Reconhecido como presidente interino por mais de 50 países, encabeçados pelos Estados Unidos da América, Guaidó conseguiu que as autoridades do país não o prendessem quando regressou à Venezuela, na segunda-feira passada, após fazer tábua rasa de uma proibição que não o deixava sair do país.

A batalha pelo poder, na Venezuela, continua. Veja os rumos que, segundo alguns analistas contactados pela agência de notícias AFP, a crise poderá seguir.

Pressionar até o regime entrar em colapso? Um tiro que pode sair pela culatra

Apesar de respaldado por um forte apoio popular, Guaidó fracassou na sua tentativa de fazer entrar no país alimentos e fármacos, doados, procedentes dos Estados Unidos, através da fronteira com a Colômbia, o que representaria um exercício inaceitável de poder para Maduro.

Quando Guaidó regressou, contudo, prometeu intensificar os protestos e o cerco diplomático ao líder socialista, com greves no setor público e pedidos à União Europeia para que endureça as sanções ao governo.

Essa pressão pode levar alguns comandantes militares a ‘abraçar’ Guaidó e fazer "colapsar o regime, abrindo o caminho para uma transição com eleições”, disse à AFP Michael Shifter, presidente do Inter-American Dialogue, um think tank com sede em Washington. Contudo, acrescenta, “até ao momento há poucos sinais de que isso irá acontecer, mas é possível".

No entanto, as sanções do presidente Donald Trump para sufocar Maduro, incluindo um embargo petrolífero, podem agravar as condições de vida já duras da população "antes de causar o colapso do Governo e, eventualmente, contaminar a imagem” de Guaidó, adverte o analista venezuelano e diretor do instituto de pesquisas Datanálisis, Luis Vicente León.

Pelo meio, politólogos como Luis Salamanca acreditam que Maduro está a apostar no "desgaste" de Guaidó.

Negociação político-militar

Nicolás Maduro tem uma aprovação popular de apenas 14%, segundo uma sondagem da Datanálisis, mas tem a seu lado a lealdade da alta cúpula militar. Neste contexto, Guaidó busca romper com esse vínculo.

Para isso, está disposto a oferecer uma amnistia aos que abandonarem Maduro, excluindo os acusados de crimes contra a humanidade. Alguns especialistas consideram a proposta de Guaidó como sendo vaga. Além do mais, e a crer nas suas palavras, cerca de 700 soldados e polícias abandonaram Maduro nas últimas semanas, embora nenhum seja um militar de alta patente.

Uma rutura entre o Governo de Maduro e a cúpula militar exigiria negociações, com garantias específicas para os comandantes envolvidos em suspeitas de corrupção e de violação de direitos humanos, sendo que estes últimos podem ter muito a perder devido aos amplos interesses económicos a que estão ligados. "A transição [neste formato] levaria mais tempo, mas aumentaria a probabilidade de não ser violenta", adianta Michael Shifter.

Por sua vez, Luis Vicente León acredita que os militares temem ser esmagados por um novo governo, ou por um eventual fracasso de uma rebelião contra Maduro. Com isso, uma possível rutura "requer uma amnistia difícil, não genérica, mas negociada face a face".

Este cenário pode levar a um governo misto, com diferentes partes envolvidas, no qual os militares preservam o controlo das suas forças, como garantia de autoproteção", acrescenta.

Golpe de estado ou invasão?

Um terceiro cenário seria os militares virarem as costas a Maduro e organizarem eleições, mas também pode ser que ocorra um golpe de estado tradicional, menciona Shifter. "O cenário de uma intervenção militar, liderada pelos Estados Unidos, parece cada vez menos provável, mas não pode ser descartado, dependendo de como a situação vai desenvolver-se", alerta o analista.

Embora Guaidó tenha pedido para que se tenha em consideração todas as opções, o Grupo de Lima, um bloco de países que reconhece o opositor como líder da Venezuela, já veio descartar uma solução por via da força das armas.

No entanto, para Diego Moya-Ocampos, do IHS Markit, uma empresa de análise de informação com sede em Londres, a hipótese de uma invasão militar "permanece sobre a mesa pela magnitude e escala da crise humanitária e a possibilidade de que Maduro possa atacar Guaidó ou o Parlamento", cujos membros são maioritariamente opositores ao Governo.

Uma intervenção militar também poderia desencadear uma violência anárquica com a participação de esquadrões apoiados pelo Governo, como ocorreu durante a entrada fracassada das doações, assinala Luis Vicente Leó, da Datanálisis.

Um conflito regional, com a intervenção de guerrilheiros colombianos que se movem na fronteira, também não pode ser descartado, estima Shifter.

"Do lado dos que estão motivado a tomar uma ação mais dura, devemos ter em conta o compromisso de Trump em resolver este problema antes das eleições e [de possivelmente] garantir a sua reeleição [em 2020]. Isto faz pensar que qualquer coisa pode acontecer, menos a manutenção do status quo", observa o diretor da Datanálisis.

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