Belarmino Jelembi, diretor-geral da Ação para o Desenvolvimento Rural e Ambiente (ADRA), comentava à agência Lusa o fim da vida política ativa do ex-Presidente angolano José Eduardo dos Santos, que sábado vai deixar também a liderança do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), com a realização do VI Congresso Extraordinário do partido que chefiou desde 1979.

Para o diretor da ADRA, uma organização não-governamental criada há 28 anos, José Eduardo dos Santos deixa um legado de "passivos e ativos", com aspetos positivos e negativos. Mas a sensibilidade que o assunto impõe só permite a discussão "daqui a algum tempo, com um bocado mais de distanciamento".

"Hoje há muita emotividade, muitos aspetos ligados ao seu legado que afetam o nosso dia-a-dia e a reflexão está muito condicionada. Precisamos de algum tempo para com distanciamento, mais lucidez, analisarmos com mais profundidade", disse o diretor-geral da ADRA, organização que defende um desenvolvimento rural democrático e sustentável e um processo de reconciliação nacional e de paz em Angola.

Contudo, Belarmino Jelembi entende que "há um sentimento geral de que houve um período importante no legado do Presidente José Eduardo dos Santos", o fim da guerra em 2002, a garantia da integridade nacional e a forma como protagonizou, desde então, a transição para a paz.

"Mas, aí, iniciou um novo ciclo, em que quase todo o capital político e prestígio que tinha granjeado, começou a ser posto em causa com o modelo de desenvolvimento que conduziu e liderou, um modelo que levou a uma concentração de riqueza, que hoje é um dos principais dramas do nosso país. Esse é um passivo importante no seu legado", apontou.

Outra nota que também considerou importante tem a ver com o papel de líder do MPLA, que, "depois dos acordos de paz, quando se iniciam os acordos com a China para a reconstrução nacional, emerge o círculo do Presidente e quase que desaparece a liderança do MPLA".

"Agora, nos últimos anos, começamos a ver um MPLA normalmente ativo, mas, durante vários anos, durante o período de reconstrução, emergiu o arquiteto da paz, a figura quase que endeusada levando quase ao desaparecimento da hierarquia do MPLA. Creio que isso também marcou bastante a sua liderança", frisou o associativista.

Belarmino Jelembi reiterou a necessidade de mais alguns anos, "para uma reflexão com maior lucidez, um bocado distanciado dos problemas em concreto".

"Hoje, as pessoas estão muito envolvidas com a [falta de] água, com a luz, com o emprego, e tem de se imputar isso a alguém, a uma liderança. É dessa maneira que eu vejo o legado do Presidente José Eduardo dos Santos. Há um ativo importante, mas também há um passivo, que vai durar algum tempo", asseverou.

Sobre a assunção da liderança do MPLA por João Lourenço, Presidente de Angola há um ano e atual vice-presidente do partido, único candidato à substituição de José Eduardo dos Santos na chefia da organização política, Belarmino Jelembi é de opinião que é "a medida mais sensata" face às circunstâncias atuais de um país "em transição".

"Entretanto, há desafios importantes. Um deles decorre da necessidade de a liderança ter contrapesos. Eu sou um bocado contra a ideia do chefe supremo, do líder imperador, porque, quando vamos por esse caminho, rapidamente deixamos de ser governados por aquele que nós elegemos", avançou.