A menos de seis meses das eleições presidenciais que ditarão quem será o líder da maior potência mundial, nenhum candidato está em condições de fazer as habituais campanhas políticas que ocorrem a cada quatro anos, com Trump a enfrentar uma espécie de plebiscito à forma como está a lidar com a atual crise pandémica.

A instabilidade caudada pela COVID-19, em terras do Tio Sam, torna muito difícil fazer qualquer tipo de análise política em relação ao futuro. "Na verdade, não sabemos o que vai acontecer", admitiu à agência AFP Christopher Arterton, professor de Ciência Política na Universidade de George Washington, situada na capital.

O problema é fácil de resumir. Quatro meses antes da pandemia, as narrativas para a campanha eleitoral de ambos os candidatos – republicano e democrata - pareciam claras.

O atual presidente contava usar como trunfo uma retórica assente no bom desempenho da economia e numa taxa de desemprego historicamente baixa, propondo mais quatro anos na mesma direção, ao mesmo tempo que propalava um perfil como empresário de sucesso.

Já o democrata Joe Biden prometia acabar com os escândalos, a polarização política no país – vista como um dos grandes problemas do momento nos EUA –, dar término ao estilo reality show com que Trump gere os assuntos do país, ao mesmo tempo que queria apelar aos eleitores que se lembrassem de que foi vice-presidente de Barack Obama. O seu objetivo era restaurar "a alma da América".

Biden, com 77 anos, liderava nas sondagens, mas muitos acreditavam que Trump, quatro anos mais novo, conseguiria manter o seu lugar de presidente nas eleições de 3 de novembro, voltando a rebater as sondagens que, em 2016, também o colocavam atrás da candidata democrata que acabou derrotada, Hillary Clinton. O último presidente em exercício a perder uma reeleição foi George Bush, em 1992.

Por norma, e olhando para o passado, presidentes que governam em períodos de forte crescimento económico são praticamente imbatíveis.

Trump percorreu o país antes da pandemia atacar em força o território norte-americano, surgindo em vários dos seus típicos comícios políticos – cheios de mensagens e tiradas políticas polémicas – e procurando chegar à mesma base de eleitores que lhe deram o poder em 2016, ou seja, norte-americanos que vêm os chamados políticos liberais como um problema e que têm uma visão conservadora e patriarcal (a roçar o machismo) da sociedade.

A sua mensagem para eles seria simples: um nacionalismo exacerbado e todo virado para os interesses dos Estados Unidos, com armas apontadas às empresas que deixaram o país, levando postos de trabalho para fábricas instaladas noutros países. Trump, nesses comícios inflamados, perguntava abertamente aos seus apoiantes como é que o “Sleepy Joe" (ou "Joe dorminhoco", apelido dado por ele a Biden) iria conseguir derrotá-lo. Só que o coronavírus estragou toda esta estratégia.

Trump deixou de saber usar os média a seu favor?

"Esta eleição será principalmente um referendo ao presidente Trump", esclarece Allan Lichtman, historiador da Universidade Americana (também sedeada em Washington), conhecido pelas suas previsões precisas nas eleições anteriores.

A crise da COVID-19 coloca desafios aos líderes políticos tão importantes ou maiores do que os ataques do 11 de Setembro, ou a crise económica e financeira de 2008. Mas o estilo político de Trump assente na constante busca de confronto, as suas poucas demonstrações de empatia para com o número de mortes provacadas pelo coronavírus, a que se junta a forma como geriu os recursos federais durante a pandemia renderam-lhe fortes críticas.

Segundo a última sondagem da cadeia de televisão CBS, 57% dos norte-americanos pensam que Trump fez um "mau trabalho", contra os 47% registados em março.

Tudo leva a crer que Biden tem uma hipótese de ouro face as estas circunstâncias. A questão é que, tal como milhões de norte-americanos, o candidato democrata passou os últimos dois meses em casa, em confinamento.

Embora Trump tenha desistido dos comícios de que tanto gosta, ainda surge ocasionalmente a fazer declarações, algumas delas bombásticas, junto ao Air Force One – o avião do presidente dos EUA – e, com frequência, domina as notícias sobre a Casa Branca nos telejornais da noite.

Biden, por sua vez, nunca chegou a sair da sua casa de campo no estado do Delaware, limitando-se a comunicar ao povo norte-americano através das plataformas digitais. Ainda assim, estar no centro das atenções não faz com que Trump consiga estar um passo à frente do candidato democrata. O uso que o atual presidente faz dos média, como foi o caso das conferências de imprensa para dar conta da situação da pandemia no país – e que se arrastavam por mais de duas horas, com Trump a aproveitar o 'tempo de antena' para fazer recomendações sem fundamento científico e ataques políticos que nada tinham a ver com a COVID-19 –, parece ter desagradado metade do país.

"Ele expôs todas as suas deficiências, que eram evidentes durante toda a presidência, mas que agora afetam a vida dos americanos no futuro imediato", comentou o porta-voz de Biden, Michael Gwin.

"Existe um ditado antigo", recorda o historiador Allan Lichtman: "'Nunca interrompa um oponente quando ele está cometendo um erro'". Todavia, e na maioria das vezes, Biden critica o presidente via Twitter, como fez na última quinta-feira, quando afirmou que Trump "falhou com o povo americano em todas as frentes". Mas o seu porta-voz reforça que atacar não é suficiente para derrotar Trump."Precisamos apresentar uma alternativa melhor", admite.

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