Reza a história que Nossa Senhora apareceu duas vezes na vila da Muxima, na Kissama, daí este local ser já sagrado para os fiéis ao culto mariano e um destino religioso com tradição. Por isto, um novo santuário deverá estar erguido em quatro anos e terá capacidade para acolher até 120 mil pessoas.

 
Quando o divino abraça o terreno a obra surge. Talvez esta seja a melhor frase para descrever o novo santuário que está a ser construído em Luanda, na vila de Muxima e cujo nome baptizou a nova catedral. Talvez por significar coração. Talvez por ser um chamamento a todos os corações fiéis a Maria, talvez porque uma das frases mais emblemáticas da Igreja Católica seja Amai-vos uns aos outros!

 Júlio Quaresma, arquitecto e artista plástico responsável pela obra projectou a geometria do divino neste espaço sagrado. “Em Março de 2008 propuseram-me este desafio. Fiz um estudo exaustivo das movimentações tradicionais dos crentes onde fazem as compras, tomam banho, como usam o espaço religioso e colocam as oferendas. O intuito é manter os rituais das pessoas”, explica. Todos os meses vai a Angola e espera concluir todo o projecto em quatro anos. No dia 20 de Março a Nova Igreja foi abençoada pelo papa Bento XVI em presença de José Eduardo dos Santos, Presidente de Angola.

 Mas este projecto de cerca de 40 milhões de euros é muito mais do que um santuário. A vila do Muxima ganhará uma escola, um posto de polícia, centro de saúde, restaurante, hotel com duas ou três estrelas, zona comercial formal e informal, centro comunitário, parque de campismo, espaços verdes e infra-estruturas (redes eléctricas, esgotos e água) e ainda uma área agrícola para os habitantes da vila poderem explorar. No plano tecnológico está ainda incluído o uso de painéis solares. Na margem oposta será construído um complexo turístico.

  

O SANTUÁRIO
A construção do santuário envolve uma capela, praça para 120 mil fiéis e uma Nova Igreja da Nossa Senhora da Muxima (coração em Kimbundo). Esta desenha-se sobre a área de culto católico, mais emblemática de Angola e projecta-se como centro de um culto mariano tipicamente angolano estruturado a partir de uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição ali conhecida como Nossa Senhora da Muxima.

 

A capela actual, situada na margem esquerda do rio Kuanza posiciona-se, a par do forte, como epicentro de um pequeno aglomerado urbano, a Vila da Muxima, e que a partir dela se desenvolve de modo informal entre a margem e os morros.

A nova Igreja assenta em três figuras geométricas: quadrado, círculo e triângulo. O primeiro simboliza a terra, o segundo o céu e o terceiro a Santíssima Trindade. Todo o corredor é acolhido pelo corpo e braços de Cristo pregado na Cruz. E quem olhar com detalhe verá que é de braços abertos que o filho de Deus recebe os peregrinos em sua casa, pois as suas mãos estão religiosamente colocadas à entrada de cada porta.

 

 Mais: o percurso do caminho da cruz, aparece em sentido figurado no longo corredor até ao altar. Aí o crente como que abandona o mundo das trevas ao vislumbrar a luz que emana pela cobertura em forma de círculo (céu) revestida a vitrais, um elemento recorrente da arquitectura religiosa medieval. Nesta obra há algumas mensagens subliminares, uma delas tem a ver com o facto de ao utilizar painéis solares na cobertura da Igreja Júlio Quaresma, garante a sua sustentabilidade energética mas passa ao mesmo tempo uma mensagem simbólica, ou seja a Igreja do Muxima é fonte de luz. Júlio Quaresma concebeu ainda um painel junto ao presbitério onde ficará suspensa no ar uma imagem de Cristo.

 Há ainda um forte construído em 1599 que teve um importante papel na resistência durante o domínio holandês mas também durante a guerra Kwata Kwata e tal como a capela foi considerado Monumento Nacional. Neste momento os locais sobem até lá para colocar as oferendas. Júlio Quaresma estudou ao pormenor todas estas movimentações e projectou o santuário respeitando estas questões culturais.

 Quem é Júlio Quaresma?

É arquitecto e artista plástico. Nasceu a 10 de Fevereiro, em Lunda, Angola. É irreverente, frontal, criativo e arrojado. O seu currículo tem várias páginas e já tem obra feita. A sua casa, no centro de Lisboa, revela a sua personalidade afável e mas ao mesmo tempo dilacerante. As paredes são azuis claras, um pedaço de céu na sua vida, explica. Depois na sala de jantar concebeu a mesa dos afectos onde coloca cada foto de quem é realmente importante para si. Pormenor: estão presas a um rendilhado – talvez para não se escapulirem e são ainda belicamente guardadas por umas cadeiras de metal gigantes quase intransponíveis.

 Ainda caminhando no seu apartamento somos levados pelo local onde outrora haviam umas escadas de segurança, que agora deram lugar a uma plataforma de vidro azul que espelha os andares de baixo, dando a quem lá passa uma ideia de cair no abismo ou talvez seja uma entrada no céu- pois tudo é azul. Tem ainda um jardim com um aquário repleto de peixes, entre eles as Karpa Koi, conhecidas pelo seu poder relaxante, curativo e inspirador. São os peixes de eleição dos imperadores japoneses. Todas as manhãs Júlio Quaresma bebe um copo de água e vai dar-lhes comida. Um ritual que não dispensa.

É conhecido pelos seus projectos de solidariedade e por ser dedicado às causas nobres. É divertido, descontraído e teatral, talvez porque nas horas vagas também sobe ao palco. Curiosamente no último filme em que entrou vestiu a pele de um padre perverso.

  

 

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