No início da última semana, a Domino's Pizza pediu desculpas por uma promoção realizada na Austrália e na Nova Zelândia oferecendo pizza grátis a "boas Karens".

A empresa não escolheu o nome Karen por acaso. "Karen" se tornou, nos últimos anos, um tipo de meme bastante conhecido que faz referência a um tipo específico de mulher branca de classe média com comportamentos de quem está acostumado a privilégios e se sente superior a outras pessoas.

Para dar alguns exemplos, "Karen" é o tipo de pessoa que exige "falar com o gerente" para menosprezar trabalhadores do setor de serviços, é antivacinação e pratica microagressões racistas, como pedir para tocar no cabelo de pessoas negras.

Mas uma característica predominante do estereótipo "Karen" é que elas transformam sua posição de relativo privilégio em uma arma contra pessoas não-brancas, por exemplo, ao fazer denúncias policiais contra negros por pequenas ou até — em numerosos casos — infrações fictícias.

Nos últimos meses, o meme evoluiu para algo novo: a Karen do coronavírus. Essa forma particular de Karen se recusa a usar máscara nas lojas, não fica em quarentena e acha que toda a pandemia é exagerada.

Mas, à medida que o meme se torna cada vez mais popular, alguns argumentam que ele é sexista e revela um preconceito contra idosos.

De onde veio o meme?

Embora sua origem exata seja incerta, o meme se popularizou alguns anos atrás como uma maneira de pessoas de cor, principalmente americanos negros, satirizarem a hostilidade baseada em diferença de classe e racismo que enfrentam com frequência.

Na última década, quando foi ficando mais fácil filmar confrontos com smartphones, incidentes começaram a ser capturados e enviados para as redes sociais com muito mais facilidade. Um desses casos foi o de uma mulher chamando a polícia ao ver uma criança negra de 8 anos que estava vendendo água sem permissão.

Quando esses vídeos inevitavelmente se tornavam virais, as personagens no centro da ação acabavam sendo batizadas com apelidos mais ou menos ligados à situação.

A mulher que reclamou da criança vendendo água foi apelidada de "Permit Patty" (permit é permissão em inglês). Outra mulher que chamou a polícia quando uma família negra estava fazendo um churrasco foi chamada de "BBQ Becky" (BBQ = barbecue = churrasco). E uma mulher branca que, sentada em um carrinho de golfe, ligou para a emergência por causa de um pai negro que acompanhava uma partida de futebol, foi chamada de "Golfcart Gail".

Essa tendência explodiu em 2018 e, finalmente, todos esses nomes foram destilados em um ou dois dos mais populares -— incluindo Karen.

Também se tornou sinônimo de um tipo específico de penteado — especificamente, o corte curto e agitado exibido pela personalidade de reality show americana Kate Gosselin em 2010 (Gosselin mudou seu penteado desde então).

E, nos últimos meses, surgiu uma versão masculina do meme Karen, embora seja menos usada: Ken. Em junho, quando o casal rico Patricia e Mark McCloskey foram fotografados apontando armas para manifestantes que passavam em frente a sua casa em St. Louis, no Missouri, eles foram amplamente apelidados de "Karen e Ken".

O que é uma 'Karen do coronavírus'?

O uso de máscaras ou outras coberturas faciais nessa pandemia virou um assunto extremamente politizado nos Estados Unidos, com algumas pessoas insistindo que o uso obrigatório seria uma afronta à liberdade pessoal.

Desde que o coronavírus chegou ao país, tornaram-se virais nas redes sociais vídeos de pessoas que se recusam a usar máscaras em lojas e restaurantes, muitas vezes repreendendo os trabalhadores.

Recusar-se agressivamente a usar uma cobertura de rosto para ajudar a proteger outras pessoas do vírus foi visto como uma nova característica do estereótipo da Karen que assedia trabalhadores do setor de comércio e serviços. Pessoas que compartilham fake news e teorias da conspiração sobre coronavírus nas redes sociais também são chamadas de Karens.

Nos EUA, assim como no Reino Unido, a covid-19 também se tornou uma questão ligada a tensões raciais. A pandemia afeta desproporcionalmente pessoas de origem negra e de outras minorias étnicas.

A recusa de algumas pessoas em reconhecer os riscos associados ao vírus e de estarem protegidos desses riscos por seus privilégios de brancos também tem sido vista como comportamento de "Karen".

E quanto ao racismo?

No Memorial Day deste ano, 25 de maio, Christian Cooper estava andando no Central Park, em Nova York, quando encontrou uma mulher chamada Amy Cooper (sem parentesco), que havia deixado seu cachorro sem coleira em uma área do parque em que ela era obrigatória.

Ele pediu que ela colocasse seu cachorro de volta na coleira. Sua resposta foi ligar para o 911 e, em tom dramático, dizer aos operadores que "há um homem afro-americano ameaçando minha vida". Todo o intercâmbio foi filmado, postado na mídia social, e Cooper passou a ser conhecida como "Central Park Karen".

George Floyd fora morto por policiais em Minneapolis naquele mesmo dia, poucas horas após o incidente no Central Park - e muitas pessoas vincularam o racismo de "Karens" como Amy Cooper à questão mais ampla do racismo sistêmico e da brutalidade policial.

O meme de Karen é sexista?

Em abril, a feminista britânica Julie Bindel tuitou: "Alguém mais acha que a ofensa 'Karen' tem uma conotação de ódio a mulheres e é baseada em preconceito de classe?"

Esse argumento foi repetido nos últimos meses, à medida que o meme (de 'Central Park Karen') foi ficando cada vez mais em evidência nas redes. No entanto, as pessoas que usam o termo "Karen" salientam que não se trata de uma menção genérica para mulheres brancas de meia idade - ele é definido mais pelo comportamento da pessoa.

Por exemplo, a escritora Karen Geier - uma Karen no sentido tradicional (ou seja, apenas chamada Karen) - respondeu a Bindel: "Como a única Karen respondendo a você: 'Não. Se você tem um problema em ser chamado de 'uma Karen' então não seja uma?' Eu não chamo a polícia nem peça para falar com o gerente. Muito simples! "

Então, quando Karen não é 'Karen'?

O bloco Wall of Moms (Muro das Mães), bastante atuante na atual onda de protestos contra racismo em Portland, Oregon, é um bom exemplo de mulheres brancas de meia-idade e de classe média que explicitamente não são 'Karens'.

Em vez disso, o Muro das Mães é visto como um grupo de ativistas que usam seu privilégio para protestar contra o mesmo racismo e classismo sistêmicos que as Karens procuram explorar.


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Escrito por: Ashitha Nagesh - BBC News

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