Numa entrevista à agência Lusa, Alcides Sakala, porta-voz e secretário para as Relações Exteriores da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), lembrou que José Eduardo dos Santos, que deixa a presidência do partido no sábado, “alimentou sempre a vontade de procurar manter-se no poder por todos os meios que tinha ao seu alcance”.

“José Eduardo dos Santos sempre alimentou a vontade de procurar manter-se no poder por todos os meios que tinha ao seu alcance. Esta perspetiva ficou mais vincada com a imposição da Constituição de 2010 [sem votação nominal para o cargo de Presidente da República], que, naquela altura, ele próprio a considerou atípica”, lembrou Sakala.

José Eduardo dos Santos termina no sábado 39 anos de liderança do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA, no poder desde a independência, em 1975), nos trabalhos do VI Congresso Extraordinário do partido, convocado unicamente para renovar a liderança, que passará a ser ocupada por João Lourenço, atual Presidente da República.

Para o porta-voz do partido do “Galo Negro”, com a realização do congresso, e tendo em conta as razões por que foi convocado, pode tirar-se a conclusão de que Eduardo dos Santos sai por um conjunto de circunstâncias políticas, sociais e económicas que concorrem para a sua saída e que o “empurram para o outro lado da História”.

“[José Eduardo dos Santos] sai, diria mesmo, enfraquecido, porque pendem sobre ele factos como o promotor da corrupção, do nepotismo, da intolerância política e da má gestão, de um conjunto de situações que qualificam aquilo que foi a sua gestão ao longo de todos estes 38 anos de poder [como Presidente da República, 39 anos no MPLA]”, sublinhou.

“Os líderes têm de saber entrar e sair. Sair oportunamente. Mas quando se é forçado pelos ventos da História, como é o caso, deixa sempre a figura, neste caso a de José Eduardo dos Santos, enfraquecida”, sublinhou Alcides Sakala.

Para o também deputado da UNITA, será desta forma que o ainda presidente do MPLA e ex-chefe de Estado “será visto” no futuro.

“Os seus seguidores e militantes terão uma outra visão, mas, de uma forma geral, é a imagem [da corrupção, do nepotismo, da intolerância política e da má gestão] que deixa ao país e para a História de Angola”, referiu.

Sobre o que poderá mudar com João Lourenço, Presidente de Angola desde 26 de setembro de 2017, como líder do MPLA, a partir de sábado, Alcides Sakala destacou, primeiro, o facto de se dar “uma transição de geração, de gerações”, para depois ter de cumprir, na prática, as promessas.

“Angola começa a viver agora este processo de transição dentro das organizações políticas. Tudo indica, por aquilo que têm sido os seus [de João Lourenço] pronunciamentos, haver um novo paradigma em termos de filosofia de Estado, mas uma coisa são os discursos, as teorias, outra é a prática, que é muito mais complicado. Fizeram-se várias promessas ao longo destes últimos meses, mas as expectativas começam agora a gorar-se”, explicou.

Sakala realçou, porém, que João Lourenço tem ainda mais quatro anos de legislatura pela frente, tempo importante para valorizar a visão da UNITA, com o aprofundamento do debate e do diálogo nacional.

“O passado não se pode mudar, mas tem referências importantes, que podemos ter em conta para que se evitem erros. Queremos uma Angola nova, reconciliada, de tolerância, do progresso e do desenvolvimento”, sublinhou.

“Eduardo dos Santos não conseguiu fazê-lo durante o seu mandato. Desde o fim da guerra civil [2002] só teve dois encontros com o líder da UNITA [Isaías Samakuva]. O Presidente João Lourenço, nestes últimos 11 meses, já se encontrou com o líder da UNITA, o que é muito positivo, numa altura, também, em que começamos, agora, com os preparativos da exumação e inumação do Presidente fundador da UNITA, Jonas Malheiro Savimbi”, acrescentou.

Para Alcides Sakala, são “indicadores positivos”, mas que, por si só, não chegam, pois terá de se avançar na estruturação do diálogo nacional e começar a pensar-se na “construção de instituições fortes” em Angola, como, por exemplo, as questões eleitorais, que são “essenciais”.

“Desde 1992 até hoje, Angola tem vivido processos eleitorais fraudulentos, em que se roubam sempre os votos. É preciso mudar esta postura e ter processos eleitorais conforme o que a lei institui, para que, de facto, a alternância se verifique”, acrescentou, salientando esse ser “um dos momentos da verdade”.

“É um momento da verdade. A UNITA é hoje um partido sólido, que continua a crescer em todo o país, enquanto outros partidos vão vivendo situações internas menos boas. Mesmo o próprio MPLA, durante este período de bicefalia, deu a transparecer dificuldades internas, o que é normal em situações como estas”, declarou.

“A UNITA está coesa, mantém o seu programa e objetivos devidamente definidos e quer ser poder em 2022. Temos todas as condições objetivas criadas para que tal aconteça. Mas, para isso, precisamos de processos eleitorais transparentes, justos e abrangentes”, concluiu Alcides Sakala.