Trata-se do incidente mais sério entre Damasco e Ancara desde a intervenção da Turquia no conflito sírio em 2016, para combater o grupo Estado Islâmico (EI) e neutralizar o progresso das forças curdas perto da sua fronteira.

Até ao momento, os confrontos diretos entre a Turquia, que apoia os rebeldes sírios, e as forças do regime sírio de Bashar al-Assad foram raros, desde o início da guerra em 2011.

A crer nas informações providenciadas pelo Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), a refrega, que teve hoje lugar, começou após disparos por parte das tropas de Bashar al-Assad contra posições turcas.

A Turquia já informou que quatro dos seus soldados foram mortos e nove ficaram feridos por tiros de artilharia, tendo ainda acrescentado que o seu exército respondeu ao ataque e "destruiu vários alvos".

Ainda segundo o OSDH, pelo menos 13 soldados do regime sírio morreram e outros 20 ficaram feridos, em represália.

Todavia, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan indicou, entretanto, que "entre 30 a 35" soldados sírios morreram. Mas a agência oficial síria Sana negou que tenham existido mortos nas fileiras do exército.

Entre os civis, pelo menos nove pessoas morreram, incluindo quatro crianças, e 20 ficaram feridos em bombardeamentos aéreos no noroeste da Síria, onde as forças do regime, aliadas ao exército russo, combatem os jihadistas e as forças rebeldes, diz o OSDH, embora a mesma não tenha avançado informações sobre a autoria dos ataques.

"Aviões de combate atacaram um carro que transportava pessoas deslocadas", disse à AFP o diretor do OSDH, Rami Abdel Rahman. Sete membros da mesma família estão entre as vítimas, acrescentou.

Regime sírio tem de “prestar contas”, ameça Erdogan

Os combates entre soldados sírios e turcos ocorreram alguns dias depois de o presidente turco ter acusado a Rússia de "não honrar" os acordos bilaterais entre os dois países, destinados a impedir uma grande ofensiva do regime sírio no noroeste do país. "Continuaremos a pedir que prestem contas", alertou Erdogan, que pediu à Rússia que não "impeça" a resposta turca.

O ministério da Defesa turco informou que os militares atacados foram enviados a Idlib para reforçar os postos de observação do exército na região.

O porta-voz do partido de Erdogan, o AKP, disse, ainda, que o regime sírio atacou os soldados turcos porque se sentia "protegido pelo guarda-chuva russo".

Por sua vez, o ministério da Defesa da Rússia afirmou que o grupo de soldados turcos realizava movimentos na província, sob tensão militar, de Idlib, sem ter avisado o governo russo dessas mesmas ações.

A Turquia destacou militares para 12 postos de observação na região de Idlib, no âmbito de um acordo concluído com a Rússia para acabar com a violência no último reduto jihadista e rebelde na Síria. Todavia, as forças de Bashar Al-Assad intensificaram a sua ofensiva militar nesta província, e têm vindo a ganhar terreno. Na quarta-feira, por exemplo, reconquistaram a cidade estratégica de Maret al-Numan, a segunda maior cidade da província de Idlib.

Diante desse avanço, Erdogan ameaçou na semana passada recorrer à "força militar".

Mais de metade da província de Idlib, assim como os territórios vizinhos das regiões de Alepo, Hama e Latakia são controlados pelos jihadistas da Hayat Tahrir al Sham (HTS), uma ex-facção da Al-Qaeda da Síria.

Com o apoio de Moscovo, mas também do Irão, o regime sírio registou importantes vitórias nos últimos dois anos e agora controla mais de 70% do território nacional, de acordo com o OSDH.

Desde o início de dezembro, cerca de 388 mil pessoas foram obrigadas a fugir e a deslocar-se de onde viviam para outras zonas, devido aos bombardeamentos aéreos e aos combates, avisa a ONU.

O próprio secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, pediu no sábado que cessassem "imediatamente" as hostilidades no noroeste da Síria, tendo afirmado que estava "profundamente preocupado" com o crescendo da tensão e do conflito militar.

A guerra na Síria, iniciada há quase nove anos, já deixou um rasto de mais de 380 mil mortos e provocou uma onda de milhões de deslocados e refugiados.

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