O Partido Conservador, do premiê Boris Johnson, foi o grande vencedor das eleições britânicas de quinta-feira (12/12), abocanhando 365 assentos de um total de 650 no Parlamento e avançando sobre tradicionais redutos dos trabalhistas.

Mas outros dois destaques do resultado final são o Partido Nacional Escocês (SNP), que avançou e ficou com 48 assentos, e o Partido Unionista Democrático da Irlanda do Norte (DUP), que recuou (ficou com 8 assentos) e cedeu espaço para formações favoráveis à unificação das Irlandas.

Os resultados confirmam que, para além do Brexit, manter o Reino Unido, de fato, unido será um dos grandes desafios do novo governo de Johnson.

Esse desafio será particularmente grande na Escócia, onde o SNP só perdeu 11 dos 59 assentos parlamentares em disputa, superando concorrentes tanto conservadores como trabalhistas e liberais-democratas.

E o SNP fez isso prometendo usar a força renovada para pedir um segundo plebiscito sobre a independência da Escócia.

Simpatizantes de um segundo plebiscito na Escócia
Simpatizantes de um segundo plebiscito na Escócia: separatismo ganha força com a eleição desta quinta e com o avanço do Brexit créditos: Getty Images

“Boris Johnson tem o mandato de tirar a Inglaterra da União Europeia, mas tem de aceitar que eu tenho o mandato de dar à Escócia a possibilidade de optar por um futuro alternativo”, disse, em seu discurso de celebração, a líder do SNP, Nicola Sturgeon, primeira-ministra escocesa. “A Escócia enviou uma mensagem muito clara.”

Sturgeon afirmou que iniciará nos próximos dias os trâmites legais para pedir que o Parlamento organize um segundo plebiscito independentista (no anterior, em 2014, a maioria dos escoceses votou por permanecer no Reino Unido).

E, embora Johnson tenha dito que vetará a votação, a imagem de um governo conservador inglês ignorando uma eleição democrática entre escoceses provavelmente fomentaria anseios separatistas.

Caminhos diferentes

“O argumento mais forte do SNP é que a Escócia e o restante do Reino Unido estão se movendo em direções políticas opostas”, explica Sarah Smith, editora de Escócia da BBC.

“E isso foi demonstrado vividamente com a Inglaterra abraçando os conservadores, enquanto estes perdem votos e assentos ao norte (onde fica o território escocês).”

Nicola Sturgeon
'Boris Johnson tem o mandato de tirar a Inglaterra da União Europeia, mas tem de aceitar que eu tenho o mandato de dar à Escócia a possibilidade de optar por um futuro alternativo', disse a líder escocesa Nicola Sturgeon créditos: Getty Images

Em contrapartida, o lema de campanha dos conservadores escoceses foi “diga novamente não ao plebiscito de independência” – justamente em referência à votação de 2014, quando o “não” venceu com 55,3% dos votos.

Só que esses conservadores perderam sete de seus 13 assentos escoceses, enquanto o SNP levará 13 novos deputados ao Parlamento em Westminster e recebeu 45% dos votos.

E, em um território que votou esmagadoramente a favor de permanecer na União Europeia, as atuais circunstâncias – em que parece inevitável a execução do Brexit, processo de saída britânica da UE – são vistas por muitos escoceses como uma justificativa para voltar a discutir o separatismo, questão que era considerada encerrada por uma geração.

Sturgeon afirmou saber que não necessariamente quem votou no SNP também votará pela independência. “Mas tem havido um forte respaldo a que a Escócia tenha opções, em vez de suportar um goveno conservador pelo qual não votamos e de aceitar uma vida fora da UE”, declarou.

Boris Johnson e Nicola Sturgeon
Boris Johnson e Nicola Sturgeon; ela prometeu pleitear um novo plebiscito sobre a independência escocesa, e ele prometeu vetá-lo créditos: EPA

Sturgeon, no entanto, se recusou a revelar qual será sua estratégia se Johnson de fato bloquear no Parlamento britânico a realização de um novo plebiscito escocês.

“Acabo de ganhar uma eleição com o argumento de que a Escócia tem o direito de escolher”, respondeu ela. “Depende dos conservadores decidir qual é seu plano B quando o meu plano A acaba de receber um amplo respaldo.”

Para a editora Sarah Smith, uma “colisão constitucional” parece inevitável.

“O partido que domina a Escócia agora está em rota de colisão constitucional com o governo do Reino Unido”, citando o fato de o voto escocês no pleito desta quinta ter sido tão oposto ao voto da maioria da Inglaterra.

E, mesmo que Johnson consiga resistir aos embates de curto pazo, corre o risco de, no meio do caminho, fazer aumentar o apoio à causa independentista.

Irlanda do Norte

Na Irlanda do Norte, por sua vez, os eleitores também elegeram mais deputados ligados à causa da unificação da Irlanda do que defensores da unidade britânica.

E a derrota do líder do DUP em Westminster, Nigel Dodds, foi uma das mais marcantes da noite de quinta-feira.

Arlene Foster e Nigel Dodds
Lideranças do DUP, partido unionista irlandês, perderam força, enquanto nacionalistas ganharam mais espaço créditos: Getty Images

Os resultados nacionais também reduziram consideravelmente a influência do DUP, que chegou a ser um aliado-chave no primeiro mandato de Johnson e no debilitado governo de Theresa May (premiê que antecedeu Johnson no cargo).

Mas, acima de tudo, pela primeira vez na história os unionistas não são maioria nem em Westminster nem em Stormont (o Parlamento irlandês), algo que o partido nacionalista Sinn Féin usou para pedir seu próprio plebiscito.

“É impossível ignorar a crescente demanda por um plebiscito sobre a unificação irlandesa”, disse, nesta sexta-feira, a presidente do Sinn Féin, Mary Lou McDonald.

Isso não significa, porém, que exista uma clara maioria de eleitores a favor da unificação irlandesa: no geral, os partidos unionistas receberam mais votos do que seus pares nacionalistas.

Só que nenhum dos dois lados tem maioria, sendo o Partido da Aliança da Irlanda do Norte, declaradamente neutro, uma espécie de fiel da balança.

E, em um território que também votou majoritariamente para permanecer na União Europeia, a forma como Johnson lidar com o tema pode também ser decisiva.

Seu acordo de Brexit com a UE foi criticado até mesmo pelo DUP, por a princípio manter a Irlanda do Norte mais perto da UE do que do Reino Unido – embora Johnson afirme que se trata de uma medida temporária e transitória.

Em um contexto de reveses econômicos pós-Brexit, e de a fronteira com a Irlanda continuar a ser uma questão delicada no processo de saída da UE, o nacionalismo irlandês pode avançar.


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