Juntaram-se na noite de segunda-feira, 16, em Luanda, as culturas, as cores, os interesses e também as divergências, num "Reencontro" da RTP entre portugueses e angolanos, com o objectivo de mais uma vez estreitar os laços e simplificar os processos, no qual participaram ilustres convidados como Abraão Gourgel, Miguel Relvas, Albina Assis ou Zeinal Bava.

O programa emitido em directo pela RTP e pela TPA, apresentado por Fátima Campos Ferreira, a partir do hotel Sana em Luanda, trouxe a debate as mais diversas questões, algumas novas outras nem tanto: a atribuição de vistos, o investimento directo, a formação de quadros, a "lei do milhão", a abertura aos mercados da Europa, SADC e Estados Unidos da América, entre outras.

Num formato próximo ao "Prós e Contras", programa daquele canal português em que colocam frente a frente opiniões diferentes e abre espaço à discussão, Campos Ferreira indagou os seus convidados sem reservas.
Se Angola está disponível para as privatizações, o mininstro da Economia Abraão Gourgel afirma que sim. E se Angola vê Portugal como uma porta de acesso à Europa, o mesmo não nega essa possibilidade, mas defende que não faz parte ainda das prioridades da maior parte das empresas angolanas com negócios em Portugal.

A lei do milhão e a atribuição de vistos, ainda em debate

Apesar dos debates exaustivos sobre a lei do milhão, o tema é sempre colocado em cima da mesa como obstáculo ao investimento estrangeiro e ao português em particular.

Para o ministro da Economia, a lei vem incitar o investimento a longo prazo entre Portugal e Angola: "A legislação não visa desencorajar os investidores mas tornar o investimento mais eficaz". Justificando que "embora tenha havido um boom, a qualidade nem sempre foi a melhor para o país".

Apelando ao investimento directo, defende que a nova lei cria condições para qualificar o mesmo. Abraão Gourgel apontou também algumas vantagens que poderão cativar os empresários tanto portugueses quanto angolanos, entre as quais a abertura do mercado livre da SADC ou a possibilidade de empresas portuguesas poderem "pisar" mercados como o dos Estados Unidos da América sem pagamento de taxas, por serem exportadores a partir de Angola.

No que toca à velha questão dos vistos, o ministro é de opinião de que se deve "encontrar um paradigma ao nível estrutural que facilite a deslocalização de empresas entre Portugal e Angola" e promete discutir o tema no próximo encontro que irá ter com o ministro da economia português, Álvaro Santos Pereira.

Sobre o mesmo assunto Miguel Relvas foi assertivo: "Precisamos de simplificar processos dos dois lados".

Como é encarada a presença portuguesa

Chamando a atenção para o facto de que é preciso estar efectivamente em Angola, a engenheira Albina Assis quer mais interesse português em território angolano: "Não basta vir, fazer e ir embora. É importante vir, ficar e transferir know-how, dar formação aos quadros".

Tocando na crise portuguesa, Albina Assis apontou essa nova realidade do povo luso como único factor de incentivo à sua deslocação para Angola: "Os portugueses agora vêm para cá porque Portugal está em crise".

Esta perspectiva foi no entanto negada por Miguel Relvas, ministro adjunto e dos Assuntos Parlamentares: "Há empresários portugueses a investir em Angola há mais de uma década, sem quaisquer reservas".

Angola, que já é considerada a segunda pátria por muitos portugueses que cá vivem, "pode contar com o apoio de Portugal no sector energético" defende o economista José Cerqueira, considerando que o reforço das relações bilaterais passa por essa área onde Portugal tem uma tecnologia "bastante avançada" e cujo desenvolvimento "tem todo o empenho das entidades angolanas". José Cerqueira inclui a gestão das cidades nas possíveis parcerias entre os dois países.

O economista acrescenta ainda no que toca ao investimento de Angola em Portugal, "o país está a tomar posições, principalmente na área da banca".

A "galinha dos ovos de ouro" quer aprender

A adaptar-se a esta nova realidade de destino para os empresários, Angola tem sido encarada como a "galinha dos ovos de ouro", uma solução para países em crise ou que simplesmente pretendem expandir o seu negócio. Mas pede-se não só dinheiro como também formação. Garantia de que a sabedoria também cá fica.

Empresários angolanos e Executivo pedem que a partilha de know how seja efectiva. Na sala lotada do Sana, muitos foram os exemplos de empresas que já o fazem, na área das telecomunicações, saúde e construção.

Para Zeinal  Bava, CEO da PT, convidado a participar no programa, é bastante satisfatório ver que a Unitel, empresa de telecomunicações cuja PT é sócia, tem trabalhado nesse sentido e com sucesso: "O que vi na Unitel foi uma empresa de tecnologias em que a maioria dos engenheiros é de nacionalidade angolana. Significa que temos conseguido passar esse know how".

Angola está não está fechada à sociedade civil

No debate em que a atleta Rosa Mota e os presidentes da Federação Angolana de Futebol, general Pedro Neto e da Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Gomes, também participaram Fátima Campos Ferreira  questionou Abraão Gourgel sobre corrupção, pouca abertura das entidades angolanas aos media adesão ao acordo ortográfico.

O economista José Cerqueira garantiu que o acordo ortográfico é "uma questão de tempo", acrescentando que "Angola não vai ficar de fora, aderir é inevitável".

Quanto à questão da corrupção, Abraão Gourgel lembrou à apresentadora portuguesa que essa situação não é exclusiva ao país e há cada vez mais maior disponibilidade do Executivo para a sociedade civil: "Discordo da posição de que não somos abertos. A tarefa de desburocratizacao é doméstica, embora Portugal possa ajudar.
Estamos a criar condições para desbloquear essa burocratização".

A conversa acesa que contou com políticos e empresários, juntou figuras das artes como os comediantes Tuneza, os músicos Paulo Flores, Simons Massini, Rui Veloso e Yuri da Cunha e os artistas plásticos Miguel Barros e Guilherme Mampuia.

Grande destaque para Mama Kuiba, figura emblemática da sociedade angolana, distinguida Diva do Povo em 2011. Amarrou o pano a Fátima Campos Ferreira, como gesto de agradecimento e entre kitutes e piadas deixou aos presentes a mensagem clara de que a relação entre os dois países devem ser bem gerida.

Fotos e texto@ Mayra Prata Fernandes

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.