloca PT de um lado da barricada e Bolsonaro do outro. créditos: George Gianni

“Acredito que, tal como na eleição de 2016 ocorreu um desalinhamento parcial do eleitorado mais ligado à esquerda, um fenómeno semelhante deverá atingir o PSDB, afiança Aleksei Zolnerkevic.

Historicamente, o PSDB reúne os eleitores mais ricos, escolarizados e do sul e sudeste do Brasil. Segundo Maria do Socorro Sousa Braga, coordenadora do Núcleo de Estudo dos Partidos Políticos Latino-americanos, ligado à Universidade Federal de São Carlos, Bolsonaro conseguiu atrair essas franjas a partir de uma conjunção rara de factores, como a “desestruturação intrapartidária do PSDB, as denúncias graves na Lava Jato contra as principais lideranças do partido, inclusive o candidato Geraldo Alckmin, o apoio público ao Governo de Michel Temer (MDB) e a descrença no sistema representativo, em alta desde 2013.”

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Escrito por: Matheus Magenta - Da BBC News Brasil em São Paulo

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