A questão é complexa, e vai ao âmago de um dos principais problemas no mundo quando se trata de combater esta nova pandemia: a pobreza extrema e a falta de condições sanitárias em muitas da zonas pobres do globo. O Equador, de momento, regista cerca de 7.500 casos confirmados – ficando apenas atrás do Brasil –, a que se junta 355 mortos. Só a província de Guayas e a sua capital, Guayaquil, a maior cidade depois da capital nacional Quito, concentra 72% dos contágios, a crer nas autoridades locais.

Para os habitantes do bairro Nigéria, uma das áreas mais pobres de Guayaquil, a possibilidade de contágio é vista como um mal menor face a outros problemas, diz quem aí vive, apontando a falta de comida como o grande problema do confinamento. Estas pessoas conhecem a fome e temem-na mais do que o coronavírus.

"As autoridades dizem às famílias: fiquem dentro de casa, mas não vão além disso. A necessidade que tínhamos antes disto [a pandemia de COVID-19] é ainda pior agora", desabafa o líder comunitário Washington Angulo, de 48 anos, cuja família foi uma das fundadoras deste assentamento de afrodescendentes, na década de 1980.

As tensões explodem todos os dias por volta das 14 horas, quando começa o toque de recolher das 15 horas, imposto pelo governo equatoriano para enfrentar a pandemia. Neste contexto, as denúncias de abusos por parte da polícia explodiram nas redes sociais.

Totalmente desprotegidos

O bairro da Nigéria, onde vivem cerca de oito mil famílias famílias, estende-se junto ao estreito de água de Mogollón, um dos braços marítimos que entra por Guayaquil, eixo económico do Equador e uma das cidades latino-americanas mais castigadas pela pandemia.

Sem nenhum contágio confirmado, na Nigéria ouve-se apenas falar da tragédia que afeta muitas famílias de Guayaquil, as quais tiveram de esperar vários dias com seus mortos nas casas, face ao colapso dos sistemas de saúde e funerário.

Enquanto toda esta tragédia toma lugar, no bairro os homens bebem nas esquinas, alguns transformam as ruas estreitas em campos de futebol e as mulheres reúnem-se, enquanto as crianças brincam perto das poças de água estagnada.

Poucos usam máscara e não se veem luvas. Distanciamento social é algo inexistente: as saudações continuam a ser feitas com apertos de mão.

Em cada casa, pequenas e precárias moradias com tetos de zinco, vive mais de uma família. O calor sobe até 32 graus centígrados. Não há ar-condicionado, nem ventoinhas, apenas um aparelho de televisão para todos.

A depressão económica causada pela pandemia deixou sem trabalho a maioria dos moradores desta comunidade, entre vendedores ambulantes, catadores e recicladores de lixo, cozinheiros a até ‘arrumadores de carros’.

Com a ajuda de doações de empresas privadas, as autoridades locais tentam amenizar a situação de emergência, entregando cestas com produtos básicos, só que não chega para todos. Em plena paralisia económica, o governo está a dar 60 dólares de subsídio para as famílias mais pobres.

Contudo, e em bairros como a Nigéria, a bomba-relógio pandémica continua a fazer tique-taque.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.