"O problema de fundo, que acaba por abarcar várias esferas, é a corrupção. O chefe de Estado tem-se referido muito a isto, mas sem um programa sério de promoção da integridade e de combate à corrupção, que seja feito através da liderança pelo exemplo, há até o risco de o país colapsar", defendeu Ericino de Salema.

O também jurista e jornalista falava durante uma conferência sobre direitos humanos em África, promovida pela organização Amnistia Internacional Portugal, no âmbito do II Fórum da Coragem, iniciativa que visa homenagear a coragem dos ativistas e defensores dos direitos humanos.

"Vários recursos são desviados daquilo que seriam áreas de interesse público em termos de investimento para bolsos de cidadãos e famílias, para indivíduos que se aproveitam do Estado para enriquecer ilicitamente", disse.

Para o ativista, “é uma ameaça muito séria, muito profunda, não só para os direitos humanos, mas também para a nossa própria existência enquanto estado soberano".

Ericino de Salema traçou ainda uma relação entre a corrupção e a situação dos direitos humanos no país.

"Na dimensão formal e olhando para a Constituição da República e para as leis, Moçambique está muito bem, mas a prática é desafiante", afirmou.

O diretor do EISA considerou que os desafios estão, entre outros aspetos, numa polícia que "não é pró-direitos humanos", numa "justiça lenta que se torna injustiça" e em instituições que "ainda não estão num patamar" que permita uma "proteção condigna dos direitos humanos".

A coragem de Ericino de Salema, que já foi sequestrado e agredido por duas vezes, foi apontada como exemplo durante a conferência, mas quando questionado pelos jornalistas sobre o seu caso, o também especialista em questões de direitos humanos considerou que tem obrigação de agir.

"Não faço nada de extraordinário. O único país que tenho é Moçambique. Acho que é o meu dever agir dentro do quadro legal e constitucional, manifestar a minha opinião e denunciar o que acho que não está bem. Claro que, num contexto adverso, há riscos. A coragem não implica que não se tenha medo, mas que se supere esse medo", salientou.

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