"Estamos a testemunhar severos níveis de fome e mal-nutrição em todas as cidades e aldeias em que atuamos", disse Ulrika Blom, diretora nacional do CNR na RDCongo, acrescentando que "os novos números na insegurança alimentar são incrivelmente alarmantes".

A organização não-governamental (ONG) cita um relatório conjunto entre o Programa Alimentar Mundial (PAM), a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Ministério da Agricultura da RDCongo, lançado no final de Agosto e que contabiliza pelo menos 15 milhões de pessoas nesta situação.

O valor quase que duplicou em relação ao ano passado, quando esta situação afectava cerca de 7,7 milhões de pessoas no país, cuja população ronda os 78 milhões.

Esta insegurança alimentar está, de acordo com a ONG, concentrada em dez províncias afectadas pela violência, sendo que os deslocados resultantes dos conflitos se deparam com uma maior dificuldade em aceder a comida.

"Em cidades como Beni, sabemos de centenas de agricultores paralisados pelo medo de serem mortos por grupos armados que se recusam a ir trabalhar até nos seus terrenos", afirmou Blom.

De acordo com a responsável, o clima de violência tem prejudicado as economias locais e levado à procura de alternativas menos convencionais.

"Temos visto pessoas a comerem sementes em estado natural [não cozinhadas] que recebem para plantar, numa tentativa de satisfazer a sua fome. Os pais estão a ficar sem comida porque usam as míseras porções que obtêm para alimentar as suas crianças", acrescentou Blom.

O CNR regista ainda alguns relatos de mulheres e raparigas que se prostituem para obter dinheiro para comprar comida, e de homens e rapazes que se alistam em grupos armados pela promessa de refeições regulares.

Alguns pais na zona de Fizi, no Kivu do Sul, diz a ONG, tiraram os seus filhos menores das escolas para os enviarem para trabalharam nas minas.

Nos últimos 12 meses, a produção de comida na RDCongo tem diminuído, sendo que a produção de milho, mandioca e arroz viu uma diminuição média de 39% face à temporada anterior.

Segundo o CNR, a RDCongo apenas recebeu 28% dos 1.700 milhões de dólares (1.466 milhões de euros) necessários para combater as necessidades humanitárias na RDCongo em 2018.

O CNR está na RDCongo desde 2001 e está presente nas províncias de Kivu do Norte, Kivu do Sul, Ituri, Tanganyika e Kasai-Central.

Kivu do Norte e Ituri têm sido particularmente afectadas pelo Ébola e por conflitos na zona.

No caso do Ébola, o vírus da febre hemorrágica já terá levado à morte de 139 pessoas e infectado mais de 200.

Os conflitos que assolam Kivu do Norte forçaram, nos primeiros oito meses do ano, 750.000 pessoas a deslocarem-se.

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