Vladimir Jirinóvski, líder do ultra-nacionalista Partido Liberal Democrata da Rússia (LDPR), criado em 1989 pelo próprio e que é a segunda força política da oposição, surge como o mentor desta iniciativa, embora, até agora, não tenha recebido o apoio de outros partidos.

Segundo Jirinóvski, “há países potencialmente interessados, como a China, o Vietname ou outros países comunistas, e o seu corpo está em boas condições, foi embalsamado há apenas 96 anos”, pode ler-se numa publicação sua no Twitter.

Este polémico político russo segue a mesma linha de pensamento do empresário francês Stéphane Distinguin, que, para fazer face à crise económica provocada pela pandemia, sugeriu que a França devia vender as suas 'jóias de família', a começar pelo quadro da Mona Lisa (também conhecido como A Gioconda) de Leonardo da Vinci, que, segundo ele, vale cerca de 50 milhões de euros.

Vladimir Ilitch Ulyanov, mundialmente conhecido por Lénine, além de símbolo máximo da Revolução Bolchevique de outubro 1917 é uma grande atracção turística. O seu corpo embalsamado está num mausoléu de mármore vermelho e preto na Praça Vermelha, junto ao Kremlin, no centro de Moscovo, desde que morreu em 1924, sendo visitado todos os anos por milhares de pessoas de vários países.

O primeiro mausoléu foi construí­do provisoriamente em madeira, três dias depois da morte do líder bolchevique, mas 30 dias depois foi encerrado, para que o seu corpo fosse embalsamado com novas técnicas que permitissem uma melhor conservação. O atual mausoléu data de 1930.

Conservar Lénine custa cerca de 173 mil dólares por ano, e a economia russa está praticamente paralisada desde março devido à pandemia de COVID-19, a qual, segundo o governo russo, causou desde 31 de janeiro 545.458 infetados, 294.306 pacientes curados e 7.284 mortos.

A juntar a isto, o preço do petróleo está em queda livre, sendo que a economia da Rússia depende muito da exportação deste ouro negro.

A memória do período soviético ainda impede que Lénine seja enterrado

O presidente Vladimir Putin defende que não se deve mexer no corpo, “pelo menos enquanto tivermos entre nós muitas pessoas cujas experiências ainda estão ligadas, de alguma maneira, às realizações do período soviético“.

Vladimir Legoida, director do departamento de comunicação do Sínodo Sagrado da Igreja Ortodoxa da Rússia, sustenta que “o ideal seria enterrá-lo, mas é preciso que o país esteja preparado” para isso.

“Há pessoas que ainda acreditam que Lénine tinha boas intenções, que era um idealista e que a sua revolução foi traída por Estaline, um monstro, mas [foi] Lénine [quem] realmente criou Estaline“, explica por sua vez Victor Sebestyen, historiador sobre a Rússia e o comunismo.

Não obstante, sabe-se hoje que Lénine, quando estava ciente de que poderia morrer a curto-prazo - por causa das sequelas de uma tentativa de assassinato e outros problemas de saúde -, quis deixar o novo país que brotou da revolução nas mãos de Leon Trotsky, pois considerava Estaline demasiado incompetente para tal tarefa e desdenhava do seu estilo "bruto" de liderança. Todavia, Estaline já controlava o aparelho de Estado aquando da morte de Lénine, pelo que conseguiu exilar Trotsky e afastar todos os restantes potencias rivais.

Muito 'respeitinho' dentro do mausoléu

Dentro do mausoléu, a atmosfera é de veneração e respeito, sendo obrigatório remover as mãos dos bolsos, manter um silêncio total e é proibido fotografar ou filmar o corpo de Lénine.

O governo do Vietname chegou a entrar em contacto com os especialistas que cuidam do corpo mumificado de Lénine, no ano passado, para que estes ajudassem a travar a deterioração do seu antigo líder mítico, Ho Chi Minh, também ele preservado da mesma forma desde 1969.

China, Coreia do Norte e Vietname, mumificaram os seus líderes fundadores, utilizando o método “Lenin Laboratory”, desenvolvido na União Soviética.

No entanto o corpo do antigo líder bolchevique nem sempre esteve sozinho, pois após a morte de Estaline, em 1953, o seu corpo (igualmente embalsamado) foi exposto ao lado do primeiro na Praça Vermelha. Contudo quando o processo de 'desestalinização' da União Soviética começou, em 1961, Estaline foi enterrado na necrópole do Kremlin.

O próprio Lénine, antes da sua morte, terá supostamente pedido para ser enterrado ao lado de sua mãe, em São Petersburgo, mas, segundo a agência russa de notícias Sputnik, a atual lei russa prevê que tal só será possível com o consentimento da famí­lia do falecido.

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