Nelson – nome fictício – é professor do ensino básico e enfrenta, neste momento, um processo disciplinar por ter publicado no Facebook um comentário em que critica a polícia.

Tudo começou, conforme conta à agência de notícias AFP, com uma denúncia anónima que fez ‘disparar’ a máquina administrativa das autoridades chinesas. Nelson não sabe quem possa ter feito a queixa, ainda mais porque as suas mensagens deveriam ser visíveis apenas para os seus ‘amigos’ daquela rede social.

O autor da delação, que a AFP diz ser um parente de um estudante, apresentou, em apoio à sua queixa, capturas de ecrã das publicações particulares de Nelson, denunciando o comportamento do mesmo à polícia.

Na base de tudo está o facto de as escolas e universidades de Hong Kong serem os focos de protesto a favor da democracia na ex-colónia britânica. Em 2012, por exemplo, dezenas de milhares de estudantes e professores saíram às ruas, em massa, para protestar contra as aulas sobre patriotismo que estavam a ser dadas, denunciadas como uma tentativa de fazer lavagem cerebral às crianças desta região, enchendo-as com o que chamam de propaganda chinesa.

Expressar opiniões nas redes sociais é um perigo

O atual movimento de contestação começou em junho, numa resposta de rejeição a um projeto de lei, entretanto abandonado, destinado a autorizar extradições para a China continental.

Desde então, o movimento aumentou o seu rol de reivindicações, passando a denunciar o que consideram ser uma interferência da China nos assuntos de uma região que é semiautónoma. Com frequência, as manifestações acabam em atos de violência entre manifestantes radicais e as forças policiais.

Desde junho, 6.500 pessoas foram detidas, confirma a polícia de Hong Kong. Destes, um terço são estudantes e cerca de 80 são professores.

Após uma investigação, a escola onde Nelson trabalha confirmou que ele nunca tinha falado sobre política nas suas aulas. No entanto, as autoridades responsáveis pelo sistema educativo de Hong Kong continuam a exigir que o professor explique cada uma das suas publicações no Facebook.

As autoridades "estão a ir longe demais", acusa. "Quando não estou no trabalho, não estou mais no trabalho. É o mesmo com a polícia. Se eles não estão no trabalho, podem dizer o que querem no Weibo", acrescenta, citando o nome de uma rede social muito popular na China.

Face ao que aconteceu, Nelson apagou a sua conta pessoal no Facebook e tornou-se muito cauteloso nas publicações que faz em outras redes sociais, ao ponto de não mais escrever a palavra ‘polícia’.

Essa autocensura faz recordar o caso dos trabalhadores da companhia aérea Cathay Pacific de Hong Kong que, no ano passado, desativaram as suas contas nas redes sociais após alguns colegas terem alegado que foram despedidos por ter um posicionamento em favor da democracia.

Entretanto, o Secretário da Educação para Hong Kong, Kevin Yeung (em funções desde 2017) prometeu sanções disciplinares exemplares contra os professores detidos, incluindo a revogação do seu certificado de professor, tendo feito a observação de que existe "um pequeno número de ovelhas negras no setor educacional".

Yeung também disse aos membros do Conselho Legislativo, o parlamento local, que a maioria das reclamações contra professores se devia a "mensagens inadequadas nas redes sociais, conteúdo odioso, malicioso, mensagens de insulto ou apologia à violência".

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