O "irritante", como lhe chamou o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, numa expressão que vingou para caracterizar o impasse nas relações luso-angolanas, foi a acusação judicial ao ex-vice-Presidente de Angola, Manuel Vicente, a quem o Ministério Público português imputou crimes de corrupção activa, branqueamento de capitais e falsificação de documentos.

Em Fevereiro de 2017, Marcelo Rebelo de Sousa enquadrou essa acusação pelo Ministério Público como o "funcionamento normal das instituições", salientando que "há uma separação de poderes em Portugal".

Enquanto o caso judicial não foi transferido para a justiça angolana, o que aconteceu em maio do ano passado, as autoridades políticas de Angola "congelaram" visitas de alto nível, tomando como "uma ofensa" a actuação do Estado português.

O Presidente português foi sucessivas vezes questionado sobre uma futura visita sua a Angola e procurou sempre desdramatizar o assunto, dizendo que 2017 era um ano "muito cheio".

Na sequência das eleições gerais de 23 de Agosto desse ano em Angola, Marcelo Rebelo de Sousa felicitou o novo Presidente angolano eleito, João Lourenço, do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), antes da publicação dos resultados finais, o que lhe valeu críticas de activistas angolanos e da direcção da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA).

O Presidente português foi à posse de João Lourenço, no dia 26 de Setembro, em Luanda, e na véspera encontrou-se com o seu antecessor, José Eduardo dos Santos, que deixou o poder em Angola ao fim de 38 anos.

Na altura, apesar de o novo Presidente angolano ter deixado Portugal de fora da lista de países parceiros no seu discurso, Marcelo Rebelo de Sousa qualificou as relações bilaterais como "muito boas", considerando "impressionante" a ovação que recebeu na cerimónia de posse, "de longe a maior", lamentando que "um ou outro português distraído" a tenha confundido com uma vaia.

Em Novembro desse ano, questionado sobre as alterações feitas pelo novo Presidente de Angola em empresas públicas angolanas, que incluíram a retirada da Sonangol e do canal público de televisão dos filhos do seu antecessor, Marcelo Rebelo de Sousa não as quis comentar directamente.

No entanto, afirmou que acompanhava a situação, citando versos de Sophia de Mello Breyner: "Todos nós vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar".

Em março de 2018, o Presidente português defendeu que uma visita sua a Angola deveria ser "a última etapa de um processo" em curso, que na altura estava situado ao nível ministerial, e que teria de passar entretanto para o nível do primeiro-ministro, seguindo "as várias etapas".

A transferência do caso de Manuel Vicente para a justiça angolana, dois meses mais tarde, decidida pelo Tribunal da Relação de Lisboa fez "desaparecer o irritante" nas relações entre Portugal e Angola, comentou na altura Marcelo Rebelo de Sousa.

O primeiro-ministro português, António Costa, visitaria Angola em Setembro desse ano, ao que se seguiria uma visita de Estado de João Lourenço a Portugal, em Novembro.

No dia da decisão do Tribunal da Relação de Lisboa, os dois chefes de Estado falaram por telefone. João Lourenço escreveu no Twitter que se congratularam "pelo feliz desfecho". Marcelo referiu, numa nota, que expressaram "a vontade de desenvolver a cooperação a todos os níveis".

Em Julho, o Presidente português pediu "passos que sejam seguros" nas relações bilaterais, considerando que "a expectativa é altíssima" por parte empresários e trabalhadores nos dois países e "a realidade é promissora".

No que respeita à governação de João Lourenço, quando este cumpriu um ano de mandato, em Setembro do ano passado, Marcelo Rebelo de Sousa elogiou "o dinamismo, a energia, a imaginação" do Presidente angolano e "o momento muito bom das relações bilaterais".

Durante a visita de Estado de João Lourenço a Portugal, em Novembro, o Presidente português considerou que se iniciava "um novo ciclo promissor" no relacionamento entre os dois países.

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