O destino dos filhos de jihadistas que fugiram do último reduto do EI na Síria não pode ser ignorado, disse o diretor regional da Unicef para o Oriente Médio e Norte da África, Geert Cappelaere.

"A mensagem de que essas crianças são indesejáveis está a espalhar-se", disse Cappelaere, durante uma conferência de imprensa em Beirute, no Líbano.

Segundo a Unicef, cerca de três mil crianças estrangeiras estão em campos de refugiados de Al-Hol (nordeste da Síria), os quais abrigam a maioria das pessoas que fugiram, nas últimas semanas, do último reduto do EI, atacado pelas Forças Democráticas Sírias (FDS).

As crianças, essas, vêm de pelo menos 43 países, sendo que muitas dessas nações estão relutantes em repatriá-las e a aceitá-las na sua sociedade.

"É um problema que não pode ser escondido debaixo do tapete", disse Cappelaere, que apresentou um CD de canções infantis, coincidindo com o oitavo aniversário do conflito na Síria.

Cappelaere recordou o caso do genocídio no Ruanda em 1994. "Lá, vimos milhares de crianças associadas a pessoas que cometeram atrocidades. Essas crianças foram reintegradas com sucesso na sociedade ruandesa", afirmou, assegurando que o mesmo deveria ser feito na Síria e no Iraque.

No mesmo sentido, e igualmente na segunda-feira, o prémio Nobel da Paz Kailash Satyarthi pediu aos países europeus para proteger as crianças de jihadistas, poucos dias após a morte de um bebé num acampamento da Síria.

"Estas crianças não são jihadistas", disse em Paris, em entrevista à agência AFP, o ativista indiano que recebeu o prêmio Nobel da Paz em 2014 pela sua defesa incansável dos direitos das crianças.

"Se não formos capazes de fornecer cuidados adequados e proteção, assim como amor, respeito e o reconhecimento que merecem, como seres humanos, corremos o risco de que sejam explorados e manipulados", disse ele. "Seria melhor acolhê-los".

A questão do retorno de combatentes estrangeiros do EI e das suas famílias tem sido uma verdadeira dor de cabeça para as autoridades curdas, que exigem o seu repatriamento para os seus respetivos países.

Alguns países, incluindo a Rússia, têm repatriado os menores de idade, que são entregues a parentes ou famílias de acolhimento, mas o Reino Unido, a França e a Bélgica estão relutantes em fazê-lo.

"Eles podem ser filhos de jihadistas, suicidas ou terroristas. Nasceram nessas famílias, mas não são culpados por isso", disse Kailash Satyarthi.

A pressão para o repatriamento aumentou nos últimos dias, especialmente após o anúncio, na sexta-feira, da morte na Síria do bebé de uma jovem que perdera sua cidadania britânica ao ingressar no EI.

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