Nos últimos dias, muitos cidadãos oriundos do continente africano alegam terem sido vítimas de despejos, proibidos de entrar em lojas, colocados em quarentena e sofrido controlos abusivos, após a descoberta de vários casos positivos de coronavírus na comunidade nigeriana da cidade chinesa de Guangzhou.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Nigéria, Geoffrey Onyeama, chegou a receber o embaixador chinês em Abuja, capital do país, na terça-feira, para informá-lo de que "a situação é extremamente dolorosa e inaceitável para o governo e o povo nigeriano”, exigindo “uma ação imediata".

A própria União Africana (UA) transmitiu à China, no sábado, a sua "extrema preocupação" com a situação dos africanos, tendo solicitado ao governo chinês que "tome medidas corretivas imediatas".

Segundo fontes diplomáticas, cerca de 20 países africanos prepararam uma carta para ser entregue às autoridades máximas da China, na qual expressam a sua convicção de que as avaliações e quarentenas impostas especificamente aos seus cidadãos equivalem a "racismo". Segundo o documento, trata-se de "uma evidente violação dos direitos humanos".

Esta tempestade nas relações diplomáticas entre África e China, que começou após cinco nigerianos de Guangzhou terem acusado positivo para o novo coronavírus – foram depois colocados em quarentena –, já provocou protestos e uma avalanche de comentários xenófobos na Internet.

Africanos na China falam de fome e dizem que dormem na rua

De acordo com a agência Xinhua, a agência de notícias oficial do governo chinês, 4.553 africanos, correspondente a toda a população africana de Guangzhou, foram testados para saber se têm a COVID-19, isto desde 4 de abril, sendo que em 111 deles foi detetado o coronavírus.

No entanto, vários cidadãos africanos denunciaram à agência AFP que foram expulsos das suas casas, rejeitados em hotéis e restaurantes e, em muitos casos, tiveram de dormir na rua ou debaixo de pontes, sem nada para comer.

O caso é um problema para Pequim, pois o país aumentou a sua proximidade para com o continente africano nas últimas semanas, através do envio de pessoal médico, equipamentos de saúde e ajuda financeira.

EUA aproveitam situação para um ataque verbal estratégico ao rival

Esse cenário agravou-se depois de os Estados Unidos da América (EUA) terem denunciado o que chamam de "xenofobia das autoridades chinesas", embora estas duras palavras tenham de ser enquadradas num contexto de confronto estratégico entre as duas potências mundiais.

Até agora, o governo de Donald Trump não demonstrou qualquer tipo de interesse com o que se passa no continente africano, mas tem vindo a alertar os países de África, regularmente, contra as intenções da China, cujos investimentos e empréstimos são, segundo Washington, motivados por motivos ocultos e hostis.

"Os abusos e maus-tratos dos africanos que vivem e trabalham na China lembram tristemente o quão oca é a parceria entre a República Popular da China e África", disse à AFP um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA.

É um “parceiro” e um “irmão”, reafirma a China para com África

Diante desta pressão diplomática, a China rejeitou no domingo qualquer espécie de "racismo" e prometeu "melhorar" o tratamento dos africanos dentro das suas fronteiras. Além disso, 20 embaixadores africanos foram recebidos na segunda-feira pelo Ministério dos Negócios Estrangeiro chinês, em Pequim, numa tentativa de os tranquilizar.

"O povo chinês sempre viu o povo africano como um parceiro e um irmão que compartilham as mesmas dificuldades e os mesmos problemas", disse Zhao Lijian, vice-diretor do Departamento de Informação do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Durante a última década, a China tornou-se no principal parceiro comercial do continente africano, à frente dos Estados Unidos, distribuindo milhares de milhões de dólares pelas nações de África, para a construção de grandes infraestruturas, muitas vezes em troca dos seus recursos minerais.

Diplomacia na forma de ajuda médica

Com a pandemia de coronavírus a varrer o globo, o setor da saúde tornou-se um novo instrumento diplomático para Pequim, principalmente por meio de filantropos bilionários como Jack Ma, fundador do gigante de vendas online Alibaba e membro do Partido Comunista Chinês, ou por via das suas poderosas empresas de telecomunicações, como a Huawei.

No final de março, milhões de máscaras faciais, kits de testes de diagnóstico e equipamentos de proteção foram entregues em Adis Abeba, capital da Etiópia, destinados à União Africana e para serem redistribuídos pelo continente.

As ajudas vindas da China incluem ainda, por exemplo, um avião carregado com equipamentos e um grupo de 15 médicos chineses que aterrou a 8 de abril no aeroporto de Abuja, capital da Nigéria.

A África do Sul, o país mais afetado do continente, com 2.272 casos confirmados e 27 mortes devido à COVID-19, também recebeu na terça-feira um segundo lote de equipamentos médicos gratuitos, que incluem 50 mil máscaras cirúrgicas médicas e 11 mil pares de luvas cirúrgicas. Um terceiro lote de material é esperado para breve.

Face a estas remessas de ajuda, a embaixada da China na África do Sul frisou que, desde o início da epidemia, "a China ajudou 54 países africanos, incluindo aqueles que não estabeleceram laços diplomáticos" com Pequim.

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