A paz em Moçambique foi tema da conferência "Acordo de Paz e Reconciliação Nacional de Moçambique: Um Ano Depois" promovido pela Chatham House, uma entidade independente de debates sobre assuntos internacionais com sede em Londres.

Mirko Manzoni, enviado pessoal do secretário-geral das Nações Unidas a Moçambique, disse que os guerrilheiros da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) devem ser reintegrados “com dignidade" e com garantia de pagamento de pensão, para que o acordo de paz tenha sucesso.

"Os guerrilheiros devem ser tratados com dignidade, como um soldado que vai à reforma, para a construção da paz em Moçambique", sublinhou Mirko Manzoni.

O Governo, a liderança da Renamo e a sociedade civil não devem esquecer os guerrilheiros, depois do fim do processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR), acrescentou.

O bispo da Igreja Anglicana em Moçambique, Carlos Matsinhe, também defendeu que o êxito do acordo de paz depende do futuro dos combatentes.

"O pacote básico de sobrevivência que é atribuído aos guerrilheiros é importante, mas não é o fim, é importante assegurar pensões que possam eliminar a tentação de um regresso à guerra", frisou Carlos Matsinhe.

Os guerrilheiros, prosseguiu, devem ser dotados de meios de sobrevivência, incluindo competências profissionais, para o caso dos mais jovens, que lhes permitam a recuperação do tempo perdido nas matas.

Nikkie Wiegink, autora do livro "Antigos guerrilheiros em Moçambique", assinalou que os homens armados da Renamo exigem um "estatuto social" como o atribuído pelo Governo da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), partido no poder, aos antigos combatentes que lutaram durante dez anos pela independência do país contra o colonialismo português.

"É preciso assegurar que os guerrilheiros não sejam esquecidos, que são tratados com dignidade, porque assumem que lutaram pela democracia, tal como os antigos combatentes, que são tratados como libertadores", frisou Nikkie Wiegink, da Universidade de Utrecht.

Eduardo Namburete, deputado da Renamo e docente na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), a maior e mais antiga de Moçambique, assinalou que a construção de uma paz duradoura em Moçambique depende da realização de processos eleitorais transparentes, porque os conflitos armados são provocados pela fraude nas eleições.

"A construção da paz depende da remoção das causas de fundo dos conflitos, porque os conflitos armados têm na sua raiz a forma como são conduzidos os processos eleitorais", sublinhou Eduardo Namburete.

Hoje passa um ano após a assinatura do Acordo de Paz e Reconciliação Nacional entre o Presidente da República, Filipe Nyusi, e o líder da Renamo, Ossufo Momade.

Ao abrigo do acordo, mais de 500 antigos guerrilheiros da Renamo - da meta de pouco mais de 5.000- foram desmobilizados no âmbito do DDR.

Logo após a assinatura do pacto, a Junta Militar da Renamo, uma dissidência da guerrilha do principal partido da oposição, iniciou ataques armados a alvos civis e das Forças de Defesa e Segurança (FDS) em alguns distritos e troços de estrada da região centro do país.

O entendimento é o terceiro entre o Governo da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e a Renamo, desde a assinatura do Acordo Geral de Paz (AGP) em 1992, que pôs termo a 16 anos de guerra civil à escala nacional.

Os dois acordos resultaram de confrontos entre as forças governamentais e a guerrilha da Renamo na sequência da contestação dos resultados eleitorais pelo principal partido da oposição.

Além da instabilidade na região centro, o país está a braços com ataques armados no norte do país, alguns dos quais reivindicados pelo Estado Islâmico (EI), que já provocaram mais de mil mortos.

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