Inhambane tem servido de rota a muitos traficantes de seres humanos. Usam a província como plataforma para chegarem aos países vizinhos. Muitas das vítimas são usadas na prostituição ou para trabalhar em minas ou explorações agrícolas.

Arnaldo Osmar conta que a sua neta foi roubada ainda bebé, com apenas três meses , e foi encontrada mais tarde, com quatro anos de idade, na África do Sul.

"Apareceu essa menina, que era amiga da minha filha mais velha. Ela pediu a criança e colocou-a no colo para ir fazer compras na cidade. De lá, ela sumiu. Depois de uma semana, ligou aquela gente da África do Sul [a dizer] que a criança estava lá", explica Osmar.

A neta tem agora cinco anos. No próximo ano, deverá ingressar na escola.

É difícil obter estatísticas recentes sobre o número de casos de tráfico de seres humanos em Moçambique. As autoridades não revelam dados. No entanto, em 2018, a Procuradoria-Geral da República anunciou que o país regista cerca de mil casos de tráfico de pessoas por ano.

As falhas de Moçambique

Um relatório do Departamento de Estado norte-americano, relativo a 2019, refere que o Governo moçambicano ainda "não cumpre plenamente os padrões mínimos" para eliminar o tráfico de seres humanos, embora esteja a fazer "esforços significativos" nesse sentido.

Em Inhambane, José Manuel Cutana, procurador do Ministério Público e coordenador provincial do combate ao tráfico de seres humanos, está preocupado com o fato de a província continua a servir de corredor para criminosos:

"Ao nível da província de Inhambane é sabido que estamos no corredor e transitam por aqui pessoas de várias proveniências", diz.

José Manuel Cutana assegura, no entanto, que está a decorrer um trabalho nos distritos, junto à população, para alertar para o problema:

"Alertar, educar e sensibilizar para as várias formas. Como [esse] fenómeno pode aparecer e sobretudo como pode-se evitar que este fenómeno lhes afete", explica.

O papel dos Curandeiros

Entre as vítimas dos traficantes estão pessoas com albinismo, que são raptadas e assassinadas, sendo parte dos seus corpos usadas por curandeiros que acreditam nos seus supostos poderes mágicos.

Hugo Neves Firmino, coordenador da associação Amor a Vida, vocacionada na proteção das pessoas com albinismo em Inhambane, diz à DW África que é preciso ir à raiz do problema e penalizar duramente os traficantes e os seus mandantes, deixando bem claro que o crime não compensa.

"É preciso que se reforce todas medidas para proteger as pessoas, não só ao nível da comunidade, mas também o Estado. É preciso que se penalize toda e qualquer pessoa envolvida no tráfico. Muitas vezes, as pessoas que estão por detrás são curandeiros", salienta Firmino.

Bernardo Carlos, presidente da Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique AMETRAMO, distancia-se firmemente dos curandeiros envolvidos no tráfico de pessoas ou de órgãos humanos.

"Não existe nada num órgão humano que possa fazer qualquer coisa para alguém ficar rico. A população deve ficar atenta porque existe muitos curandeiros falsos."

por: Luciano da Conceição (Inhambane)

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.